Crítica | Eneida, de Virgílio

estrelas 5,0

A Ilíada e a Odisseia, poemas atribuídos ao grego Homero, foram obras extremamente importantes para a formação das bases da literatura ocidental. Na Eneida, de Virgílio, temos uma espécie de junção dos estilos de ambos os poemas, desta vez, criado para exaltar o nascimento de outro poderoso império: Roma, um dos locais mais famosos da história, repleto de acontecimentos que ainda costuma fertilizar o campo das produções culturais ao redor do planeta.

A Eneida nos apresenta ao herói épico Eneias e a sua busca pela terra que ficaria conhecida como Roma. Ao seguir juntamente com os sobreviventes do que restou de Troia, Eneias torna-se um homem honrado através da sua evolução enquanto personagem.

É através dos doze cantos que Virgílio narra o passado de Roma. A primeira parte nos remete ao conteúdo da Odisseia e a segunda aos acontecimentos da Ilíada. Do primeiro ao quarto canto, o poeta utiliza o flashback como recurso narrativo, para mais adiante tornar os acontecimentos contemporâneos aos leitores (na época ouvintes, pois apesar da obra ter ganhado uma versão escrita, era mais comum a declamação, tendo em vista alcançar as camadas populares).

No canto I temos o naufrágio em Cartago. O herói havia saído de Troia e muito fragilizado, pede ajuda a Dido, personagem marcante que será comentada adiante. A relação entre os dois adentra no território sentimental, o que culminará num trágico final. Para a mulher, claro, haja vista os códigos sociais da época. No canto II, Eneias narra para Dido as suas peripécias em seu último dia em Troia, com destaque para a história do cavalo aparentemente presenteado pelos deuses, nada menos que uma armadilha grega sagaz e mortal. No Canto III, Eneias continua a narrar as suas aventuras, desta vez, com foco nas viagens rumo à Itália. No Canto IV, Dido já está muito apaixonada por Eneias, e por isso, a sua existência encontrará um caminho nada agradável.

No Canto V, trecho muito valorizado por arqueólogos e historiadores, somos apresentados aos jogos fúnebres. O Pai de Eneias havia morrido há cerca de um ano e com o ritual envolvendo o funeral, conhecemos um pouco da relação deste povo com a morte, tema polêmico desde sempre. No Canto VI temos a descida de Eneias ao Hades, o mundo dos mortos, momento importante para a continuidade do poema, pois através de uma profecia, o seu pai lhe revela coisas importantes sobre o glorioso futuro dos romanos.

No Canto VII é quando começam as referências de estilo ao poema Ilíada. Eneias chega ao Lácio, é recebido por Latino, nobre que lhe oferece a mão da sua filha única. No Canto VIII, Eneias é informado que deverá fazer uma aliança política com Evandro e o seu povo, numa passagem tensa que também revela questões importantes para o poema de forma geral. É nesse mesmo canto que conhecemos a história do escudo de Eneias.

No Canto IX temos uma descrição detalhado ao acampamento troiano, no Canto X o poema traz revelações densas sobre as façanhas de Eneias e a morte de outro personagem importante, Palante, seguido dos funerais dos guerreiros do canto XI e dos combates e da vitória de Eneias o Canto XII, o final, tendo como destaque a sua gloriosa luta com Turno, outro personagem empoderado do poema.

Diferente de Odisseu, Eneias começa a sua trajetória como um derrotado. Não há um deus para ele questionar ou tripudiar. Tendo perdido no combate em Troia, o herói reveste-se de poder e honra ao passo que o poema se desenvolve. A aceitação do seu destino sem ressalvas e o cumprimento da sua missão é o que o torna um herói daqueles que a dramaturgia ama adotar em suas criações.

Nesse processo mitológico de fundação, a Eneida constrói um personagem que precisa se adequar aos propósitos de um herói do quilate de Odisseu, Aquiles etc., pois para fundar Roma, ele precisa incluir em suas etapas evolutivas, elementos como o empreendedorismo (através de provações), a belicosidade (os combates pela honra e pela glória de Roma) e a religiosidade (os rituais envolvendo as divindades). Para se tornar um herói capaz de fundar uma “nação”, Eneias perde o amado pai, permite o escoamento de Troia das suas “veias” e perde até a sua primeira (dedicada) esposa Creusa.

Por falar em sua esposa, a Eneida tem personagens femininos com perfis complexos, posturas intrigantes que não podem escapar de uma análise. Conforme nos revela o filósofo alemão Ludwig Friedlander, “nem sequer nos primeiros anos republicanos a mulher viveu em um estado de submissão tão grande como as mulheres gregas”, no entanto, em Roma, enquanto sociedade de cunho patriarcal, o poder residia na centralização do pai de família, tendo na figura da esposa uma espécie de propriedade.

