Crítica | Era Uma Vez na América

estrelas 4,5

You see, Mr Secretary… I have a story also, a little simpler than yours. Many years ago, I had a friend, a dear friend. I turned him in to save his life, but he was killed. But he wanted it that way. It was a great friendship. But it went bad for him, and it went bad for me too. Good night, Mr Bailey.

obs 1: A crítica contém spoilers do filme.

obs 2: A versão criticada é o “corte europeu” de 229 minutos, 22 minutos mais curta que a versão do diretor, mas 90 minutos mais longa do que a versão mais popular, lançada nos cinemas nos Estados Unidos. 

A curtíssima, mas marcante carreira de Sergio Leone chegou a seu fim com Era Uma Vez na América, um épico que ele queria tanto produzir que recusou o convite da Paramount para dirigir O Poderoso Chefão. O diretor perseguia o livro The Hoods, de Harry Grey, que deu base a seu filme, desde a década de 70, mas diversos empecilhos o impediram de levar a cabo o projeto até 1982.

Reparem só o tempo que Leone ficou longe das câmeras desde seu papel de diretor sem créditos em Trinity e Seus Companheiros: nove anos. E, mesmo passado esse tempo, ele ainda tentou trazer John Millius para a direção, mas ele teve que recusar em virtude de seus compromissos com a direção de O Vento e o Leão e o roteiro de Apocalypse Now, ambos ainda na década de 70. Sem alternativas, Leone arregaçou as mangas e tratou de ele mesmo trazer Era Uma Vez na America à luz.

O resultado é um filme complicado de se assistir. Complicado, mas muito, muito interessante, desde que o espectador saiba o que esperar de um filme de Leone: sequências lentas, que falam e arrebatam com imagens. A complicação vem da montagem não linear da longa fita que, em seus 40 minutos iniciais, não deixa o espectador se localizar no tempo. Focando primordialmente em Noodles, um gângster judeu em Nova Iorque, a obra começa violenta na década de 30, vai para a década de 20 e, depois, para os anos 60. Mas esse desnorteamento inicial, que marca o desaparecimento e a volta de Noodles para sua cidade, funciona para uma coisa, fisgar o espectador. Pode ser complexo e pode ser lento, mas é viciante, especialmente considerando que, ao fundo, ouvimos a magnífica trilha sonora de Ennio Morricone, uma das melhores de sua carreira (quantas “melhores da carreira” esse grande compositor tem, não é mesmo?).

Quando o filme se fixa na adolescência de Noodles (nesse momento vivido por Scott Schutzman Tiler) começamos a entender o subtexto fundamental da narrativa: a amizade e a lealdade. Diferente do que se pode achar, Era Uma Vez na América não é um “filme de gângster” ou “de máfia”. Ele não pode ser comparado de verdade com O Poderoso Chefão, que tem um olhar completamente diferente sobre a vida criminosa. Os dois filmes são obras-primas de seus respectivos jeitos e compará-los é reduzi-los. Era Uma Vez na América é um filme sobre a amizade e a lealdade tendo como pano de fundo a vida de um grupo de seis garotos judeus (inicialmente, ao menos) que desde sempre souberam que viveriam e morreriam juntos do lado de lá da lei. É, fundamentalmente, a bela e trágica história da amizade de Noodles com Max (quando criança vivido por Rusty Jacobs) ao longo de quase 50 anos.

E, para fazer isso, Sergio Leone cria filmes dentro de filmes. No primeiro, contido nos já mencionados 40 minutos iniciais, ele estabelece – e confunde – a história de Noodles, criando mistério sobre uma traição, uma maleta de dinheiro desaparecida e sobre quem teria descoberto onde Noodles estava se escondendo nos últimos 30 anos. Esse é o momento da montagem não linear que prende o espectador na cadeira.

O segundo filme é a vida dos jovens futuros bandidos, de como Noodles conhece Max, da paixão de Noodles por Deborah (Jennifer Connelly, então com 12 anos) e a criação e o fortalecimento da pequena gangue independente formada ainda por Patsy (Brian Bloom), Cockeye (Adrian Curran) e Fat Moe (Mike Monetti). Quando voltamos para o “presente” na década de 60 e novamente vemos Noodles (Robert de Niro, com maquiagem para parecer mais velho), começamos então, o terceiro filme, em um novo e longo flashback a partir da saída da prisão de um Noodles mais velho, mas ainda novo, com 20 e tantos anos (também De Niro), durante a Lei Seca e seu reencontro com Max, Cockeye, Patsy e Fat Moe (agora, respectivamente, James Woods, William Forsythe, James Hayden e Larry Rapp) e, claro, com Deborah, agora vivida por Elizabeth McGovern. Vemos o desenrolar do sucesso da gangue e o inevitável e sanguinolento final, que deixaria uma terrível cicatriz psicológica em Noodles.

