Crítica | Eraserhead

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estrelas 5,0

Eraserhead, o primeiro longa-metragem de David Lynch, realizado com apoio do American Film Institute (AFI), já demonstra todo o potencial de seu realizador. Trata-se de um terror surrealista que faz o espectador mergulhar diretamente na cabeça do protagonista, nos tirando do lugar comum, criando um nítido desconforto que atua em grau crescente ao longo de seus curtos 89 minutos. Simplesmente entender Eraserhead está fora de questão. É um filme para ser sentido, vivenciado – ousadia essa que foi criticada em primeiro momento, mas que acabou sendo reconhecida nos anos posteriores, garantindo um lugar de destaque à obra dentre as produções cinematográficas americanas.

Fazer um resumo ou sinopse do longa, portanto, certamente não faria jus a ele próprio; Lynch trabalha não o seu argumento, mas as sensações que nos são passadas através de um curto período na vida de Henry Spencer (Jack Nance), que tem um bebê deformado junto de Charlotte Stewart, e agora precisa cuidar dele enquanto sofre com surreais pesadelos e alucinações. É curioso como, em momento algum, sabemos se estamos diante de uma experiência vivenciada pelo protagonista ou se tudo faz parte de um grande surto imaginário, ao passo que o diretor/roteirista imprime em sua obra uma narrativa onírica que encadeia acontecimentos aparentemente desconexos. Em um momento estamos em sua casa, no outro na rua, já em outro dentro de um sonho.

Essas bruscas mudanças, porém, estão longe de prejudicar nossa imersão e fazem o preciso trabalho de nos mergulhar em uma confusa espiral que apela diretamente a nossos sentidos, que procuram, com toda a força, entender o que se passa na tela. A constante dúvida é um dos maiores atrativos da obra e por si só ela consegue fazer com que fiquemos presos à tela, sem tirar os olhos dela. O desconforto, já citado, então, começa a adentrar nossas mentes conforme o caráter grotesco do longa se apresenta. O bebê Spencer é algo verdadeiramente digno de garantir o gênero terror ao filme e soa tão real como assustador, fazendo a realidade e o pesadelo chocarem-se dentro da trama. Em seus desconfortáveis closes, Lynch nos faz enxergar tais aspectos com certa repugnância e cada um deles é utilizado com precisão – o simples coçar de um olho soa como algo extremamente angustiante.

É interessante notar como, desde o início, há um ar de incredulidade e de susto nos olhares dos personagens, algo que se encaixa com a relativa naturalidade com que lidam com a criatura. Mais uma vez o caráter onírico se faz presente: não questionamos o que se passa dentro de tais experiências, apenas as aceitamos.

Essa palpável passividade é, naturalmente, sentida na disposição do protagonista, que simplesmente aceita tudo que é jogado perante a si próprio. Com poucos diálogos, temos nele um quase que exclusivo observador – pouco realmente o abala e isso somente acontece próximo ao clímax da narrativa, que, então faz o serviço de nos deixar com um embrulho no estômago. Henry, do início ao fim, parece estar sob efeito de drogas alucinógenas, ele próprio diz estar de “férias” e isso pode muito bem significar férias de sua própria vida, representando uma fuga da realidade ao qual se inserira. Seu cabelo levantado, um dos motivos pelos quais a obra se chama Eraserhead, conota uma certa loucura enquanto o nome do filme pode muito bem resumir o vazio de sua mente, que passa a ser preenchido por esse surrealismo.

De todos os aspectos do longa, porém, aquele que talvez mais nos cause forte sensação de claustrofobia é o seu desenho de som. Constantes efeitos sonoros, que parecem ter sido tirados de um ambiente industrial, preenchem as cenas e trazem à tona a loucura do que vemos em tela. Discreto a priori, essa sonoridade nos afeta pouco a pouco, fazendo-nos ansiar pelo seu término, ao mesmo tempo que ajudam a compor esse cenário distorcido, que mais uma vez retomam a ideia de que tudo se trata de um imaginário de Spencer. Há um grande vazio no filme, muito bem representado pela ausência de personagens e de diálogos. A constante repetição desses sons ocupam esse vazio e, quando acabam, notamos que o aparente silêncio que testemunhávamos era, de fato, um grande barulho contínuo. O relaxamento vem somente nos créditos finais.

Eraserhead está longe de ser um filme fácil de ser assistido, mas isso não tira nem um pouco o fascínio que podemos ter por ele. David Lynch inicia sua carreira nos longa-metragens com toda a força com uma obra que pode ser, ao mesmo tempo, fascinante e repugnante. Trata-se de um mergulho no mundo dos sonhos e dos pesadelos, uma experiência verdadeiramente surreal que dificilmente pode ser imitada, por mais que alguns de seus aspectos tenham inspirado inúmeros outros realizadores, como David Fincher no desenho de som de Seven – Os Sete Crimes Capitais. Mais uma vez, Eraserhead precisa ser sentido e não simplesmente assistido.

Eraserhead (idem – EUA, 1977)
Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch
Elenco: Jack Nance, Charlotte Stewart, Allen Joseph, Jeanne Bates, Judith Roberts, Jack Fisk, Jennifer Chambers Lynch
Duração: 89 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.