Crítica | Entourage (A Série Completa)

estrelas 4

Entre 2004 e 2011 e oito temporadas (sendo que uma delas – a terceira – dupla) a HBO colocou no ar uma gostosa série dramática de veia cômica que poderia muito bem ter o subtítulo “a ascensão, a queda e a ascensão novamente em Hollywood”. Baseada nas experiências pessoais do hoje ator e produtor Mark Wahlberg, que começou a carreira, caso não lembrem, como o rapper Marky Mark na banda Marky Mark and the Funky Bunch, a série desvela os bastidores de um ator novato em meio à selva de Tinseltown e, no processo, de todos que o cercam – o entourage do título e de seu agente.

A ideia inicial era um livro contando a vida de Wahlberg, que também produz a série, mas logo pensou-se em retrabalhar o material para criar episódios documentais para a televisão, algo que foi novamente rediscutido e refeito como uma completa ficção, usando traços de Wahlberg assim como de seu irmão e amigos como base para os mais diversos personagens. Com isso, não só o passado violento do ator foi expurgado (ele fora preso dezenas de vezes, além de ter sido drogado, de ter se demonstrado racista e diversos outros percalços de uma juventude transviada até ele acertar o passo e se estabelecer com certo renome em Hollywood) como o criador e showrunner Doug Elin teve mais liberdade para trabalhar linhas narrativas despregadas da realidade nua e crua, ainda que ele tenha se esmerado em retratar a vida de um ator em começo de carreira de maneira crível e perfeitamente lógica, sem deixar de alfinetar tanto os artistas em si, como os produtores, agentes e outros animais desse esfuziante zoológico da Sétima Arte.

Em outras palavras, Entourage é, de certa forma, o mais próximo que um ser humano normal chegará do sistema hollywoodiano, com todas as suas benesses e mazelas. Claro que há muito material que traz visões sobre a vida dos artistas (o clássico e excepcional Crepúsculo dos Deuses é um grande exemplo) e sobre a produção cinematográfica (o inesquecível Cantando na Chuva e a recente e cativante série nacional Magnífica 70, se quisermos olhar para o Brasil), mas, em Entourage, realmente temos a impressão de um mundo verdadeiro, de “vida como ela é”, além de o espaço que 96 episódios deram a Elin para trabalhar as mais diferentes facetas desse universo.

O foco da história, pelo menos inicialmente, é em Vincent “Vince” Chase (Adrian Grenier), ator novaiorquino radicado em Los Angeles que, logo no início da primeira temporada, nos é apresentado como alguém com um futuro promissor em razão do inesperado sucesso de seu filme Head On. Mas essa é, apenas, a ponta do iceberg, pois, como o nome da série deixa muito claro, Vince não é uma pessoa só e sim uma espécie de um “coletivo” formado também por seu melhor amigo Eric “E” Murphy (Kevin Connolly), tímido, sério e engajado em ver Vince decolar em sua carreira; por seu irmão mais velho Johnny “Drama” Chase (Kevin Dillon), que funciona como seu conselheiro para “coisas erradas” e que fora ator de 15ª categoria na série ficcional Viking Quest, seu único e mediano sucesso; e por seu amigo Salvatore “Turtle” Assante (Jerry Ferrara), que funciona como seu motorista e assistente para assuntos aleatórios. Todos são, de certa forma, sanguessugas de bom coração, que vivem do sucesso de Vince que, por sua vez, não se importa e, ao contrário, incentiva essa atitude.

Dessa maneira, na primeira temporada vemos, de um lado, como um ator que, da noite para o dia, se torna um sucesso, lida com isso. São só 15 minutos de fama que têm que ser aproveitados furiosamente ou é uma carreira legítima? Seu amigo E, realmente tendo o bem de Vince em seu horizonte (e o seu próprio, por tabela), entra em choques constantes com Ari Gold (vivido maravilhosamente por Jeremy Piven), agente do ator, tentando equalizar o desejo de Ari de capitalizar em cima da fama repentina de seu agenciado e o desejo de Vince de estrelar Queen Boulevard, filme dirigido pelo diretor indie Billy Walsh (Rhys Coiro). Paralelamente, Drama e Turtle tentam achar seu lugar ao sol também, mostrando-se mais valorosos do que apenas meros membros da entourage de Vince, ainda que nem sempre consigam.

É claro que cada personagem cresce à sua maneira e, no processo, vemos todas as agruras e as tensões de uma vida repleta de altos e baixos. Vince chega a ser uma super-estrela ao viver o papel-título em Aquaman, filme de alto orçamento dirigido por James Cameron (que faz uma divertida ponta), caindo logo em seguida ao enfurecer o dono do estúdio quando recusa estrelar na continuação para participar de Medellin, produção independente que quase o leva à bancarrota. Junto dele, vão seus leais amigos, com E passando oficialmente ao cargo de gerente de Vince, Drama conseguindo vagarosamente galgar novamente os degraus de papeis na televisão e Turtle tentando mostrar que é mais do que um mero motorista que fuma maconha o tempo todo.

Mas, independente do quão interessante sejam as linhas narrativas de Vince e sua turma, quem realmente ganha destaque cada vez maior na série é Ari Gold, certamente pela empatia e vigor de Jeremy Piven. De um agente em uma agência em que ele é sócio minoritário, ele briga com seu sócio majoritário Terrance McQuewick (Malcolm McDowell se divertindo muito), cuja filha, Sloan (a bela Emmanuelle Chriqui) passa a namorar E, funda sua própria agência com sua desafeta Barbara “Babs” Miller (Beverly D’Angelo) e chega até mesmo a receber oferta para se tornar CEO de um grande estúdio de cinema. Não seria de todo errado afirmar que a verdadeira grande estrela de Entourage é Piven e não Grenier.

