Crítica | Em Um Mundo Melhor

“A prática da violência, como toda ação, transforma o mundo, mas a transformação mais provável é em um mundo mais violento.”

Sobre a Violência, de Hannah Arendt

Já vivemos em um mundo melhor? Já fomos menos vaidosos, egoístas, orgulhosos e cruéis? Mais gentis e mais solidários? O oposto pode também ser questionado: o progresso da ciência e da técnica tornou o nosso mundo brutalmente melhor? Uma vida mais conectada e com mais medicamentos para prolongá-la nos tornou mais felizes ou apenas mais longevos? O melhor filme da carreira da dinamarquesa Susanne Bier traz todas essas questões em seu bojo. Mas Em Um Mundo Melhor não necessariamente responde a todas elas. Pelo contrário, no máximo ensaia respostas. Acanhadas. Sem esconder suas dúvidas e suas ambivalências.

Se em Coisas Que Perdemos Pelo Caminho, a diretora escandinava abusa do drama e simplifica soluções, no longa-metragem de 2010, ela costura sua história para ser uma verdadeira pedra no sapato de quem assiste a ela. O enredo se divide entre dois cenários opostos. Anton (Mikael Persbrandt) trabalha como médico sem fronteiras no coração do Sudão, em condições extremamente precárias e tratando de uma comunidade paupérrima de refugiados. Sua família está em pleno colapso na Dinamarca. Pai ausente, ele enfrenta também um processo de divórcio de Marianne (Trine Dyrholm), que se sente solitária. Seu filho Elias (Markus Rygaard) sofre bullying na escola e acaba se aproximando de Christian (William Jøhnk Juels Nielsen), garoto rebelde, que perdeu sua mãe por câncer e culpa seu pai Claus (Ulrich Thomsen) por uma eutanásia que o filme deixa nas entrelinhas de seu roteiro.

Susanne Bier interliga as três histórias para inserir seu tema principal em diferentes perspectivas. Do ponto de vista geográfico, a fotografia de Morten Søborg consegue contrapor muito bem as duas realidades antípodas. Os tons quentes e ensolarados da aridez africana se intercalam com a fotografia outonal e arrefecida com que se retratam os campos e a vegetação viçosa da Escandinávia. Mas que não haja enganos: a dinamarquesa insere o tema da violência com igual pujança em ambos os cenários. É uma satisfação notar que ela globaliza a questão da violência. Rejeita qualquer engodo de realizar um filme eurocentrista. A violência se manifesta com todo o seu vigor, sem predileção por pobres ou ricos, brancos ou negros, terceiro-mundistas ou primeiro-mundistas. A tese principal do filme será testada em ambos os locais: à violência deve-se responder com violência ou deve-se sempre oferecer a outra face?

Essas hipóteses são enunciadas pelos personagens dos dois melhores atores do filme (ou pelo menos, que mais se destacam). Christian surra o líder do grupo que praticava bullying contra Elias usando uma bomba de bicicleta. Ele obtém resultado – o menino espancado se amedronta e a tortura diária com o personagem de Rygaard chega ao fim. A partir desse momento, o revide será seu modus operandi. Já Anton testará o oposto. Agredido em um parque, ele levará os próprios filhos à oficina mecânica do agressor para demonstrar que quem agride acusa a própria derrota. “É assim que todas as guerras começam” é o que se diz no filme em certo momento, em defesa da tese de que a violência praticada em âmbito doméstico é apenas um ensaio para as violências de maior monta e capacidade de destruição.

O que há de mais interessante no longa-metragem é notar que os dois protagonistas de Em Um Mundo Melhor conduzem seus atos regidos por suas hipóteses ao longo de todo o filme. Mas a obra consegue ser didática sem adquirir um tom professoral arrogante ou definitivo. As hipóteses são defendidas, se interceptam, se chocam e, por fim, se transformam sem que, para isso, o filme precise ser diluído por sentimentalismos fáceis nem transformado em um panfleto insuportável. No filme de Bier, tudo está sob medida. Ela domina a direção e se mostra uma grande diretora de atores, extraindo de William Jøhnk Juels Nielsen uma atuação infantil formidável e dando liberdade para Mikael Persbrandt realizar uma performance verdadeiramente estupenda. Um ator da maior envergadura, sem dúvidas. Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, veteranos do cinema dinamarquês, também aparecem em seu nível habitual, embora seus personagens não sejam tão centrais.

E o rumo que as duas hipóteses tomam é de um brilhantismo a ser ovacionado. Fiel à ideia de que se deve responder com violência aos aviltamentos do mundo, Christian sentirá da pior forma as consequências dramáticas e imprevisíveis de seus atos. Já Anton se vê em uma situação extrema na África e esbarra nos limites de sua própria postura. Opta pela violência, que havia condenado com tanta veemência. Como ser pacifista em um cenário onde a violência nos esmaga por todos os lados? Onde encontrar a ética, seja ela médica ou genericamente humana, se tudo o que resta é mesmo a violência? Na contramão, vale a pena empreendê-la, se seu alcance é imprevisível e o rastro de destruição que ela deixa não pode ser mensurado? Cada hipótese encontra o seu inverso como um obstáculo desconcertante.

No filme, há somente uma certeza: não há respostas prontas. Se às vezes só a violência parece possível, é válido também questionar – sem as experiências pacifistas que tivemos, a sangrenta história humana não teria sido ainda mais hedionda? Ou será o pacifismo mera tolice? Coisa de gente infantil ou delirante? Qual a medida para tudo isso? Possivelmente, uma das perguntas mais espinhosas e sérias que poderíamos nos fazer. O certo é que há consequências. Essa é a duríssima lição que Anton e Christian aprenderão juntos.

Há quem julgue o final de Em Um Mundo Melhor um tanto folhetinesco, em que tudo termina bem. Vejo um grave problema nessa interpretação e o motivo é bastante simples: nada termina. As questões mais fundamentais que o filme suscita permanecem quentes e incômodas mesmo quando sobem os créditos. Mas se há certo tom de final feliz, primeiro é preciso desfazer a ideia viciada de que obras geniais precisem necessariamente terminar em desgraceira geral. Esse é um cacoete muito aborrecido sobre a arte. Em segundo lugar, a ausência de final lastimoso constitui a chave para o mundo melhor que o filme anuncia (ao menos em seu título traduzido). Se continuamos sem respostas para as mais dolorosas chagas da existência, que ao menos o amor e o perdão nos permitam tomar fôlego para suportar o sufocamento brutal em um mundo onde a violência nos persegue no encalço de nossa história.

Em Um Mundo Melhor (Hævnen) – Dinamarca, 2010
Direção: Susanne Bier
Roteiro: Anders Thomas Jensen, Susanne Bier
Elenco: Eddie Kihani, Emily Mglaya, Gabriel Muli, Markus Rygaard, Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, Wil Johnson, William Jøhnk Nielsen
Duração: 118 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.