Crítica | Entre Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sartre foi o grande nome da filosofia existencialista do século XX. Contrapondo-se ao existencialismo cristão de Kierkegaard, o existencialismo ateu de Sartre ganhou ares de moda literária e filosófica na segunda metade do século passado e transformou o autor em um modelo de intelectual engajado. Ainda que escrevendo filosofia stricto sensu, em obras como O Existencialismo É Um Humanismo e O Ser e O Nada (este último o seu grande tratado filosófico), grande parte desse sucesso se deveu aos numerosos flertes do francês com a literatura. Prova disso é o Prêmio Nobel de Literatura ao qual Sartre foi nomeado em 1964. O fato de a condecoração ter sido recusada por ele, ao afirmar que “um homem não merece ser consagrado em vida”, não muda a constatação de que foi a literatura o grande veículo de difusão de suas ideias enquanto filósofo. Além de ter se tornado, é claro, a sua maior fonte de sucesso editorial.

O filósofo e escritor francês foi versátil em sua produção literária. Escreveu romances, como A Náusea e a trilogia Os Caminhos da Liberdade, contos, como os que integram a coletânea O Muro, e inúmeras peças teatrais. Uma das mais notáveis e provocativas chama-se Entre Quatro Paredes (Houis Clos, no original), de 1944. Respondendo às dificuldades dos tempos em que foi escrita e encenada, isto é, a penúria financeira decorrente da Segunda Grande Guerra, Jean-Paul Sartre transformou o formato originalmente pensado em sua peça mais minimalista e econômica do ponto de vista cênico e orçamentário. Isso, admiravelmente, não desabona em nada a qualidade e o impacto de seu texto. Ao contrário, por apresentar-se tão reto e ágil, ele proporciona uma leitura bastante agradável. Não à toa, constitui uma das peças mais lidas do pensador francês. A obra é representada em ato único e deve ser lida do mesmo modo. Em um só fôlego. O cenário se resume a um salão estilo Segundo Império modestamente mobiliado, dentro do qual passarão a eternidade três personagens. Quem os conduz ao recinto é um criado.

Sim, estamos no inferno. O criado já revela de saída que no inferno sartriano não há estacas, grelhas ou foles de couro. Não há tortura física ou almas lançadas ao fogo eterno. O criado, embora seja um personagem coadjuvante ao longo da peça, desempenha uma função importante na composição do todo, pois escarnece a visão religiosa do inferno que o primeiro condenado, o jornalista Garcin, revela ao se deparar com o salão. Preocupado com o paradeiro de sua escova de dentes, o criado também manifesta ironia: “Olha a dinidade humana voltando. Isso é fantástico”. O mais interessante na primeira cena de Entre Quatro Paredes é notar como, inicialmente, ocorre um processo de desconstrução de uma concepção canônica de inferno para só depois, gradualmente, ir se desenhando outra inteiramente nova. Ao demolir a primeira para erguer a segunda, a peça traz ao leitor a mesma confusão que aos três personagens. A chegada de Estelle e Inês ao salão lhes provoca a mesma estupefação que a Garcin.

O inferno existencialista não está dado, portanto. Será construído e compreendido no transcorrer do texto. Por isso mesmo, a afirmação que o sintetiza só será exclamada ao final – “O Inferno são os Outros”. Uma célebre máxima sartriana. Desse modo, até que se chegue a ela, vamos compreendendo que a escolha de um trio de personagens não é gratuita. Três é um número que significa desequilíbrio. O trítono, intervalo musical de três tons inteiros, por exemplo, é conhecido como intervalo satânico. Há, de certo, bastante simbolismo envolvido nesta escolha. Assim, qualquer concordância entre dois deles será minada pela ação do terceiro. Simbólica também é a estátua de bronze sobre a lareira. Além de representar a imobilidade do tempo (não há dia nem noite neste inferno), pode-se interpretá-la como uma acusação eterna à covardia que afligiu, em vida, a consciência de Garcin. Isso porque ela representa a figura de um herói, que o jornalista contemplará como o seu antípoda por toda a eternidade.

Já a inexistência de espelhos no salão é o elemento que torturará a vaidosa e ensimesmada Estelle. Ela estará condenada a jamais contemplar a própria beleza, que só será encontrada e avaliada pelos olhos de Garcin. Inês será o vértice mais fatal e ardiloso desse triângulo, funcionando como o algoz dos outros dois e também de si mesma. Ela se apaixona por Estelle e verá nessa atração a sua tortura infinita, pois reviverá na eternidade a sua sexualidade inconclusa e cobiçosa. Assim se fecham os mecanismos de danação dos três condenados. Eles vêem-se presos uns aos outros por correntes que transcendem a materialidade. Mesmo quando a porta do salão se abre diante de seus apelos, nenhum deles é capaz de sair. Permanecem em seus assentos, olhando uns para os outros, agora conscientes de sua condição.

Sartre traz novamente o tema da má-fé para análise. Garcin e Estelle passaram a vida tentando sustentar as biografias que forjaram para si mesmos – Garcin, o herói pacifista e Estelle, a moça de origem pobre e dedicada à família. A peça deixa claro o quão espúrias são essas narrativas, mas eles se recusam a admitir, tal como fizeram em vida. Apenas Inês assume sua natureza indecorosa e imoral. Seja como for, todos pagarão por seus erros. Garcin e Estelle terão a eternidade contra eles e, mais cedo ou mais tarde, serão obrigados a despir-se da má-fé para reencontrarem a si mesmos como realmente são. O inferno que os três viverão é o da consciência a céu aberto. Garcin acovardou-se em vida e será torturado na eternidade pela imagem do herói que nunca foi. Estelle cometeu seus crimes em nome do mesmo narcisismo que será sua condenação. Inês pagará pela sedução ignominiosa que praticou com o fracasso eterno na sedução de Estelle.

Entre Quatro Paredes encapsula assim uma parte importante do pensamento de Jean-Paul Sartre. Com poucas páginas, diálogos curtos e frases apocopadas, a peça se revela um golpe possante e certeiro. Possivelmente, umas das melhores portas de entrada à obra do filósofo francês.

Entre Quatro Paredes (Houis Clos) – França, 1944
Autor: Jean-Paul Sartre
Editora: Civilização Brasileira
Número de páginas: 127

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.