Crítica | Erased (2017)

É impressionante a velocidade das coisas no Japão. O mangá Boku dake ga Inai Machi, conhecido como Erased ou, na literalidade, A Cidade Sem Mim ou A Cidade Que Eu Não Tenho, escrito por Kei Sanbe, foi publicado entre 2012 e 2016 e, antes mesmo de ser encerrado, ganhou uma adaptação em anime, que foi ao ar entre janeiro e março de 2016. No mesmo ano, em novembro, o mangá foi novamente adaptado, desta feita como um filme com atores reais e, também no mesmo ano, a obra original ganhou dois spin-offs, um em mangá e outro em forma de romance.

Nem bem no ano seguinte, é a vez do Netflix adaptar novamente o mangá, prometendo um final diferente, que surpreenderia os fãs (como não li o mangá, não posso traçar paralelo algum – ajustem suas expectativas de acordo). O resultado veio na forma de uma série de TV live-action com 12 episódios de apenas meia hora cada, o que torna o hábito do binge watching – ou o “assistir tudo em uma sentada só” para falar português claro – quase irresistível.

Afinal, Erased, assim como Dark, outra produção não americana do Netflix lançada apenas duas semanas antes, lida com crianças e viagem no tempo, uma combinação que, se bem escrita, funciona como uma armadilha para fãs do gênero assim como aquela luz azul para moscas. Mas Erased emudece seu lado sci-fi muito fortemente, usando o artifício de forma esparsa e inteligente para lidar com o valor da amizade em duas eras diferentes.

Começando em 2006, somos apresentados a Satoru Fujinuma (Yûki Furukawa) um jovem entregador de pizzas e aspirante a mangaká que tem um poder diferente: ele revive alguns minutos de seu passado recente, como um déjà vu, quando há algum perigo que ele precisa evitar. Na verdade, o tal poder, que ele chama de “revivescência”, não é exatamente um poder, pois ele não tem controle sobre ele. Sem mistérios e usando uma narração em off, a vida do jovem lidando com sua habilidade é bastante prosaica, sem maiores complicações. Mas tudo muda quando ele chega em casa e descobre sua mãe morta, esfaqueada. Sendo o principal suspeito, ele foge e seu poder, em momento de emergência, entra em funcionamento, fazendo-o voltar no tempo não alguns minutos, mas vários anos, de volta para 1988, quando ele era uma criança na escola primária. A partir desse ponto, ele passa a investigar sequestros e assassinatos que aconteceram nessa época que ele acha que têm ligação com a morte de sua mãe no presente.

Mas Erased tem suas próprias regras para as viagens no tempo. Ao voltar para qualquer passado, Satoru é ele mesmo, jamais acontecendo o que vemos, por exemplo, em De Volta para o Futuro Parte II, em que Marty McFly vê ele mesmo. Quando o jovem vai para 1988, o que vemos é ele mesmo com 10 anos (vivido por Reo Uchikawa), mas com as memórias dele de 18 anos no futuro. O passado continua afetando o futuro, mas só vemos uma linha temporal contínua, com Satoru em seu centro. Entendidas as regras, o envolvente mistério vai sendo descortinado aos poucos e muito da primeira parte da série é dedicada a esse passado nos anos 80, com Satoru construindo fortíssimos laços de amizade para tentar salvar a vida de Kayo Hinazuki (Rinka Kakihara) que, em seu futuro (ou presente), é a primeira vítima do sequestrador e assassino em sua cidade.

A grande verdade, porém, é que, como todo bom filme ou série que lida com viagem no tempo, ela é só um artifício para abordar outras questões. Erased, como já mencionei, trata, primordialmente, da conexão humana, da importância e do valor das amizades e da conexão de mãe e filho. É uma belíssima história de amadurecimento com leves contornos sci-fi que prendem o espectador não só por seu ritmo cadenciado, como pela mensagem. Claro que ajuda muito que o casal principal de crianças (Uchikawa e Kakihara) são uns encantos, com o menino representando muito bem o deslumbramento da infância, ao mesmo tempo que se apoderando dos maneirismos exagerados que são marca de mangás, mas sem parecer artificial e a menina, sempre séria e sóbria, dando um show de auto-contenção e de revelação de uma fascinante personagem que sofre de violência em casa e que, por isso, se fecha em si mesma, tendo na amizade com Satoru sua única válvula de escape.

Ainda sobre a amizade dos dois, que, não demora, são ajudados por outros garotos, vale destacar o extremo respeito e educação entre eles. Trata-se de um traço da cultura japonesa que causa até estranhamento para o Ocidente, mas a juventude que vemos retratada sabe seus limites – entre eles e em relação aos adultos – e, ainda que alguns possam argumentar que é uma versão idealizada de crianças, há muitos elementos ali na amizade deles que muito claramente demonstram suas diferentes e seus traços civilizatórios que beiram a artificialidade. É fascinante vê-las atuando em um Japão menos do que idealizado, em uma cidadezinha em Hokkaido cercada por fábricas com altas chaminés soltando fumaça e com pequenas casas pré-fabricadas que lembram contêineres adaptados. O choque do contraste da luz que emana das crianças com os tons mais sóbrios e empobrecidos do local em que grande parte da série se passa é uma das qualidades do design de produção, algo que é amplificado por uma fotografia que tende a “quebrar” a realidade com tomadas oníricas noturnas contra um céu absurdamente estrelado.

Cheia de reviravoltas, a trama de Erased não cansa e mantém o espectador ativamente participando de seus desdobramentos e sofrendo pelo suspense que é criado. Por vezes, a direção de Ten Shimoyama exagera na criação de tensão, gerando, ato contínuo, momentos inadvertidamente cômicos como resultado, mas não é nada que atrapalhe efetivamente a fluidez narrativa. Mais do que isso, a série arrisca ao quebrar seus próprios paradigmas e regras na virada do episódio 8 para o 9, efetivamente “recomeçando” a história e, então, levando-a para o clímax. É ousado, mas muito interessante o que o roteiro faz, obrigando-nos a nos readaptar ao que vemos, estilhaçando nossas expectativas no processo. Há, sem dúvida alguma, uma ruptura de ritmo nesse momento enquanto a história novamente se coloca de pé para chegar à resolução. Mas ela sem dúvida se levanta e, ainda que haja um exagero descontextualizado na sequência climática, a narrativa mantém-se cadenciada e lógica.

Erased é uma agradável surpresa, com uma bela mensagem e, sobretudo, magníficas atuações mirins. A jornada de amadurecimento de Satoru é dura e cheia de reviravoltas, mas, se fosse diferente, não teria valor. É seu caminho tortuoso que nos inspira e que, em última análise, realmente interessa.

Erased (Bokudake ga Inai Machi, Japão – 15 de dezembro de 2017)
Direção: Ten Shimoyama
Roteiro: Kei Sanbe (baseado em mangá de Kei Sanbe)
Elenco: Yûki Furukawa, Tomoka Kurotani, Reo Uchikawa, RiRia, Shigeyuki Totsugi, Jyo Kairi, Rinka Kakihara, Mio Yûki, Hidekazu Mashima, Noriko Eguchi, Jin Shirasu, Hiroki Konno, Ayako Yoshitani, Junwichi Mogy
Duração: 30 min. aprox. (12 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.