Crítica | Embriagado de Amor

estrelas 4

Paul Thomas Anderson e Adam Sandler unidos numa comédia romântica. Parecia uma aliança inusitada, e também digna de desconfiança, já que ter Sandler a frente de um projeto já poderia ser encarado como sinônimo de algo ruim. Mais do que isso, para que o diretor dos explosivos Boogie Nights – Prazer Sem Limites e Magnólia se entregasse para um gênero tão popular e conhecido por sua falta de criatividade, era sinal de que alguma surpresa estava por vir, pudesse ser ela positiva ou negativa. As expectativas eram mistas, já que um diretor autoral unido a um ator que era mais conhecido como um palhaço ainda era algo relativamente inédito dentro do próprio Cinema.

E se a palavra “estranheza” poderia resumir as expectativas sobre este novo projeto de Paul Thomas Anderson, é esta mesma palavra que pode resumir as reações que Embriagado de Amor aflora no espectador. Mais uma vez povoado por personagens deslocados de seu próprio universo e internamente conflituosos, o filme é uma subversão dos próprios clichês do gênero, pondo seu foco em um detalhe exclusivo no que se trata sobre o ato de se apaixonar: o nervosismo, a ansiedade e a insegurança do momento. Mais além, Anderson insere outras linhas narrativas envolvendo o personagem Barry Egan (Sandler), que de alguma forma se conectam e resultam num estudo de personagem estilístico e consistente, mas também complexo e inesperado. Ou como já definido antes, estranho.

O filme foi idealizado pelo próprio Anderson após ler um artigo na revista Time sobre um homem que, após descobrir um erro de cálculo numa promoção de pudins que ofereciam milhas, comprou cerca de 12.150 embalagens de pudim ao custo de US$ 3 mil, acumulando mais de 1,25 milhão de milhas aéreas. Anderson comprou os direitos do caso e o inseriu dentro de sua trama de amor contemporânea, porém bizarra. Egan se apaixona por Lena (Emily Watson) justamente num dia em que um piano velho é misteriosamente deixado na porta de sua firma por um furgão, que em seguida sofre um grave (e surpreendente) acidente. Paralelamente a isso, Egan começa a ser chantageado por uma atendente de telessexo com a qual conversou numa noite.

Sem medo de ousar, Anderson cria uma narrativa cadenciada, inicialmente incomum, mas que aos poucos vai ganhando sentido dentro de sua própria idealização. Ou mais claramente, dentro da mente do próprio Anderson. Há aquele clima leve e agradável que apenas as melhores comédias românticas possuem, pontuadas por belos e encantadores momentos (como o encontro entre Barry e Lena no Havaí). Mas também existem alguns diálogos inesperados e originais, que trazem aquele toque autoral tão conhecido no cinema do diretor, que fazem de Embriagado de Amor uma experiência como poucas, intrincada e imprevisível.

Há um forte toque de surrealismo por trás dos personagens de Embriagado de Amor, ao mesmo tempo em que a visão particular e intimista de Anderson insere um toque realístico que, de alguma forma, se unem organicamente dentro da proposta da fita. O diretor concebe longos e delicados planos, que ressaltam a continua tensão entre as figuras na tela, acompanhando-os continuamente. A própria fotografia do filme ressalta a linearidade das situações em que Egan se encontra, oscilando entre um azul mais escuro e uma entonação mais clareada.

Sandler surpreende pela personificação contida e concentrada que faz de Barry Egan. Sua expressão e postura infantil, de ombros levemente curvados e olhar abobado caem como uma luva na composição do protagonista, que conquista, principalmente, pela já dita estranheza. A sempre experiente Emily Watson está adorável como Lena, seu par romântico, exibindo aqueles belos olhos azuis que chegam a magnetizar quem assiste. São estes dois que guiam a narrativa do longa, embora ainda haja a presença de alguns parceiros do diretor, como Luiz Guzmán e Philip Seymour Hoffman.

Embriagado de Amor representa mais um ponto positivo dentro da impecável filmografia de Paul Thomas Anderson, um diretor que não possui medo de ousar, de contrariar as expectativas, de inserir profundas camadas em suas realizações ambiciosas. Pode não ter sido tão aclamado quanto seus filmes anteriores e posteriores, mas em nenhum momento deve ser considerado um filme menor de sua carreira.

Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love – EUA, 2002)
Direção:
 Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Don McManus, Luis Guzmán, Rico Bueno
Duração: 95 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.