Crítica | Entre Tempos (2018)

Entre Tempos poderia muito facilmente ser apenas mais um filme romântico sobre os altos e baixos de um casal apaixonado, mas o segundo filme de Valerio Mieli, vindo nada menos do que quase 10 anos depois do tematicamente semelhante Dez Invernos, é um primor técnico de fazer queixos caírem que também é um filme romântico sobre os altos e baixo de um casal apaixonado. Ou melhor, sobre as memórias dos altos e baixos de um casal apaixonado, como o título do original em italiano – Ricordi? – deixa entrever.

Aqui, o casal não tem nome. São dois jovens que se conhecem em uma festa e que passam a se relacionar fervorosamente no início, somente para que, mais tarde, ao longo do tempo (meses? anos? décadas?), eles caiam nas armadilhas da monotonia a que vidas a dois são fatalmente vítimas a não ser que essa monotonia seja vista positivamente, como parte do processo. Mas o interessante é que a história é contada a partir de um ponto no futuro (ou presente), olhando para trás, pelos olhos de ambos os jovens, cada um de sua maneira, o que acaba criando versões diferentes dos mesmos eventos, mas não contadas de maneira rashomoniana e sim paralelamente. Com isso, Mieli, que também escreveu o intrincado roteiro (não em história, mas em continuidade), faz o espectador viajar pelo que poderia ser definido como vias paralelas intimamente conectadas que, no anonimato dos protagonistas vividos por Luca Marinelli e Linda Caridi – que formam um casal de química perfeita e imediata, diga-se de passagem – representam, bem genérica e, talvez, pretensiosamente, os amantes do mundo. Eu, você, todos nós estamos ali e, provavelmente, nos sentiremos representados em maior ou menor grau, ou, pelo menos, reconheceremos as dúvidas e os sentimentos que Miele conjura na telona, mesmo que a queiramos afastá-los com um aceno de mão.

Há uma delicadeza e uma franqueza no ar por todo o tempo que o roteiro costura em uma narrativa enganosamente simples. Sim, se retirarmos os malabarismos artísticos de Mieli, o que resta é linear, mas ainda muito bonito e que por si só vale a obra. No entanto, são os tais malabarismos que tornam Entre Tempos tão especial e a estrela, nesse ponto, é Desideria Rayner, a montadora italiana que é realmente responsável pela mágica ilusionista que hipnotiza o espectador. A última vez que lembro ter visto um trabalho de montagem tão complexo foi em Amnésia, mas, mesmo lá, havia um padrão muito bem estabelecido e repetido ao longo da projeção. Em Entre Tempos, a costura se dá quase que em uma versão audiovisual de fluxo de consciência, mas sem que em momento algum, por mais breve que seja, sintamos qualquer desorientação ou confusão sobre o que exatamente está acontecendo. A mesma sequência com figurinos diferentes, pequenas inserções aqui e ali, retorno às mesmas cenas, só que de forma levemente diferente, flashes do passado e também do futuro, tudo é encaixado de maneira cirúrgica que passa a ser integral à narrativa e não apenas um artifício narrativo.

Imaginar os storyboards e a decupagem de Mieli para proporcionar material para Rayner trabalhar é, por si só, algo que vai muito além da capacidade deste crítico de sequer começar a perceber. O balé audiovisual que nos é proporcionado dialoga perfeitamente com o texto enxuto, preciso de Mieli, que não desperdiça palavras ao vento. O jogo de recordações, de memória e de percepções sobre o passado envolvem o espectador de maneira legítima, impossível de não ser relacionada com a vida real e, ao mesmo tempo, impulsiona a bonita e por vezes onírica história sendo contada com uma leveza que, quando percebemos, acabou, mas que os créditos finais, com imagens, garantem mais alguns minutinhos de prazer.

Marinelli e Caridi que, como mencionei, estabelecem uma química imediata, talvez não tenham muito mais trabalho aqui do que serem fotogênicos diante das câmeras, já que o filme transcende seus personagens, mas isso seria injusto com a dupla. De certa maneira, “ele” representa o pessimismo, o medo de olhar para trás, a escuridão, mas não no sentido completamente negativo. “Ele” é realista, sabe que relacionamentos acabam simplesmente porque sim. “Ela”, por outro lado, é a luz, a alegria, o puro otimismo. O velho ditado “os opostos se atraem” pode e deve ser aplicado muito diretamente aqui, mas sem maniqueísmos exagerados, até porque ambos passam por transformações, cada um caminhando, ao longo dos anos, na direção do outro. São personagens arquetípicos, que fique bem claro, mas há um propósito nessa escolha de Mieli, que tenta fazer sua obra encaixar-se na universalidade das relações, apresentando seu denominador comum ao longo dos 106 minutos da projeção.

Entre Tempos é um filme raro em que a forma e a substância se fundem à perfeição. Uma narrativa audiovisual de apelo amplo, que conversa com o espectador de maneira franca, tragando-nos para dentro do transe narrativo que a direção e a montagem criam.

Entre Tempos (Ricordi?, Itália/França – 2018)
Direção: Valerio Mieli
Roteiro: Valerio Mieli
Elenco: Luca Marinelli, Linda Caridi, Giovanni Anzaldo, Camilla Diana, Anna Manuelli
Duração: 106 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.