Crítica | Em Chamas (2018)

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Lee Chang-dong é um diretor de filmes longos. Sol Secreto (2007) e Poesia (2010), suas duas produções imediatamente anteriores a Em Chamas (2018) também ficaram por volta das 2h25 de duração e todas mantinham um ritmo bastante peculiar. Nesta fita de 2018, porém, a questão da duração e o encadeamento do drama se estruturam de uma forma em que a lentidão deixa de ser um jogo positivo; um convite a entender, acompanhar e construir personagens, e passa a ser o resultado final de um corte que poderia facilmente ficar com meia hora a menos.

Falar sobre Em Chamas é difícil. Baseado no conto Barn Burning, de Haruki Murakami e também numa obra de mesmo nome, de William Faulkner, a película é um longo estudo de personagem, marcado por um encontro casual de vizinhos de infância, pela solidão de dois jovens que lutam por seus sonhos e por uma divisão misteriosa de caminhos. O roteiro, de Chang-dong e Oh Jung-Mi é rápido em nos conectar com Lee Jong-su (personagem maravilhosamente interpretado por Yoo Ah-In), mas essa é a única rapidez que teremos no filme. A partir do momento em que o vemos se encontrar com Shin Hae-mi (Jeon Jong-seo), o filme nos dá pedaços do cotidiano da dupla, mostrando a relutância e a angústia de cada um, fazendo-nos entender uma delicada relação que em pouco tempo conheceria um estranho impasse.

Os primeiros 36 minutos do filme são de indícios comportamentais. Neles, a câmera destaca os olhares de ansiedade, de confusão diante do novo, de adaptação. Os diálogos dão conta de questões externas, enquanto que a câmera e a muito precisa trilha sonora (bem escolhida e aplicada) nos indicam o interior dos personagens. Um gato precisando ser alimentado é a última fronteira da normalidade. Até que uma viagem e um encontro fora de tela nos traz aquilo que faz com que o filme passe para o seu segundo ato, onde é introduzido Ben, o personagem de Steven Yeun (sim, sim, o Glenn, de The Walking Dead), que não começa com uma boa interpretação mas, aos poucos, vai refinando sua presença em tela e termina absolutamente fascinante.

SPOILERS!

A partir da chegada de Ben e Hae-mi de uma viagem à África, as coisas começam a mudar e o filme perde um pouco de sua força inicial, porque o núcleo é paulatinamente substituído por um outro tipo de história — e não é a única vez que veremos esse tipo de readequação narrativa no enredo. Daí em diante, a construção dos personagens contará com um tipo de quebra de expectativas para o amor, com Lee sendo escanteado por Hae-mi, que cai nas graças do ricaço Ben.

Por mais que este segundo ato não tenha uma boa chegada, ele acaba se tornando o mais interessante da fita. É aí que o jogo de símbolos do filme ganha toda a sua força e temos dois dos melhores momentos da fotografia de Em Chamas, o primeiro, com a dança nua de Hae-mi ao entardecer; e o segundo, com a conversa entre Ben e Lee, na mesma tarde, enquanto o Sol se põe, uma cena que demorou cerca de um mês para ser finalizada, porque o diretor e o fotógrafo só podiam filmar alguns minutos por dia, para pegar a luz correta e acertar a passagem do tempo com a montagem. Um trabalho hercúleo que resultou em um triunfo visual. É neste ato do filme que Ben pede para que Hae-mi pergunte a Lee o que é uma metáfora. E esta é a principal pista que a gente vai ter a respeito de Ben ser um assassino em série de mulheres. Um assassino nada comum.

Dos 36 minutos até 1h21, o ato do triângulo quase amoroso é construído. Como já apontei, não penso que seja um bloco que começa bem, mas certamente termina com chave de ouro, após a história do jovem rico sobre “queimar estufas” e o sonho de Lee, criança, vendo uma estufa queimar. Notem que a partir daí, Hae-mi não aparecerá mais na história. E Lee, que não entendeu a metáfora, fica procurando uma “estufa queimada nas redondezas”. Daí para frente, temos o ato da busca e da muda descoberta, que segue até o final do filme. Nele, mantém-se o excelente uso da trilha sonora, uma atuação cada vez mais aplaudível de Steven Yeun — que nessa reta final se sobressai a Yoo Ah-In — e uma angustiante sensação de que há algo para ser dito, mas nunca é. Particularmente gosto dessa escolha dos roteiristas, que em nenhum momento subestimam a inteligência do espectador. No entanto, a lentidão do filme, já a este ponto, é desnecessária, e muitas cenas de contexto e identificação acabam parecendo um loop de sofrimento que já havia ficado claro meia hora antes. E então o filme passa a flertar com a redundância.

Pelo seu significado e final poderoso, Em Chamas (2018) é um filme que merece atenção. O problema é que essa atenção não é nada fácil de conquistar. A longa duração e especialmente o último ato da fita não facilitam muito o acesso ao público, que ainda deve ter considerável dificuldade em ligar algumas pontas, o que não necessariamente é “culpa do filme”, mas é um dado que não podemos ignorar: a obra é bastante aberta a interpretações e sugestões. Dependendo do espectador, uma viagem de 148 minutos para se ter o trabalho de arrumar, sozinho, as imagens poéticas, pode não valer tanto a pena assim.

Em Chamas (Beoning) — Coreia do Sul, 2018
Direção: Lee Chang-dong
Roteiro: Lee Chang-dong, Oh Jung-Mi (baseado em de Barn Burning Haruki Murakami)
Elenco: Ah-In Yoo, Steven Yeun, Jong-seo Jeon, Soo-Kyung Kim, Seung-ho Choi, Seong-kun Mun, Bok-gi Min, Soo-Jeong Lee, Hye-ra Ban, Mi-Kyung Cha, Bong-ryeon Lee
Duração: 148 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.