Crítica | Encontros e Desencontros

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estrelas 5,0

Minha vontade, ao escrever a presente crítica, era de simplesmente deixar meus leitores com a seguinte frase-resumo: Encontros e Desencontros é um poema audiovisual sobre a vida e as escolhas que fazemos que, assim como as melhores obras de artes plásticas e literárias, deve ser admirado, sentido e vagarosamente absorvido. Mas, infelizmente, preciso avançar com comentários racionalizadores desta verdadeira obra-prima de Sofia Coppola que, em minha lista pessoal, é um dos melhores filmes americanos da primeira década do século XXI.

A simplicidade é chave aqui. Uma obra focada exclusivamente em dois personagens que fotografa – sem preconceitos e estereótipos – dois momentos da vida de praticamente todos nós, que poderiam ser classificados como o início da vida independente e a meia-idade. Bill Murray é Bob Harris, ex-ator que vive de seus sucessos passados e que está no Japão para participar da campanha publicitária do uísque Suntory, que o tem como garoto propaganda. Scarlett Johansson é Charlotte, recém-graduada de uma faculdade de filosofia que está no mesmo país acompanhando seu marido (Giovanni Ribisi em não mais do que uma ponta), fotógrafo de uma banda de rock. Ambos estão no mesmo hotel. Ambos não conseguem dormir. Ambos estão sozinhos. Nessas condições, Bob e Charlotte se aproximam e, juntos, se encontram.

Assim como Coppola fez em As Virgens Suicidas, a abordagem é diferente do que se espera. Se, no longa de estreia da diretora, assuntos pesados foram tratados de maneira leve e orgânica, em Encontros e Desencontros ela, que escreveu o roteiro original (que ganhou o Oscar nesta categoria, com o filme, ela e Murray concorrendo a melhores do ano também), mergulha na complexa tarefa de traduzir em filme sentimentos profundos tanto sobre o futuro como quanto o passado e o quanto esses momentos afetam a vida presente. Bob queria continuar atuando em filmes e teatro, mas, muito provavelmente em razão de sua idade, e possivelmente também em razão de sua acomodação diante da vida, resume-se a posar com copos de uísque na mão tanto nos anúncios da marca que ajuda a vender, quanto à noite, no bar do hotel Park Hyatt de Tóquio. Charlotte deseja uma vida excitante, desafiadora, apaixonada, mas não encontra isso em seu ocupado e distraído marido e nem mesmo nela mesma.

O título em inglês – “perdido na tradução” em uma tradução direta – é representado de diversas formas ao longo da fita, incluindo de forma literal, quando o diretor do anúncio passa instruções para Bob em japonês que são “traduzidas” pela tradutora da maneira mais simplista possível, criando ruído na linha e impedindo a compreensão exata de sua intenção. Esse momento maravilhosamente desconcertante, que Murray faz daquele seu jeito quase debochado, reverbera durante toda a projeção, com Bob incapaz de se adaptar ao fuso horário, à língua e ao país em que está. Tudo para ele é alienígena e seus momentos de conforto (ou o mais próximo disso) se dão dentro de ambientes fechados em seu hotel. A fotografia de Lance Acord (parceiro de Spike Jonze em três filmes e que viria a fotografar Maria Antonieta, a obra seguinte de Sofia Coppola) trabalha muito bem esse estado de espírito de Bob, mantendo-o em ambientes de pouca luz, confinados e quase claustrofóbicos, de certa forma refletindo seu medo de tentar coisas novas e de acordar de seu torpor.

A confusão de Charlotte é semelhante, mas vemos que a jovem é ainda curiosa, com a proverbial “vida toda pela frente” diante dela. Acord, então, a representa por meio de tomadas em planos mais abertos mesmo quando nós a vemos em seu quarto, normalmente no parapeito do janelão com vista panorâmica para a cidade. As luzes neon de Tóquio parecem ecoar sua luz interna que não se apaga apesar de suas dúvidas, fazendo-a visitar a cidade e até dar um pulo em Kyoto sozinha.

Mas o mais importante do roteiro é como ele trabalha a relação dos dois quando estão juntos. Talvez a mais icônica sequência seja quando os dois, na cama de Bob, conversam sobre o passado e o futuro. Não há sexo ou mesmo pistas óbvias de atração maior do que uma amizade quase que por necessidade neste singelo momento, uma escolha acertada de Coppola que não quer recorrer a clichês do gênero. Ao contrário, em uma bela tomada em plongée (a que escolhi para ilustrar a crítica), vemos Charlotte quase em posição fetal virada para Bob, que tem o rosto para o outro lado, enquanto sua mão vagarosamente – e sem maiores intenções – segura os pés da jovem e ambos dormem. É, como disse lá no começo, um poema audiovisual muito raro de se ver por aí.

Momentos assim pululam na obra. O desapontamento/ciúmes do rosto de Charlotte quando descobre que Bob dormira com a exageradamente ruiva cantora do bar do hotel (Catherine Lambert) é outra sequência memorável, assim como a engraçada, mas delicadamente composta sessão de karaokê e a fuga deles pela cidade, desviando-se de pessoas e carros. Há uma parceria e uma confiança mútua ali que Charlotte aparentemente nunca teve com seu marido e que Bob não tem há muitos anos com sua esposa, se é que um dia teve. E essa relação de dependência é magnificamente natural na narrativa graças a um excelente desempenho dos dois atores que, de certa maneira, vivem eles mesmos, com Murray àquela época no ostracismo há algum tempo depois de sucessos no cinema e Johansson começando sua carreira. Murray é o retrato da experiência, do desapontamento e da frustração, ao passo que Johansson é o retrato da jovialidade, da esperança e da ansiedade e, juntos, eles se completam, com a química entre os atores de se tirar o chapéu.

Sofia Coppola amadureceu muito rápido, já acertando em cheio em seu segundo longa-metragem, feito que não conseguiria repetir em sua plenitude depois (ou, pelo menos, até o momento em que escrevo essa crítica). Mas Encontros e Desencontros não é só um pequeno acerto ou uma obra que esquecemos depois de assisti-la. Muito ao contrário, o filme é um retrato da vida em dois momentos que exige contemplação e discernimento para ser completamente absorvido e utilizado como uma lição. Somos, todos nós, perdidos. Alguns têm a sorte de se encontrar mais rapidamente. Outros, demoram mais ou nunca se encontram. Mas a vida segue e escolhas têm que ser feitas.

Encontros e Desencontros (Lost in Translation, EUA/Japão – 2003)
Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Scarlett Johansson, Bill Murray, Giovanni Ribisi, Anna Faris, Catherine Lambert, Akiko Takeshita,  Kazuyoshi Minamimagoe, Kazuko Shibata,  Take, Ryuichiro Baba
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.