Crítica | Ennio Morricone em Verona, Itália (2015)

estrelas 5,0

Em janeiro de 2015, durante minhas férias, viajei para a Itália com minha família. Era pleno inverno no hemisfério norte, mas, considerando que calor é algo que tento fugir sempre que posso, não poderia estar mais feliz. Passeando em Verona (mais conhecida por ser a cidade onde Romeu & Julieta se passa, apesar de Shakespeare ter escrito três peças tendo a cidade como pano de fundo), mais especificante diante do famoso anfiteatro romano lá localizado, deparei-me com um cartaz que anunciava uma apresentação do grande maestro Ennio Morricone, no dia 12 de setembro.

Em um daqueles momentos de loucura, mas sabendo que teria que retornar à Itália no segundo semestre, não titubeei em comprar os ingressos. Parafraseando Júlio César, a sorte estava lançada. Já havia visto um apresentação de Morricone em São Paulo, em 2008, mas vê-lo em seu país-natal em um anfiteatro do século I d.C é uma daquelas coisas que só acontece uma vez na vida. Apostei todas as minhas fichas no espetáculo.

E deu certo! Venha então comigo nessa crítica do show que é mais do que uma crítica de um show (afinal, temos duas críticas de apresentações de Morricone no site). É um pouco de passeio histórico, da minha impressão sobre esse gênio da música e do quanto essa apresentação me deixou boquiaberto.

A Arena di Verona: uma viagem no tempo

A Arena di Verona, nome pelo qual o anfiteatro romano da cidade é conhecido, é localizado na Piazza Bra, um dos grandes pontos turísticos da cidade, que, diga-se de passagem, é cheia deles (apesar de as pessoas inexplicável e ridiculamente se apinharem na “casa de Julieta”). Ele teve sua construção encerrada no ano 30 d.C. (há controvérsias, claro, que colocam a arena como terminada entre o século I e III d.C.) e é o terceiro maior da Itália, atrás apenas do Coliseu de Roma e da arena de Cápua no sul do país.

Sua estrutura, apesar de contar apenas com um fragmento do anel mais exterior, que teve suas pedras usadas em outras construções, é impressionante pelo grau de conservação, algo que é reputado ao fato de a arena ter sofrido inúmeros reparos a partir do ano 600. É perfeitamente possível ver a entradas e saídas usadas tanto pelo público quanto pelas “atrações”, assim como se surpreender com a simetria da construção, que pode ser visitada em sua integralidade por qualquer um, diferentemente do Coliseu de Roma, que sofre restrições.

Com 139 metros de comprimento e 110 metros de largura em formato oval, a arena tinha capacidade para 30 mil pessoas em seus tempo áureos de lutas gladiatoriais. Nos tempos modernos, a arena passou a ser utilizada novamente como entretenimento para o povo, dessa vez como palco de óperas e shows dos mais variados, tendo sua capacidade reduzida para metade por questões de segurança. A estrutura interna de arquibancadas também sofreu interferência moderna, justamente para tornar o anfiteatro plenamente utilizável.

A acústica da arena é assombrosa. Mesmo visitando-a fora de espetáculos, é incrível como o som se propaga pelo local. Durante o show de Ennio Morricone, cada virada de página de partitura, cada “tossida” de um músico ou de alguém do público era ouvida por todo o local, ao ponto de o público, sabedor dessa situação, ter se mantido absolutamente quieto durante a apresentação, com exceção dos vários e efusivos momentos de aplausos.

Morricone: o homem, o gênio, o mito

Com a arena apinhada de gente, tanto nas arquibancadas quanto na “plateia”, as luzes se apagaram e, por detrás de um tecido semi-transparente preto, era possível ver as silhuetas dos últimos músicos da Orquestra Sinfônica de Roma tomando seus lugares. Tudo estava pronto para a chegada do Maestro.

