Crítica | Encurralado

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Quando Joan Crawford, em 1969, deparou-se com um garoto de 21 anos como diretor de um segmento do piloto da série de TV Galeria do Terror, ela quase surtou e ficou indignada por sentir-se rebaixada. Afinal de contas, como o estúdio tinha a ousadia de colocar alguém obviamente tão inexperiente para dirigi-la? O resultado dessa sua reação imediata foi que, segundo consta, Crawford e Steven Spielberg, então quase debutante na arte da direção televisiva,  permaneceram muito amigos até a morte da atriz oito anos depois.

E isso diz muito desse que se tornaria um dos mais importantes diretores americanos modernos, responsável por colocar no cinema o primeiro arrasa-quarteirão – ou blockbuster -, o incrível e ainda inigualável Tubarãodentre outras obras-primas dos mais variados gêneros que fizeram e ainda fazem o público chorar, roer as unhas, aplaudir e sorrir. Mas o grande ponto de virada na carreira do diretor veio em 1971, quando a Universal Studios, percebendo o talento que tinha disponível ali em seu backlot, assim com Crawford percebera anos antes, colocou-o à frente do roteiro de Encurralado, escrito por ninguém menos do que o romancista Richard Matheson com base em seu próprio conto originalmente publicado na revista Playboy (viu como Playboy é para ler?) e que fora em parte baseado em uma experiência dele, quando um caminhão o perseguiu voltando de uma partida de golfe no mesmo dia em que JFK foi assassinado.

Detalhes estranhos à parte, Spielberg tinha o material perfeito para trabalhar: um suspense quase sem diálogos e elenco e de baixo orçamento que o colocaria à prova. Se pararmos para pensar, a história do motorista de um Plymouth Valiant vermelho-alaranjado que é perseguido em uma estrada californiana por um psicótico e anônimo motorista de um caminhão-tanque Peterbilt 281 todo enferrujado é a semente para o que um dia viria a se tornar Tubarão em que a câmera e a música em diversos momentos fazem as vezes do animal ensandecido em uma ilhota paradisíaca. Em Encurralado, feito originalmente para TV, mas que teve uma versão com 13 minutos a mais distribuída cinematograficamente (e que é a analisada aqui), é aquele típico filme-escola que exige criatividade na direção para criar tensão e prender o espectador ao longo de sua razoavelmente longa duração de 90 minutos.

Para conseguir seu objetivo, Spielberg coloca o espectador seguindo o protagonista David Mann, vivido por Dennis Weaver com seu indefectível bigodão setentista, em sua pouco interessante rotina diária saindo para uma viagem a trabalho. Vemos cada momento seu em casa com a esposa e filho, sua entrada no carro, a ignição e o início da jornada. Não há trilha sonora e o que escutamos vem apenas do rádio. Mais um dia comum de uma pessoa comum.

Mas há algo errado. Não é exatamente alguma coisa que se possa apontar o dedo e mostrar o momento em que o problema acontece, mas há sim alguma coisa estranha no ar. Em nossa imersão – que nunca é realmente total – esperamos alguma coisa fora do comum acontecer, mas nada acontece. O banal e corriqueiro são as regras aqui. Mudanças de estação de rádio, ultrapassagens e aquele caminhão velho, lento e enorme ali na frente, cheio de placas de carro penduradas em sua fuselagem. Ultrapassá-lo é preciso. Afinal, isso acontece todos os dias com praticamente todo mundo, seja em situação idêntica no trânsito, seja andando na rua, bebendo um café ou escolhendo o que vestir pela manhã. Tomamos pequenas decisões completamente no reflexo, sem pensar em suas possíveis consequências.

Essa calma e essa tranquilidade são perfeitamente transmitidas pela câmera intrusiva de Spielberg que, literalmente, não nos mostra nada de mais. Nada fora do comum. E é a ausência do incomum que nos faz levantar as sobrancelhas, que nos deixa incomodados no sofá da sala ou na cadeira do cinema. A água azul e serena na ilha de Amity jamais poderia ser ameaçadora, não é mesmo? O mesmo vale para uma estrada movimentada em meio à aridez californiana. Um dia como outro qualquer.

Mas o motorista do caminhão é um psicopata enlouquecido, claro. Ora, não era óbvio pelas placas de carros penduradas na lataria? Afinal, elas são troféus de outros “duelos” rodoviários iniciados por esse predador das estradas, logicamente. Como não vimos isso antes? Quando a ação em si – aquela que traz identidade ao filme – efetivamente começa, somos pegos completamente de surpresa. A trivialidade do que veio antes, por mais desconfiado que pudéssemos estar, nos deixou descansados, relaxados como a moça nadando ao por do sol perto da boia em Amity. Como em um violento choque elétrico, somos jogados em meio à tensão incessante de uma ameaça sem rosto manifestada por um caminhão sem qualquer identificação que não seja sua aparência cada vez mais assassina, mesmo que o diretor insista em nos levar de volta para a casa do protagonista, quebrando a narrativa em um ponto-chave na metade da projeção.

De toda forma, reagimos exatamente como David Mann, tentando nos ajustar para essa nova realidade que se apresenta, tentando entender o que raios está acontecendo. E é nesse ponto que Spielberg finalmente passa a usar música não-diegética, composta por Billy Goldenberg, então já com extensa carreira na TV. Mas a música é sincronizada cirurgicamente pelo diretor, algo que seria, em seus momentos mais brilhantes, uma de suas grandes marcas. Spielberg sempre soube nos manipular usando a audição e Encurralado não é diferente. O crescendo de angústia, daquele sentimento de estarmos sem saída é sublinhado pela trilha que somente se apresenta quando ela é estritamente necessária, quase que como uma forma de manifestar os pensamentos desesperados de David em fuga.

A simplicidade de Encurralado é o trunfo da fita, mas o ás na manga está mesmo atrás das câmeras, com um diretor que já mostra em seu efetivo début a qualidade da filmografia que começaria a construir já a partir de 1974, com Louca Escapada, depois que seu contrato de quatros longas televisivos com a Universal expirou. Spielberg transformaria o Cinema comercial com sua pegada única e é impressionante lembrarmos que tudo começou com um motorista de caminhão enferrujado atazanando a vida de um pobre motorista qualquer. Crawford podia ser irascível, mas ela foi precisa no reconhecimento de um talento monstruoso.

Encurralado (Duel, EUA – 1971)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Richard Matheson (baseado em sua história)
Elenco: Dennis Weaver, Jacqueline Scott, Eddie Firestone, Lou Frizzell, Gene Dynarski, Lucille Benson, Tim Herbert,  Charles Seel, Carey Loftin
Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.