Aliás, essa conclusão é a mais justa, no frigir dos ovos. Afinal, Grenier não é mais do que um ator mediano que só faz sorrir e acenar. Seu próprio personagem chega a ser o menos interessante de todos, com arcos narrativos que não empolgam verdadeiramente. Mas àqueles que são fãs do ator e do personagem, calma! Apenas afirmo que Grenier vive seu personagem como foi escrito e ele é um veículo condutor para os demais ao seu redor e não o verdadeiro foco dos roteiros de Doug Elin. Não que Dillon, Connolly e Ferrara sejam atores melhores – não são – mas eles, em geral, têm a sorte de receberem papeis menores, mas muito mais interessantes. Vejam Dillon, por exemplo. Ele basicamente vive ele mesmo, em papel metalinguístico: um ator que um dia foi razoavelmente famoso e que, depois, desapareceu, jamais conseguindo algo realmente relevante. Drama é exatamente isso, um personagem que vive da fama de seu único papel minimante importante em uma série obscura, mas que não desiste. Suas interferências na vida do irmão são ao mesmo tempo hilárias e irritantes. O mesmo vale para Connolly como E, com sua cara de “cachorro pidão” e sua fidelidade canina à Sloan e também Turtle que, apesar de realmente ser quase irrelevante no início, tem talvez o mais completo arco de crescimento na série toda, tornando-se um homem de negócios de valor, sem perder a graça. No meio disso tudo, Piven é o verdadeiro e único Ator (dos principais, lógico), desses com letra maiúscula. Ele transita bem em todas as situações, demonstrando sua qualidade dramática sem depender apenas de maneirismos e olhares lacrimosos.

E a série, como um todo, assim como a carreira de Vince, é cheia de altos e baixos. Ela começa muito bem e tem uma temporada de reafirmação (a segunda) também eficiente e redonda. No entanto, Doug Elin perde a mão ao estender a terceira temporada, dividindo-a em dois blocos, um de 12 episódios, outro de oito, para abordar Vince pós-Aquaman e pré-Medellin no começo e os percalços do projeto independente no final. Claro que a crítica ao sistema, com o choque entre as “malditas” continuações e o desejo (muitas vezes equivocado) de um ator em se firmar em papel mais “autoral” se faz muito bem presente, mas Elin se equivoca ao somente encerrar essa linha narrativa na temporada seguinte, ainda que esse encerramento, em Cannes, faça valer o esforço de se passar por diversos episódios que são fillers e que focam demais em sub-tramas.

Mas Elin começa a arrumar a casa na quinta temporada, com uma história que se espalha igualmente entre Vince, sua entourage e Ari que, apesar de não desenvolver muito a narrativa e andar de lado várias vezes, não prejudica o todo e afasta a história do fracasso (como trama e como filme) de Medellin.  É na sexta temporada, que dá um salto temporal para depois de outro mega-sucesso de Vince (a refilmagem de O Grande Gatsby por Martin Scorsese), que a série decola novamente. Elin escreve linhas narrativas independentes para cada personagem e coloca Vince como apenas uma espécie de observador, vivendo de seus louros enquanto se prepara para filmar a biografia de Enzo Ferrari. Dessa maneira, o trabalho de arrumar a casa de Elin se completa nessa temporada, com todos os personagens de volta a seus respectivos trilhos.

Isso torna possível um grande desenvolvimento dos personagens na sétima temporada, com E fundando uma empresa gerenciadora de talentos, Drama se fortalecendo na TV e Turtle partindo para seus próprio negócios, além de Ari cada vez mais expandindo seus tentáculos em prejuízo de sua família. Vince, por sua vez, passar a ter relacionamento sério com a atriz pornográfica Sasha Grey (ela mesmo no papel) e entregando-se à “vida louca”. Sexo, drogas e rock ‘n roll é a constante com Vince nessa temporada, em que o vemos em seu ponto mais baixo.

Mas Entourage é uma série leve e, como tal, temos o final conto-de-fadas da oitava e última temporada, com todas as peças encaixando-se perfeitamente bem para todos os envolvidos.  Não é crível esse final? Certamente não é. E não é para ser! Doug Elin fez uma escolha lá atrás em abordar os bastidores da fama sem deixar às escâncaras o que essa vida pode ter de podre. Mas, se o espectador procurar, esse podridão está lá, só que com um verniz brilhante e também glamouroso.  Não é uma simplificação da realidade, apenas uma escolha narrativa que funciona como uma diversão que educa àqueles que souberem separar o que é ficção do que é potencialmente verdadeiro.

Entourage diverte e muito, apesar de seus problemas em suas temporadas do meio. É uma visão adocicada da vida de artistas, agentes, gerentes e sanguessugas, mas que diverte e prende o espectador em um passeio pela rica (ou pobre, depende de seu ponto de vista) vida das celebridades.

Entourage (Idem, EUA – 2004/2011)
Criação e showrunner: Doug Elin
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco (principal): Adrian Grenier, Kevin Connolly, Kevin Dillon, Jerry Ferrara, Jeremy Piven, Debi Maza, Rex Lee, Perrey Reeves, Emmanuelle Chriqui, Rhys Coiro, Beverly D’Angelo, Constance Zimmer, Scott Caan, Jordan Belfi, Autumn Reeser, Gary Cole, Malcolm McDowell
Duração: 21 a 35 min. por episódios (8 temporadas, com 96 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.