Crítica | Em Luta Pelo Amor

Em Luta Pelo Amor é um filme sobre abnegação e adequação diante de situações adversas que nos tiram dos caminhos que planejamos trafegar ao longo de nossas vidas. Pode uma prostituta amar? No período em questão, isto é, o século XV, em Veneza, na Itália, as cortesãs eram mulheres elegantes e cultas, pois forneciam arte e conhecimento além das trivialidades sexuais. O destino destas mulheres era se deleitar com a luxúria, o prazer, as vantagens do consumo e da “boa vida”, mas o amor era algo idealizado e distante, afinal, ressoava ainda o esquema de casamento como aliança entre famílias de poder aquisitivo para manutenção de status.

O amor, neste segmento, era luxo e sentimento utópico para criação de poemas. A protagonista da história é uma cortesã que aceitou o caminho, mas a entrada para esse universo sensual reflete complicações de ordem sentimental. Apaixonada por Marco Vernier (Rufus Sewell), ela é deixada de lado por conta do sobrenome pouco representativo diante dos interesses da família do rapaz, focada na união que fornecesse alpinismo social aos envolvidos. O seu nome é Veronica Franco (Catherine McCormack). Especialista nas letras e na arte do sexo, ela se torna a favorita da aristocracia. O seu legado traz até mesmo um pacto político poderoso, pois a cortesã deitou-se com um rei francês em troca de embarcações emprestadas para que os italianos vencessem a guerra contra os turcos invasores territoriais.

Depois disso ela se torna suprema, desejada, mas também alvo de asco e ódio das esposas que viam os seus maridos distantes, encantados pelo olhar “enfeitiçador” da cortesã que “era paga para fazer os homens, momentaneamente, se iludirem”. Marshall Herskavitz dirigiu o roteiro de Jeannine Dominy, texto dramatúrgico inspirado no romance de Margaret Rosenthal, uma trama de 111 minutos sobre a transformação de uma mulher na mais bela cortesã de sua época, um tempo conhecido pela submissão feminina ao gerenciamento político, social e familiar do patriarcado. Inicialmente ela acha tudo estranho e não se conforma, mas ao passo que seu poder e imagem ganha presença vibrante, a cortesã começa a aceitar e se deleitar com seu destino.

Os problemas começam a surgir depois que os seus principais admiradores estão distantes, em combate. A Inquisição faz o seu trabalho de eliminação das imoralidades que acometem a sociedade e a família de Veronica é um dos focos, pois a peste que assolou parte do continente europeu na época fez-se fortemente presente em Veneza, cidade que era acusada de ser um bordel a céu aberto, um antro de prostituição e pecado. Acusada de bruxaria, a cortesã é levada para julgamento. Assim, a cidade que dependeu dos seus serviços patrióticos é a mesma que agora a acusa de bruxaria, algo que pode ceifar a sua vida diante de um julgamento repleto de hipócritas.

Com diálogos acirrados mesclados com momentos melodramáticos, Em Luta Pelo Amor é um filme acima da média que reflete a condição da mulher e a representação do amor numa época de transformações na constituição da sociedade. Não vivia-se mais nos códigos medievais, mas a Igreja ainda exercia o seu poder enquanto poderosa Instituição responsável por ditar modelos e comportamentos. Visualmente deslumbrante, a bela arquitetura, bem como as condições lúdicas da geografia de Veneza, tornam-se bem estilizadas, graças ao eficiente trabalho da direção de fotografia (Bojan Bazelli) e do design de produção (Norman Garwood). Os figurinos de Gabriella Pescucci conseguem levar a protagonista do “lixo ao mito”, tendo como reforço visual a cenografia de Ian Whittaker e a direção de arte de Stefania Cella, profissionais que merecem destaque em um filme que depende bastante do design para conseguir emular o clima e os sentimentos que habitam o imaginário sobre a época.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, Em Luta Pelo Amor é um filme sobre o passado, mas que reflete uma espécie de modernidade libertária, pois metaforiza questões da mulher na contemporaneidade. Repleta de anseios, a protagonista mostra-se dona de si constantemente, mas não deixa de lado os sentimentos e a vontade de amar, sentimento que na época, apesar de ser luxo diante das condições socioeconômicos que regiam os casamentos arranjados, também era reforçado pelas produções poéticas sensuais de Camões, Dante, Petrarca, dentre outros.

Em Luta Pelo Amor — (Dangerous Beauty) Estados Unidos, 1998.
Direção: Marshall Herskovitz
Roteiro: Jeannine Dominy
Elenco: Catherine McCormack, Fred Ward, Jacqueline Bisset, Moira Kelly, Naomi Watts, Oliver Platt, Rufus Sewell
Duração: 93 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.