Mas a estrutura complexa imaginada pelos oito roteiristas do épico vai ainda mais além, com um quarto filme, esse finalmente completamente no presente (final da década de 60), com Noodles descobrindo a razão de ter sido trazido de volta para a cidade. É um daqueles momentos de triturar o coração, não pela revelação do segredo, mas pela reação do velho Noodles, contida, entristecida, mas ao mesmo tempo feliz e aliviada. São momentos finais que ficarão para sempre na mente de quem perseverar e assistir Era Uma Vez na América em toda sua plenitude.

No entanto, a coisa vai mais a fundo ainda. Quando Noodles relutantemente “trai” seu grupo de amigos na década de 30, levando-os à morte, nós o vemos drogado, em um local onde se fuma ópio. Nos últimos segundos da obra, Leone nos leva de volta a esse mesmo local e dessa vez nos faz assistir ao processo pelo qual Noodles passa até ele se virar e, com olhar vidrado, abrir um largo sorriso de felicidade induzida. Mas porque dou destaque a esse momento? Bem, essa é uma das belezas de Era Uma Vez na América.

O ópio, como se sabe, leva seu usuário a ter alucinações, alguns dizem que até premonitórias. Leone está claramente nos fazendo concluir que uma das interpretações possíveis é que tudo que se passa a partir dos anos 30 é apenas o resultado de uma alucinação de Noodles. Assistir Era Uma Vez na América com esse enfoque empresta uma conotação ainda mais trágica, só que talvez mais lógica para todas sequências além dos anos 30 que carregam consigo diversos aspectos de sonho, como Noodles “entrando na pintura” da estação de trem, seu encontro com uma Deborah não tão envelhecida assim nos anos 60, seu encontro com o filho dela que é vivido pelo mesmo ator que faz Noodles quando jovem e, claro, seu reencontro chocante (para ele) com Max.

Essas diversas camadas de Era Uma Vez na América surpreendem e mesmerizam o espectador, jogando-o de época para época sem perdão, aproximando-o de Noodles e seu grupo sem, porém, domesticá-los, sem açucará-los para consumo fácil. Essa foi uma das razões pelas quais, para lançamentos nos EUA, o filme foi eviscerado pela produtora, perdendo mais de 90 minutos de seu tempo e tornando-se uma mixórdia narrativa. A versão europeia, de 229 minutos, reconstrói o filme para uma versão que, apesar de não ser a integral, consegue passar perfeitamente a narrativa de Leone, sem maiores prejuízos de ritmo. Mas essa mesma versão nos faz ter repulsa de Noodles por suas ações, especialmente os dois estupros que ele comete, o primeiro deles um tanto quanto desnecessário e o segundo – o de Deborah – absurdamente trágico e revoltante, daqueles que dá vontade até de clicar no avanço rápido. Sim, é um mundo violento e masculino que Leone nos faz mergulhar, mas, pessoalmente, tenho problemas com esses dois momentos.

A fotografia em tom sépia, como se diversas sequências fossem fotografias antigas e a filmagem em locação em Nova Iorque, Paris (a estação de trem de Nova Iorque), Florida (a praia) e Veneza (o restaurante de Long Island aonde Noodles leva Deborah para jantar) e Quebec emprestam uma autenticidade extra à fita. Acreditamos facilmente no que estamos vendo graças a um design de produção minucioso, que reconstrói as diversas épocas com precisão, sem que por um segundo duvidemos que estamos o tempo todo em Nova Iorque.

Era Uma Vez na América é um inesquecível épico de um dos grandes diretores da Sétima Arte. Um filme imperdível, pesado, trágico, mas extremamente gratificante.

Era Uma Vez na América (Once Upon a Time in America, EUA/Itália – 1984)
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini, Sergio Leone, Stuart Kaminsky, Ernesto Gastaldi (baseado no romance The Hoods de Harry Grey)
Elenco: Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Joe Pesci, Burt Young, Tuesday Weld, Treat Williams, Danny Aiello, Richard Bright, James Hayden, William Forsythe, Darlanne Fluegel, Larry Rapp, Richard Foronjy, Robert Harper, Dutch Miller, Gerard Murphy, Amy Ryder, Scott Schutzman Tiler, Rusty Jacobs, Brian Bloom, Adrian Curran, Mike Monetti, Noah Moazezi, James Russo, Jennifer Connelly
Duração: 229 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.