Para a surpresa de todos, porém, um homem alto, claramente muito mais jovem do que um senhor de 86 anos, chega empurrando uma cadeira de rodas. Está muito escuro, mas é possível distinguir a silhueta. Coletivamente, o público prende a respiração. Quando a luz finalmente se acende, já com a cortina levantada, vemos Ennio Morricone de pé, olhando-nos, apoiado para ficar de pé e vigiado por essa pessoa mais jovem atrás que ou era seu assistente ou seu enfermeiro.

Quando ele começa a falar, sua voz é clara e precisa, sem enrolações, mas sensivelmente embargada, entristecida mesmo. Morricone nos conta que, no começo de agosto, sofreu uma queda e ficou imobilizado. Seu médico lhe disse que ele não poderia reger aquele espetáculo e ele fez de tudo para mudar esse cenário. E conseguiu. Mas a cadeira de rodas foi seu preço. Ele mal conseguia ficar de pé. O grande mestre estava fragilizado e irritado por estar assim. É uma espécie de tradição ele trazer seu espetáculo para Verona e sua turnê já havia sido ameaçada e quase que inteiramente cancelada por uma operação que ele teve que passar em 2014 em suas costas. Cancelar Verona seria um baque enorme para ele.

Mas ele não cancelou. E subiu no palco de cadeira de rodas. E REGEU de cadeira de rodas. Sim, leitores, ele regeu a Orquestra Sinfônica de Roma sentado, com a ajuda de uma jovem para virar as páginas de sua partitura. E sua preocupação era conosco, o público, por não poder ser virar o tempo todo para agradecer eventuais aplausos.

Confesso que estava preparado para me emocionar com aquele gigante regendo suas composições, mas não para soltar uma lágrima furtiva antes mesmo de ele levantar a batuta. Aliás, falando em batuta, quando esse fragilizado senhor finalmente a levantou e os primeiros acordes da música tema de Os Intocáveis começou a reverberar pela arena, ele se tornou um gigante, um jovem de 86 anos fazendo aquilo que ele nasceu para fazer. Cadeira de rodas? Nem mais me lembrei que ele estava usando uma…

O espetáculo em Verona: um momento singular

E, realmente, na medida em que a música de abertura – o tema de Os Intocáveis – com seu baixo fortíssimo e um ritmo marcante, ia tomando a Arena, qualquer problema ou deficiência que aquele senhor de 86 que mal podia ficar de pé desapareceu momentaneamente. Estava, ali, a mágica de Ennio Morricone já começando a apresentação em ritmo acelerado.

Contrastando com a força da abertura, Morricone engata, sem solução de continuidade, com a belíssima balada épica Poverty, de Era Uma Vez na América, carregada de um piano irretocável. Fazendo uma dupla com Poverty, o maestro entra no Tema de Deborah, composta para o mesmo filme, deixando a magnífica e inesquecível melodia repleta de violinos encantar a plateia. E é interessante notar como essa música, repleta também de “silêncios”, mostrou o respeito dos espectadores, que se mantiveram imóveis ao longo de toda a execução. Fechando o “capítulo” inicial, intitulado A Vida e a Lenda, Morricone traz a sóbria e jazzística música tema do menos conhecido A Lenda do Pianista do Mar, de 1998.

A segunda parte do espetáculo (é importante notar que a única indicação de mudança é a troca de partituras, pois Morricone tem o cuidado de fazer a ponte musical entre cada seção) é focada em Nostromo, série de televisão co-produzida por diversos países da Europa sobre um capitão de um navio na América do Sul. Pouquíssimo conhecida, essa escolha pode parecer equivoca por parte do Maestro, mas bastam os primeiros acordes de violino e flauta serem ouvidos, com leve acompanhamento de piano de Per Emilia, para que quaisquer dúvidas sejam colocadas de lado. Em sucessão, a orquestra executa a tensa Variazoni Tropicali, fortemente dependente da flauta e a música tema Nostromo que fecha a segunda seção do espetáculo.

