Crítica | Em Pedaços

Todo cinéfilo geralmente conhece as regras de um filme slasher.  Randy, personagem de Pânico, em 1996, utiliza Halloween – A Noite do Terror, de John Carpenter, para ilustrar as regras básicas de um dos subgêneros mais profícuos do terror.  A primeira regra é nunca fazer sexo. “Sexo é igual a morte”, por isso, proibido. A segunda imposição é o “fator pecado”, isto é, não beber, tampouco usar drogas. A terceira é nunca dizer “eu já volto”, em circunstância alguma, pois “você nunca voltará”. Foi por meio destas regras que os filmes de psicopatas mascarados, munidos de armas brancas, dominaram a indústria cinematográfica na passagem dos anos 1970 para os anos 1980, marcada pelo estabelecimento da santíssima trindade do terror: Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger.

Em Pedaços é um documentário dirigido por Michael Ruggiero, guiado pelo roteiro escrito por J. Albert Bell, Michael Derek, Rachel Belofsky, trio responsável por adaptar o livro homônimo de Adam Rockoff e Rudy Scalese. Lançada em 2006, a produção traz, em seus 88 minutos, um desfile luxuoso de depoimentos dos cineastas, maquiadores, atores, atrizes e produtores envolvidos na concepção das narrativas sanguinárias que marcaram o subgênero. Os depoimentos apontam Marion Crane, assassinada no chuveiro, “castigada” por conta do seu roubo e comportamento, como o ponto de partida para a “moral” slasher. Psicose, de Alfred Hitchcock, seria então, a germinação do que se tornariam os filmes de antagonistas assassinos mais adiante.

Falta ousadia narrativa? Sim. No entanto, cumpre a sua função informativa, desde o início descompromissada com o aparato estético. Com recorte analítico entre 1978 (Halloween) e 1996 (Pânico), Em Pedaços, narrado por Ed Green, começa seguindo o “estilo documental” dos primeiros instantes de O Massacre da Serra Elétrica. Logo mais, passeia pelo giallo, explica as relações entre os cineastas estadunidenses e os italianos, em especial, Mario Bava e Dario Argento, além de falar da concepção da final girl, personagem que consegue avançar na história por conta do “moralismo”, isto é, alguém que reprime seus impulsos sexuais, evita drogas e bebidas, além de palavrões.

Ao longo do documentário, os relatos esclarecem que Halloween – A Noite do Terror estabeleceu o subgênero nos Estados Unidos, discretamente, com muita sugestão e estética apurada, banalizado posteriormente pelo excesso de sangue e violência dos “imitadores”, inclusive as continuações que demarcam a linha do tempo da franquia. Era um momento de projeção dos movimentos femininos, na sociedade civil e na academia, fator preponderante para a sua posição de enfrentamento diante dos antagonistas que representavam o patriarcado e a opressão.

Apesar do subtexto, alguns filmes se tornaram mero empreendimento, um sistema que se realimenta constantemente, numa repetição excessiva de fórmulas que consolidaram o público. Em 1981, cerca de 30 filmes do subgênero slasher estrearam nos cinemas estadunidenses. Quando Jason começa a declinar, Freddy surge como injeção de ânimo no campo de produção. Dentre os questionamentos dos depoentes, há um curioso: teria sido Hannibal, em O Silêncio dos Inocentes, um “slasher de luxo”? Proposição, o mínimo, intrigante.

Diferente dos vampiros e lobisomens de outrora, o inimigo era “outro humano” entre 1970-1980, período de busca pelo escapismo diante dos “recentes” problemas políticos (Watergate, Vietnã, etc.), bem como o surgimento da AIDS, o chamado “inimigo invisível”. A exposição das observações em questão fica por conta de Wes Craven, John Carpenter, Sean S. Cunningham, Joseph Stefano, Tom Savini, Debra Hill, Rob Zombie, Harry Manfredini, Betsy Palmer, Greg Nicotero, Amy Holden Jones, Janeth Leigh, Joseph Zito, Nick Castle, Adrienne king, Moustapha Akkad, Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence, dentre tantos outros.

Com uso de imagens de arquivo, Em Pedaços se revela um documentário eficiente para ilustrar aos leigos os pontos de convergência sociais e estéticos que promoveram o estabelecimento do slasher enquanto subgênero rentável para a indústria, odiado por algum tempo pela crítica e cultuado há bastante tempo por uma fiel legião de fãs. Editado por Michael Derek Boruzs e conduzido musicalmente por Harry Manfredini, de Sexta-Feira 13, o documentário finca a bandeira do ressurgimento do slasher no lançamento do primeiro filme da franquia Pânico, numa análise panorâmica que revela a importância de alguns filmes do segmento para a radiografia de questões sociais importantes na época.

Conforme expôs Jeffrey Goldstein em determinada ocasião, os filmes do segmento têm a mesma função que os contos populares infantis, ou seja, narrativas que visam informar que existe mal nos lugares menos suspeitos e que é preciso se “comportar”. Quem imaginaria um psicopata mascarado no lago Crystal Lake? Como imaginar que Michael Myers atacaria no tranquilo subúrbio de classe média em Haddonfield? O sono, nosso momento de tranquilidade, perigoso também na conjuntura de Invasores de Corpos, se tornou arriscado para os jovens em Elm Street. Em suma, narrativas sobre os nossos medos, acrescidas de algumas doses cavalares de tensão e  mortes criativas.

Em Pedaços (Going To Pieces, Estados Unidos – 2006)
Direção: Michael Ruggiero
Roteiro: Mark Frost, Nicholas Conde
Elenco: Wes Craven, John Carpenter, Sean S. Cunningham, Joseph Stefano, Tom Savini, Debra Hill, Rob Zombie, Harry Manfredini, Betsy Palmer, Greg Nicotero, Amy Holden Jones, Janeth Leigh, Joseph Zito, Nick Castle, Adrienne king, Moustapha Akkad, Jamie Lee Curtis, Donald Pleasence
Duração: 88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.