Crítica | Em Ritmo De Fuga (Trilha Sonora)

estrelas 5,0

Se existe um tipo de álbum difícil de ser dissecado em uma crítica, esse é a trilha sonora não incidental. Sempre achei complicado dissertar sobre trilhas do tipo, afinal, o que está ali para avaliar diz respeito muito mais a seletividade do autor na hora de escolher músicas do que a análise qualitativa de cada uma. Tal obra nada mais é que uma playlist, o formato mais popular de ouvir música atualmente, em grande parte devido aos atuais serviços de streaming. E alguns diretores são bastante espertos na hora de incorporar tal característica em seus filmes – seja James Gunn com sua franquia Guardiões da Galáxia, ou Tarantino, que tem culhões suficiente pra tocar hip-hop e soul em um faroeste. Pois acrescente mais um: Edgar Wright faz de seu novo longa, Em Ritmo de Fuga, uma experiência audiovisual única em que a música é a grande protagonista.

O papel da música é tão central para o filme que Edgar já admitiu ter criado grande parte das cenas em cima das canções escolhidas, fazendo com que as sequências batessem com a duração destas. O diretor espalha todo seu ecletismo e conhecimento musical ao longo da compilação: rock, hip-hop, jazz, blues, soul; parece haver espaço para todo tipo de sonoridade no catálogo de Wright, seja canções clássicas ou pouco conhecidas, inserindo faixas de diversos períodos temporais, embora privilegie ritmos da década de 70 (a melhor das décadas para a música).

Para compensar a ausência de uma trilha orquestrada – escolha padrão de filmes de ação/aventura – muitas faixas instrumentais são escolhidas a fim de dar textura ao filme. Let’s Go Away For Awhile – uma das melhores e mais subestimadas composições dos Beach Boys, retirada do icônico Pet Sounds – se encaixa perfeitamente no longa, mais precisamente no contemplativo primeiro encontro de Baby e Debora. O jazz também é figura marcante por aqui no quesito ambientação, seja através dos metais de Kashmere (Kashmere Stage Band), que entregam um charme único e cheio de personalidade, o swing de palmas em Unsquare Dance (Dave Brubeck), ou a energia contagiante da dançante Smokey Joe’s La La (Googie Rene).

Claro, uma obra com o enredo de Em Ritmo De Fuga não poderia faltar guitarras, e aí que entra a visceralidade do punk britânico dos The Damned em Neat Neat Neat, a guitarra feroz e sofisticada de um Brian May em chamas em Brighton Rock (Queen), ou a progressividade inesquecível da icônica Hocus Pocus, famosa faixa dos holandeses do Focus; todas estas canções servindo de base para alguns dos momentos mais frenéticos do longa de Wright. Assim como o rock, o Soul e R&B são presenças constantes, neste caso denotando os momentos mais emotivos e românticos do roteiro. Toda a doçura das melodias da Motown aparece em Nowhere To Run (Martha Reeves And The Vandellas) e Easy (Commodores), essa última tendo entrado na seleção musical graças a escolha de Ansel Elgost em interpreta-la em sua audição para o papel de Baby.

A lista de faixas ainda inclui três originais do filme: um cover de Sky Ferrera para Easy, um remix de Was He Slow feito por Kid Koala, e o rap frenético de Chase Me, produzido por Danger Mouse e estrelando os versos sagazes de Run The Jewels e Big Boi por cima de um sample de Bellbottoms – a excelente e enérgica faixa de Jon Spencer Blues Explosion que funciona quase como o tema de Em Ritmo De Fuga, abrindo o longa em grande estilo.

O musical de ação de Edgar Wright desde já é uma referência no uso da primeira das artes em um filme. Tiros, roncar de motores e demais onomatopeias se encaixam perfeitamente à grande ambientação sonora que o diretor constrói aqui. Desfilando um bom gosto e conhecimento enorme a respeito de música, temos aqui uma playlist obrigatória para qualquer um; esteja você fugindo em alta velocidade ou não.

Aumenta!: Hocus Pocus (Focus)
Diminui!:

Baby Driver (Music From The Motion Picture)
Artista: Vários Artistas
País: Estados Unidos
Lançamento: 23 de junho de 2017
Gravadora: 30th Century Records
Estilo: Trilha Sonora

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.