O momento seguinte, intitulado Modernidade do Mito no Cinema de Sergio Leone, sem dúvida é o mais esperado. Sem perder tempo, a orquestra executa uma espécie de tira-gosto – a música Il Forte – que daria o tom para o que ouviríamos. Particularmente, acho esse tema militarístico, usado de maneira perfeita por Leone na sequencia dos Confederados em Três Homens em Conflito, particularmente cativante e inebriante, talvez a perfeita maneira de introduzir a sequência mais conhecida que se seguiria: o tema Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo (também de Três Homens em Conflito) que não precisa se apresentações e, em seguida, os temas de Era Uma Vez no Oeste e Quando Explode a Vingança. É incomum Morricone executar suas músicas dos demais filmes da Trilogia dos Dólares de Leone, por considerar trabalhos “inacabados”, pelo que não as escutamos.

De qualquer maneira, esse tipo de pensamento desaparece, quando, ao final do primeiro tema, a soprano Susanna Rigacci, companheira de espetáculo de Leone há 15 anos, sobe triunfalmente ao palco para deliciar os espectadores com sua assombrosa voz em Era Uma Vez no Oeste e em Quando Explode a Vingança. Mesmo já tendo visto Morricone antes – juntamente com Rigacci – continua sendo um encanto absoluto ouvi-la, especialmente quando, como encerramento ao tributo a Leone, a soprano e o Maestro fazem a arena explodir com os acordes iniciais de piano e flauta de L’Estasi dell’Oro (O Êxtase do Ouro), música executada na sequência do “duelo triplo” de Três Homens em Conflito. A voz da soprano, em paralelo às vozes masculinas do coral da cidade de Verona, é um inebriante assalto sensorial do qual o espectador simplesmente não quer sair. Dá até tristeza quando a música finalmente acaba.

Mas o show não acabou.

Em seguida – pero non troppo, já que a plateia explodiu em aplausos ao final de O Êxtase do Ouro – entra a sacra música tema de  A Terra Prometida – A Verdadeira História de Moisés, minissérie com Burt Lancaster no papel-título e a suave, mas épica música tema de outra minissérie, Marco Polo, ambas contando com o violoncelista Luca Pincini. É o intervalo que o público precisa para absorver o que ouvira até aqui.

No momento seguinte, entra a belíssima Chi Mai, do filme Maddalena, toda ela carregada por um irretocável violino. Sem perder tempo, ouvimos as músicas tema de Cinema Paradiso – aplausos e mais aplausos logo nos dois primeiros acordes – e de Malena. Outro ciclo se encerra.

Iniciando a última seção do show, intitulada Cinema Trágico, Lírico, Épico, Morricone inicia uma suíte composta pela música tema do pouco conhecido, mas épico O Deserto dos Tártaros e do trágico Ricardo III. Ao final, vemos Carlo Romano com seu oboé levantar no palco e executar as lindíssimas Gabriel’s OboeFalls e On Earth as it is in Heaven de A Missão. Um mais que perfeito encerramento para um concerto de arrancar lágrimas de qualquer cinéfilo.

Mas não foi o fim. O bis, sem que Morricone sequer saísse do palco, veio quase que de maneira improvisada, com a volta – debatida com o organizador no palco! – de Susanna Rigacci e uma nova execução de O Êxtase do Ouro para, claro, o êxtase da plateia. E, completamente fora do programa, a noite se encerra com a inesquecível Here’s to You, tema de Sacco e Vanzetti, composta pelo Maestro e Joan Baez para o filme como tributo aos dois anarquistas italianos que foram presos e executados injustamente nos EUA. Foi a única música cantada da noite e ela simplesmente não me sai da cabeça. Absolutamente triunfal.

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Ennio Morricone é uma lenda viva que a cada ano, apesar de todas as dificuldades que a idade naturalmente traz, se mostra cada vez mais relevante para o mundo da música de Cinema. Não há como encerrar essa crítica (que, confesso, de crítica não tem nada – está mais para elogios rasgados) sem simplesmente dizer: obrigado, Maestro!

Data do show: 12 de setembro de 2015, às 21h
Local: Arena di Verona, Verona – Itália
Duração: 2 horas

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.