Crítica | Era Uma Vez …

Era Uma Vez

estrelas 3,5

Desde 1987, quando foi cinegrafista do documentário Santa Marta: Duas Semanas no Morro, de Eduardo Coutinho, o cineasta e diretor de fotografia Breno Silveira tinha interesse em contar uma história nos moldes de Era Uma Vez, projeto que se concretizou vinte anos depois. Inicialmente voltado ao romance Cidade de Deus, de Paulo Lins, perdeu tempo na corrida, já que os direitos foram cedidos para Fernando Meirelles. Direcionou as energias para projetos como o dramático 2 Filhos de Francisco, e, mais adiante, retornou ao tema do amor entre jovens numa realidade cruel de violência e preconceitos sociais.

O cenário é o famoso Rio de Janeiro. Dé (Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate) se apaixonam. Ele é um morador do morro do Cantagalo, em Ipanema, filho de uma empregada doméstica (Cyria Coentro) e vendedor de cachorro-quente em um quiosque na praia, de frente ao prédio em que mora a sua “princesa”, Nina. A moça, filha de uma família abastada, mora num local privilegiado e depois de romper com o namorado “almofadinha”, encontra-se com Dé numa balada na praia e se apaixona.

Os dois precisarão atravessar os obstáculos que são colocados em seus caminhos, pois a diferença social e a profusão de preconceitos se manifestarão constantemente. O trágico se aproxima quando um dos irmãos de Dé (o outro foi assassinado enquanto o garoto era uma criança) é solto e tendo sido exilado da cadeia, promete voltar para se estabelecer. O casal de jovens, afoito pelos sentimentos, decide fugir, mas antes disso, participa de uma festa na favela. É quando o inevitável acontece: Nina é sequestrada e Dé procurado como bandido, tendo ainda uma polícia despreparada e um circo midiático interessado em “uma gota de sangue em cada frame dos vídeos” expostos na televisão.

Era Uma Vez tem um roteiro que não traz grandes novidades. Logo que estreou, boa parte da metonímica crítica de cinema brasileira, geralmente acostumada a reduzir tudo a simples rótulos, colocou o filme como uma versão de Romeu e Julieta no Rio de Janeiro. A presença da estrutura criada por Shakespeare na tragédia sobre famílias rivais é óbvia para quem conhece a peça teatral, mas o filme vai um pouco além, pois o esquema de rivalidade familiar é trocado pela falta de compatibilidade no que diz respeito às condições sociais.

Interessada em deixar a história mais verossímil, a roteirista Patrícia Andrade, responsável por assinar o texto ao lado de Domingos de Oliveira, frequentou durante algum tempo o morro do Cantagalo, tendo em mira conhecer a sua realidade e trazer elementos empíricos para o desenvolvimento da fábula de Dé e Nina, uma história que pelos caminhos que opta do meio para o final, tende a culminar numa tragédia na vida de ambos.

A fábula pode ser relativamente previsível, mas a história não deixa de ter a sua beleza. Dé e Nina são dois jovens em busca de um sentimento tão complexo na contemporaneidade, o amor, e graças ao distanciamento físico, cultural e social do casal, as coisas caminharão para um epílogo trágico e lacrimejante. Não há espaço para redenção. Uma sucessão de mal entendidos nos leva a crer que a tragédia é o iminente para o epílogo. O desfecho, por sua vez, mesmo que tenha a “estrutura” parecida com o material do dramaturgo renascentista, oferece um encerramento sob um novo prisma, trágico, sim, mas de uma maneira não tão óbvia, nos levando a crer, em alguns instantes, que tudo aquilo poderá ser resolvido. Mas, aí, caro leitor, seria enredo de novelinha interessada em agradar o seu público mais acomodado. Era uma Vez é certeiro em radiografar com a maior verossimilhança possível, o amor entre jovens num ambiente urbano repleto de contradições.

Como é de se esperar numa trama que faz paralelo com obras canônicas ou reconhecidas pelo público, a intertextualidade se faz presente numa interessante cena em que Nina, na praia, lê Cidade Partida, de Zuenir Ventura, obra que retrata a realidade dos moradores do morro Vigário Geral, com foco em suas estratégias de sobrevivência e diálogos sobre paz entre os habitantes que precisam fazer o possível para viver com o mínimo de dignidade naquela localidade. A leitura já nos mostra um personagem diferente do habitual neste tipo de narrativa, tendo a favela como espaço exótico ou burlesco, ao contrário, Nina parece interessada, mesmo que dentro das elipses do filme, entender a realidade daquele espaço.

A direção de fotografia de Dudu Miranda é bastante eficiente para o encadeamento de um clima ideal entre a paixão, o amor, a incerteza e a tragédia iminente. Lançado em 2008, o filme dividiu opiniões, passou por festivais e mostrou um cinema brasileiro forte e seguro. Com 117 minutos, a produção bem dirigida pelo cineasta com pouca experiência na cadeira de diretor faz uma reflexão coerente sobre a violência e as trocas simbólica em nosso cotidiano. É um filme com clichês sim, mas como costumo afirmar, um clichê quando bem trabalhado pode render uma história interessante. Era Uma Vez é um destes casos.

Era Uma Vez … — Brasil, 2008
Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade
Elenco: Paulo César Grande, Rocco Pitanga, Thiago Martins, Vitoria Frate
Duração: 118 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.