Crítica | Enterrado Vivo

estrelas 4

Por mais que as fãs ardentes de Ryan Reynolds possam querer defender, ele não é um bom ator. Em Enterrado Vivo, ele é o único ator (sem contar com as vozes) e, em meu entendimento, o ponto fraco do filme, o que não é dizer pouco quando todo ele se passa dentro de um caixão enterrado em algum lugar do Iraque.

Sim, o filme se passa todo ele dentro de um caixão daqueles rústicos de pranchas de madeira, enterrado provavelmente a poucos palmos da superfície, no meio do deserto do Iraque. Reynolds vive Paul Conroy, empregado de uma das empresas contratadas para reconstruir o país. Como companhia, ele tem apenas um isqueiro Zippo – que deve ter pago parte do filme – e um celular Blackberry, que pagou a outra parte. Aos poucos, Conroy vai descobrindo que sua já desesperadora situação é ainda mais complexa que ele imagina, pois ele passa a lidar com o iraquiano que o colocou lá dentro e com a inacreditável burocracia dos canais regulares do governo e de seu empregador para tentar resolver seu, digamos, problema.

Não vem ao caso perguntar como o celular funciona se ele está enterrado e como o ar nunca acaba. Isso é o de menos.

O que vem ao caso perguntar é como o diretor Rodrigo Cortés e o roteirista Chris Sparling conseguiram criar um filme com essa premissa, que nunca – NUNCA mesmo – sai do caixão e que, apesar de Ryan Reynolds, ainda é muito bom.

É uma tarefa muito difícil descrever esse “como”. A premissa, claro, é muito intrigante. Coloca a sensação de claustrofobia de Líbano no chinelo e, eu garanto, isso é dizer muito. Em seguida, a iluminação utilizada é a natural, ou seja, nenhuma, ou a luz de um celular ou de uma chama do isqueiro. Cortés não me pareceu criar artifícios maiores para “ajeitar” a iluminação. Dito isso, Cortés ainda consegue movimentar a câmera de maneira dinâmica, com objetivo, e isso dentro do espaço confinado de um caixão. É óbvio que Cortés nunca filmou dentro de um caixão fechado, mas sim dentro de caixões com diferentes aberturas (foram sete no total) em que Reynolds simplesmente se deitava ou se dobrava todo. Há travelings de câmera dignos de um filme épico. É realmente complicado descrever a obra. É uma experiência para ser vista e quase que sentida.

“Sentida” sim, pois Enterrado Vivo é uma daquelas fitas que fascina, mas que consegue, ao mesmo tempo, causar constante e incessante sensação de aflição e desespero. Sabemos que a situação de Conroy é impossível e absurdamente angustiante e nós sentimos isso a cada segundo de filme, desde o começo completamente no escuro até o finalzinho.

Mas o mais interessante é que tudo isso acontece apesar de Reynolds. Essa até pode ser sua melhor atuação, mas vindo de um ator que fez A Proposta, Três Vezes Amor, o primeiro filme solo de Wolverine e Lanterna Verde, isso não quer dizer muita coisa. A situação é muito mais desesperadora do que Reynolds deixa transparecer no filme, com suas caras e bocas. É difícil abstrair-se de sua persona mais marota, engraçada, especialmente por que ele não me parece ter feito muito esforço para isso ou, talvez, isso seja o melhor que ele possa fazer.

Novamente, devo insistir: o fato de eu ter achado que Reynolds não tenha sido o ator ideal para esse filme e esse filme ser literalmente de apenas um ator, não impede ele seja muito bom. O roteirista Chris Sparling, claro, toma algumas liberdades com a flexibilidade do corpo humano e conexões telefônicas, mas ele cria um roteiro enxuto, inteligente e extremamente ácido, sobretudo em relação às corporações. O diálogo que Reynolds tem mais ao final com o responsável pelo departamento de recursos humanos de sua empresa é algo tão assustador que, ao mesmo tempo que nós pensamos que aquilo é filme, que coisas assim não acontecem, ficamos com uma sensação lá no fundo de nossa cabeça que sim, situações semelhantes podem acontecer exatamente como retratadas.

E o final é perfeito. Não vou estragar nada, mas estava receoso do que Cortés poderia fazer quando se aproximasse do fim, especialmente depois que a produção foi comprado pela Lionsgate, mas aquilo que se pode esperar está lá, direitinho. Incrível. E tudo apesar de Reynolds….

Enterrado Vivo (Buried, EUA/Espanha/França – 2010)
Direção: Rodrigo Cortés
Roteiro: Chris Sparling
Elenco: Ryan Reynolds, José Luis García Pérez, Robert Paterson, Stephen Tobolwsky, Ivana Miño, Warner Loughlin, Erik Palladino
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.