Crítica | Enquanto Você Dormia

Enquanto Você Dormia

estrelas 4

Sandra Bullock é uma das atrizes mais agradáveis do sistema hollywoodiano de produção. Uma das vantagens de ver os seus filmes é a possibilidade de enxergar a sua evolução dramática ao longo dos filmes que atuou. Na época do lançamento de Enquanto Você Dormia, a atriz era o sucesso financeiro da indústria: rendeu bastante no suspense policial A Rede, havia saído do recente sucesso de Velocidade Máxima e já tinha provado, inclusive, versatilidade ao trabalhar na ficção pós-moderna Demolidor, ao lado de Wesley Snipes e Stallone.

Os bons papéis ainda demorariam a chegar. No drama de tribunal Tempo de Matar, a atriz brilhou discretamente numa pequena participação, antes de entrar num longo circuito de comédias românticas e dramas familiares que a fariam se repetir constantemente, com inserções raras em outros gêneros, como por exemplo, a sua participação no razoável Cálculo Mortal e na terrível sequência Velocidade Máxima 2.

Conhecida na época como a namoradinha da América, título das atrizes queridinhas do público (leia-se ai a rainha das bilheterias e do retorno financeiro), Bullock precisou aguardar outras oportunidades para brilhar e demonstrar a sua força como atriz, com participações em Um Sonho Possível e Gravidade, ambas as produções indicadas ao Oscar de Melhor Atriz, tendo vencido na primeira, na cerimônia de 2010.

Em Enquanto Você Dormia, ela representa um dos adoráveis papeis da garota amada por todos. Com roteiro de Daniel G. Sullivan e Frederic Lebow, o filme nos apresenta Bullock como Lucy, uma funcionária da bilheteria de um metrô de Chicago que alimenta uma paixão platônica por um homem chamado Peter (Gallagher), mesmo nunca tendo trocado uma palavra com o rapaz, vendo-o sempre à distância na estação.

Certo dia ele é assaltado e jogado na linha do metrô. Quem o salva é Lucy, responsável por o leva ao hospital e aguarda a chegada da família. É a partir daí que a confusão se estabelece: num breve ruído de comunicação, os familiares acreditam que ela seja a noiva do rapaz. Solitária, Lucy apaixona-se pela família e durante o avanço da narrativa, envolve-se emocionalmente com o irmão do rapaz, Jack (Bill Pullman).

Lançado em 1995, o filme dirigido por John Turteltaub foi escrito para Demi Moore. Como a atriz não aceitou, o personagem foi direto para as mãos de Sandra Bullock. No filme, ela brilha intensamente, mesmo dentro de um personagem sem grandes complexidades. O roteiro é esquemático, entretanto, não envelheceu, tendo ainda a qualidade de ser um dos representantes da época em que as comédias românticas eram mais interessantes.

Responsável por tramas diferentes de Enquanto Você Dormia, tais como Fenômeno, e futuramente, A Lenda do Tesouro Perdido, Turteltaub cumpre bem o seu papel ao gerenciar mais uma “cinderela” contemporânea, envolta num cenário comum aos filmes de amor: neve, clima natalino, coadjuvantes humorados e uma construção narrativa cheia de elementos com vida, tais como os enquadramentos, a cenografia e a direção de arte.

Mencionado por Ben Folds na canção From Above, o filme tem a sua versão malaiala, intitulado Chandralekha, além da releitura hindu Har Dil Jo Pyar Karega, lançada no ano 2000. Clássico das exibições na TV aberta, o filme custou U$17 milhões e rendeu muito além do esperado, fruto de um cenário propício para as comédias românticas, gênero que segundo uma reportagem recente, perdeu a sua força nos últimos dez anos.

Enquanto Você Dormia (While You Were Sleeping) — Estados Unidos, 1995
Direção: Jon Turteltaub
Roteiro: Fred Lebow
Elenco: Sandra Bullock, lly Walker, Ann Whitney, Bernie Landis, Bill Pullman, Dick Cusack, Dobie Maxwell, Gene Janson, Glynis Johns, Jack Warden, James Krag, Jason Bernard, Joel Hatch, Kate Reinders, Kevin Gudahl, Krista Lally, Marc Grapey, Marcia Wright, Margaret Travolta, Megan Schaiper, Michael Rispoli, Micole Mercurio, Mike Bacarella, Monica Keena, Peter Boyle, Peter Gallagher, Peter Siragusa, Richard Pickren, Rick Worthy, Robert Minkoff, Ruth Rudnick, Shea Farrell, Susan Messing, Thomas Q. Morris
Duração: 103 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.