Crítica | A Era do Gelo 2: O Degelo

estrelas 2,5

Após finalmente emplacar uma animação que fosse bem sucedida financeiramente com A Era do Gelo, a Fox não perdeu tempo e lançou uma continuação quatro anos depois do primeiro longa da franquia. O estúdio, tentando repetir o sucesso anterior, chamou mais uma vez o diretor Carlos Saldanha (dessa vez sem a companhia de Chris Wedge) para executar a tarefa. Mesmo que o foco do estúdio seja principalmente o lucro, será que Saldanha conseguiria manter também o nível da obra anterior?

A obra reúne o mamute Manny (Ray Romano), o tigre Diego (Dennis Leary) e o bicho-preguiça Sid (John Leguizamo), que após o longo período gelado, descobrem que toneladas de gelo estão prestes a derreter, resultando na inundação do vale em que vivem. Logo, o trio de amigos precisa correr para avisar a todos do perigo e ainda encontrar um local em que não corram riscos. Durante a viagem dos animais para um local seguro, os três encontram Ellie (Queen Latifah), uma mamute que pensa ser irmã de dois gambás.

Como o título do longa sugere, dessa vez saem as enormes geleiras e montanhas de neve e toma lugar um universo mais arborizado e colorido, sendo muito bem construído pelo design de produção através de cenários onde a natureza está mais presente, mostrando várias florestas e rios pelo vale. A mudança no clima também é pontuada pela fotografia, que troca a paleta de cores praticamente branca do filme anterior para construir aqui um esquema de imagens onde o verde e marrom são os tons predominantes.

A mudança de tom não ocorre apenas visualmente, como também no roteiro do filme, escrito por Peter Gaulke e Gerry Swallow, apostando dessa vez em uma história mais leve e com um número maior de cenas engraçadas. Apesar de ser bem sucedido em entreter e arrancar risadas, alguns momentos cômicos do filme soam exagerados e quebram o ritmo da trama, como na cena onde ocorre um número musical envolvendo urubus, que cantam Food, Glorius Food em uma clara paródia ao filme britânico Oliver!, logo antes do clímax da obra.

O roteiro não possui apenas esse problema, uma vez que, enquanto o primeiro filme desenvolve uma trama que aborda diferentes conceitos de família e possui bons arcos dramáticos, como Diego que fica dividido entre ser fiel a sua espécie ou proteger seus amigos, dessa vez a obra explora mal seus personagens. O único personagem com um arco interessante é Manny, que teme ser o último de sua espécie, já Diego se resume a tentar vencer o medo de nadar e Sid busca mais respeito de seus colegas, mas o filme abandona isso após 5 minutos de projeção.

Porém, mesmo sendo o mais interessante entre os três arcos dos protagonistas, o roteiro pouco explora o quanto o temor de estar sozinho afeta Manny, preferindo apresentar logo Ellie, uma mamute fêmea que pensa ser um gambá, focando no relacionamento de ambos. Isso não seria um problema caso a relação deles fosse bem desenvolvida, mas não é isso que ocorre, pelo contrário, há diálogos constrangedores envolvendo os mamutes, como, por exemplo, quando Ellie pergunta para Manny o que há de atraente nela e ele responde “O seu traseiro. Ele é enorme. É o maior traseiro que eu já vi”, sendo evidente que não se pode esperar um desenvolvimento complexo de personagens vindo de um roteiro que apresenta diálogos como tão fúteis para estabelecer relacionamentos.

Contudo, se o filme falha em desenvolver seus personagens, os realizadores acertam em abordar mais uma vez um tema importante do cotidiano, assim como no primeiro filme. Nessa sequência o aquecimento global é explorado, utilizando os efeitos desse fenômeno natural para movimentar a trama, forçando os animais a imigrarem mais uma vez, só que agora devido à inundação que ocorrerá no vale causada pelo efeito estufa. A obra ainda denuncia como sentimento de desespero é utilizado para explorar a população, exemplificado na imagem de Fast Tony, que prega o caos aos animais para vender suas bugigangas, falando que aquilo é a salvação deles para o apocalipse, sendo facilmente comparável a forma como a religião explora seus seguidores.

Apesar de ser raso naquilo que tenta desenvolver, A Era do Gelo 2 entretém com eficiência, diverte, importantes, principalmente nas cenas envolvendo Scrat e sua eterna busca pela noz, e aborda de forma sutil temas importantes. Mas se comparado ao nível do primeiro filme, essa sequência cai, mas não compromete a franquia, só resta a dúvida se há mais alguma coisa interessante a ser explorada nesse universo.

A Era do Gelo 2: O Degelo (Ice Age 2 The Meltdown) – EUA, 2006
Direção: Carlos Saldanha
Roteiro: Peter Gaulke, Gerry Swallow
Elenco: John Leguizamo, Chris Wedge, Ray Romano, Queen Latifah, Denis Leary, Seann Willian Scott, Josh Peck, Jay Leno, Will Arnett
Duração: 91 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.