Crítica | “Encarnado” – Juçara Marçal

estrelas 4

Se existe um estilo musical que não perdeu tanta força (se comparado com o rock, por exemplo) no Brasil nos últimos anos, esse é a MPB. Quando digo MPB, me refiro a diferentes tipos de artistas, desde Luiz Gonzaga até Silva. Todo ano surge alguém de destaque nesse cenário e esse ano parece ser o ano de Juçara Marçal. Juçara exala experiência, já trabalhou em grupos como A Barca, Vésper e Metá Metá e agora chega a seu primeiro álbum solo, Encarnado.

Encarnado recebeu diversos elogios da crítica especializada e figurou entre os destaques desse primeiro semestre de 2014. Um álbum com um tema bem forte: a morte. Como a própria Juçara disse, o medo da morte é algo natural do ser humano, assim, o tema do disco não foi escolhido, mas percebido durante seu desenvolvimento. No entanto, o álbum faz diversas variações dentro da temática e não se prende a apenas isso.

O som do álbum passa longe do estilo “tradicional” de MPB e esse é o grande acerto: inovação. Em um trabalho bastante experimental, Juçara vai de afinações a gritos, melodias a ruídos, culminando em uma obra profunda, cheia de raízes. A sonoridade é diferente, mistura – em sua maioria – uma pequena orquestra de instrumentos de corda e diferentes distorções de guitarra. Tais características já são percebidas na faixa de abertura, Velho Amarelo, que soa bastante dramática, com uma letra um tanto complexa que carrega o tema da morte consigo.

A sonoridade de Juçara passa longe de artistas como Vanessa Da Matta ou Céu e se aproxima bem mais de artistas como Tom Zé e Arnaldo Antunes. Aliás, a influência é tão direta que a cantora fez um cover de Não Tenha Ódio no Verão do Tom Zé. Encarnado também aproveita pra mostrar a cultura africana, a qual a cantora cultua, em faixas como Odoya e Canção Pra Ninar Oxum.

As letras são pontos que merecem ser extremamente ressaltados. Apesar do disco tratar da morte em quase todas as faixas, podemos ver composições que soam divertidas e passam um clima mais leve ao trabalho, como A Velha da Capa Preta, que personifica a Morte com filosofias bem interessantes: “A vida é como um cigarro/ Que o tempo amassa e machuca/ E a morte fuma a bituca/ E apaga a brasa no barro…”. Ainda há a sensacional Damião, onde a letra alimenta uma suposta vingança do personagem título: “Dá neles, Damião!/ Bate até cansar”.

Ciranda do Aborto merece um parágrafo apenas pra ela. Tamanha é a profundidade que Juçara atinge, a canção narra um aborto clandestino, uma imagem perversa da morte. O sentimentalismo e a força com que a cantora interpreta impressionam, desabando em um experimentalismo cheio de ruídos alimentando um lado bastante obscuro da faixa. No fim, a possibilidade de derramar lágrimas é grande. Uma das melhores músicas da nova geração da MPB.

Juçara fecha o disco com João Carranca, um samba que há a presença apenas de um cavaquinho e da voz da cantora. A canção conta a saga de João Carranca, filho de uma prostituta que “usou e gastou o corpo que Deus lhe deu”“nunca teve cafetão”. A faixa transpira uma simplicidade ímpar e lembra grandes nomes do samba de raiz, como Noel Rosa.

Encarnado é um disco de grande qualidade, mas com certeza não é pra qualquer um. Pra gostar do álbum é preciso ter mais do que bons ouvidos, precisa de uma mente aberta. Esse é um disco experimental que brinca com diferentes e exóticas melodias. Aquele que conseguir abrir a cabeça e perceber a autenticidade dos arranjos no trabalho de Juçara não vai se arrepender, disso você pode ter certeza.

Encarnado
Artista: Juçara Marçal
País: Brasil
Gravadora: independente
Lançamento: abril de 2014
Estilo: MPB, experimental

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.