Diante disso, ser grega ou romana fazia alguma diferença, mas tudo desaguava no mesmo rio de caudalosas submissões. O recato, a devoção ao marido, a delicadeza, a fidelidade, pudor e resignação. Creusa, a primeira esposa de Eneias, o acompanha em sua partida, se perde pelo caminho, é salva pelo marido, mas resignada, aceita o seu destino em prol da evolução do “seu homem”. Andrômaca, devota ao falecido marido, Heitor, carrega em seu perfil o pranto, a resignação e a fragilidade, questões que a fazem aceitar bem o seu destino de mãe escrava.

Lavínia é um exemplo dos valores ideais das mulheres romanas. Esposa prometida pelos deuses a Eneias, ela carrega em si a virgindade e o recato bastante salientes, antagônica de Dido, uma espécie de modelo contrário aos valores da mulher ideal para a época. Como rainha de Cartago, Digo possui um comportamento instável, intempestivo, com posturas que quase desvirtuam Eneias do seu trajeto. Inicialmente fiel aos juramentos realizados para o marido morto, apaixona-se por Eneias e dá início ao seu destino trágico.

Amata é a mãe de Lavínia, personagem que se opõe aos planos de Eneias, sucumbindo ao suicídio por conta do estado colérico da sua alma, algo semelhante ao destino da valente Camilla, personagem que assume uma postura menos convencional e parte para o combate, tendo como destino a morte. Em suma, papeis criados pela sociedade, tendo em vista obrigar as mulheres a representa-los.

Há, inclusive, uma passagem em que Eneias encontra Dido ferida no Mundo dos Mortos, a sangrar e a sofrer, numa alusão às mulheres que cedem ao comportamento inadequado e entregam-se às paixões carnais. Em As mulheres de Virgílio: a representação feminina na Eneida, o pesquisador Fábio Sahad alega que é possível que o poeta buscasse fomentar o desenvolvimento de tais virtudes ou tal modelo nas mulheres de seu tempo.

De acordo com alguns estudos literários, Virgílio foi um poeta introduzido ao círculo de relações do imperador Augusto pelo ministro Cílnio Mecenas. Ele havia chamado à atenção do imperador por conta de outras obras também marcantes, tais como Bucólicas e Geórgicas. Na linhagem dos anos antes de Cristo, a linha do tempo do poeta traz as seguintes informações relevantes: nasceu no ano 70, ganhou a cidadania romana no ano 49, “terminou” o primeiro tratamento da Eneida no ano 19, mas ainda pretendia fazer revisões.

Antes de falecer, solicitou aos pertencentes de seu círculo intelectual que destruíssem a obra, mas o imperador havia gostado e pediu que o poema fosse preservado, pois conforme aponta a história por detrás da Eneida, o poeta tinha elevado a “nacionalidade” dos italianos e a projetado para a “eternidade”. Como aponta Ettore Pastore em História da Literatura Latina, Virgílio “resumia o passado e abria as portas para o futuro”. A obra representa a máxima expressão cultural do período conhecido como Saeculum Augustum, com o poeta emulando mitos já clássicos no intuito de contar a fundação de Roma, sem deixar de traçar ilações entre a figura de Eneias com a de Otávio Augusto, nome de peso na história do império em questão.

Compreender a projeção da obra no âmbito da literatura requer radiografa-la em seu contexto histórico. Para isso, cabe ressaltar a importância da figura de Augusto, um imperador romano que sacudiu as estruturas romanas tanto no campo da cultura como na seara política. Com a sua política equilibrada e com tons pacificadores, exerceu grande influência na produção artística da época. Responsável por instalar a Pax Romana (política) e com o aconselhamento de Mecenas, ajudar a desenvolver o campo artístico romano (cultura), Augusto foi o responsável por revelar nomes como Horácio, Ovídio, Vário e o poeta em questão, Virgílio, figuras imortalizadas na história da literatura ocidental.

“A Eneida ficou em segundo plano durante bastante tempo”, afirmou o professor Paulo Martins, no episódio 12 da série Literatura Fundamental, programa da TV UNIVESP. Hoje, no entanto, é bastante popular, tendo inclusive pichações na Itália que fazem referências ao poema, material literário muito comum ao “reduto dos eruditos”. A obra é um clássico literário e ganhou ressonâncias na Divina Comédia, de Dante Alighieri; em Os Lusíadas, de Camões; além de várias referências no bojo da cultura pop, como por exemplo, o jogo Resident Evil Revelations.

Eneida
Autor: Virgílio
Editora: Martin Claret
Tradução: Odorico Mendes
Páginas: 520

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.