Crítica | Era o Hotel Cambridge

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estrelas 4

Há muito de Narradores de Javé (2003), obra-prima do cinema brasileiro sobre a construção da História a partir de um enredo politizado e híbrido de ficção e documentário, em Era o Hotel Cambridge (2016). Nos dois casos, a cineasta Eliane Caffé deixa claro qual é o seu padrão narrativo principal (o atuar, o pseudo-documentar e o documentar — para quem não entende a História, variantes, propostas e variações do gênero documentário, sugiro fortemente a leitura de Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário) e a partir dele o espectador sabe que terá uma obra política, um lado da história, o lado ‘mais fraco da corda’, sobre a qual pensará ações humanas e sua relação pessoal e social com o espaço onde vive. Na verdade, esta é a essência da filmografia da cineasta, vista em todos os seus longas, Kenoma (1998), O Sol do Meio Dia (2009) e os dois citados, Narradores e agora Cambridge.

Em sua pesquisa para uma nova produção, que deveria ser sobre imigrantes e refugiados, Caffé se deparou com ocupações de edifícios no centro de São Paulo, onde encontrou muitos dos atores sociais que ela buscava filmar. Abraçando o segundo tema, ela dramatizou o cotidiano do antigo Hotel Cambridge, que fica na Avenida Nove de Julho e que um dia abrigou [ótimas!] baladas famosas da capital paulista, como a Gambiarra e a Trash 80’s. O último proprietário do local, Edgard Alexandre Maluf, não fez questão de ficar com o imóvel. O hotel não existia mais desde 2002 e apenas as baladas eram realizadas ali. Em 2011, a prefeitura desapropriou o prédio, classificando como “imóvel de interesse social”. Contando apenas IPTU não pago, ações trabalhistas e juros, a dívida do Hotel Cambridge era de R$ 690.000. Fora os cerca de R$ 30.000 que a SABESP cobrou para consertar um “gato’ gigantesco que havia na rede do prédio [e sim, isso foi pré-ocupação].

Aí entra a parte interessante, pois contrasta com essa relação inicial da prefeitura da cidade, o espaço e o projeto do grupo que organizou a ocupação das centenas de famílias no prédio. No dia 22 de novembro de 2012, o MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro) ocupou o antigo Hotel. Mas esse momento não é mostrado no filme, pois o foco está no momento presente. Ainda nos primeiros minutos, vemos bandeiras dos movimentos de moradia, assim como a representação de funcionamento de elementos comunitários, Assembleias e pedidos de engajamento e luta por parte dos coordenadores do grupo, que trafegam entre representar os outros (no caso da dupla de atores profissionais) ou representarem a si mesmos. É notável aí o excelente trabalho que Eliane Caffé faz com os não-atores, alguns deles tendo uma presença impressionante em tela, com destaque para os dois imigrantes palestinos, especialmente o mais jovem.

Se o espectador tem problemas ideológicos e amarras políticas com representações cinematográficas como a que temos aqui, certamente verá o filme com maus olhos. Não devido a representação e à narrativa, pois elas são bem claras — a não ser que o espectador finja não ver e as ignore, para então chamar o filme de “desonesto”, comportamento que é bastante comum em obras de caráter político, vide Eu, Daniel Blake ou A 13ª Emenda, só para citar dois longas da mesma safra de Cambridge. O que deve pesar aqui é a forma como a diretora leva o elemento social para o embate ao fim da fita. A organização de uma “festa” (jargão para “ocupação”) e a tentativa de reintegração de posse é filmada com o máximo de caráter épico possível dentro da estática do filme, firmando o tom político (pró-ocupação) que a diretora vinha construindo desde o início.

Nesse momento, juntam-sem em um caldeirão de discussões sociológicas, políticas e ideológicas todos os blocos anteriores. Vem á tona a interação das diferentes culturas das pessoas que ali habitam; as colocações do roteiro sobre o direito a moradia; a organização interna dos moradores para garantir que o movimento siga resistindo; a produção teatral/cinematográfica como um toque metalinguístico para ressaltar a já dinâmica forma de alternar realidade, pseudo-documentário e documentário; a força do Estado (que também aparece em Narradores de Javé, mas em outra configuração); o ódio gratuito e as opiniões segregadoras, racistas e xenofóbicas de pessoas na internet falando sobre as ocupações… tudo isso pipoca na mente do espectador, pois se alia ao desespero das pessoas em sua desobediência civil frente à força da Polícia Militar e às muitas perguntas sobre como andam os projetos habitacionais na maior cidade da América Latina.

Era o Hotel Cambridge possui alguns problemas de ritmo na montagem na reta final e tem um conjunto de cenas iniciais bastante confuso. Há ainda contra o longa acontecimentos que não acrescentam muito à ideia principal, fazendo algumas partes desnecessariamente longas ou enxertadas com personagens/não-atores que não ajudam a trama avançar. No ramo dos acertos, vale destacar a inteligente direção de arte que aproveitou bastante o espaço para criar um senso de pertencimento ou adequação dos protagonistas, tanto em suas casas (a ocupação original) quanto na “festa” que existe ao final da obra, que representa a luta para que outras pessoas também tenham casa.

O ciclo político como “moral da história” e o roteiro politizado fazem todos os espectadores pensarem a respeito do principal problema levantado na obra e isso independe de posições políticas ou se o público gostou ou não da película. Interessante como Era o Hotel Cambridge se diferencia de outra obra sobre “resistir” e “ocupar”, Aquarius (2016). No longa de Kleber Mendonça Filho, o elemento pessoal, a memória e a História são os grandes faróis do texto. Já em seu filme, Eliane Caffé adota a ação política e física como foco, justamente o outro lado da moeda. Em um, tratamos do “lado de dentro”. Em outro, “do lado de fora”. O mesmo problema sob olhares diferentes.

Era o Hotel Cambridge (Brasil, 2016)
Direção: Eliane Caffé
Roteiro: Luis Alberto de Abreu, Eliane Caffé, Inês Figueiró
Elenco: José Dumont, Suely Franco, Isam Ahmad Issa, Paulo Américo, Juliane Arguello, Thais Carvalho, Guylain Muskendi Lobobo, Lucia Pulido, Mariana Raposo, Carmen Silva, Gabriel Tonin, Ibtessam Umran
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.