Crítica | Eros

Na mitologia grega, Eros, filho de Afrodite e Ares, é o deus do amor e do erotismo. Através de pinturas e esculturas, ele é normalmente representado como uma criança nua, inocente e travessa. Aliás, Platão descreve Eros como alguém “sempre à espreita dos belos de corpo e de alma, com sagazes ardis (…) nunca é totalmente pobre nem totalmente rico”. Baseado nisso, os mestres Wong Kar-Wai, Steven Soderbergh e Michelangelo Antonioni estruturaram o filme Eros, abordando o amor e o erotismo com pontos de vista diferentes, mas destacando seu poder aterrador.

A obra apresenta três histórias distintas. Em Xangai, um alfaiate apaixona-se por uma cliente. Em Nova York, um homem narra ao seu analista seus sonhos com mulher misteriosa. Na Toscana, um casal de meia-idade tem a vida atravessada por mulher mais jovem e atraente.

Donos de estilos bem definidos, o olhar de cada diretor fica bastante evidente em Eros. Portanto, temos a irreverência de Soderbergh, parecida com a de Onze Homens e Um Segredo; o existencialismo de Antonioni, como do filme Profissão: Repórter; e a riqueza visual de Kar-Wai, como em seu longa Amor à Flor da Pele. Porém, a liberdade dos diretores em seguir seus estilos resulta em histórias que oscilam de qualidade e é aí que os problemas surgem. Como acontece na maioria das obras desse tipo, há em Eros uma disparidade entre as tramas.

Enquanto A Mão, de Kar-Wai, constrói com eficiência e fluidez a relação de desejo entre Hua e Zhang, ressaltando a excitação que sentem em cada toque e novo vestido costurado pelo rapaz; O Perigoso Encadeamento das Coisas, de Antonioni apresenta diversas barrigas em sua narrativa, parecendo até não ter nexo em alguns momentos, como na cena em que Christopher bate na porta de uma garota jovem sem nenhuma construção prévia. Já Equilíbrio, de Steven Soderbergh, apresenta uma narrativa cativante sobre o mundo surreal dos sonhos, mas peca por fugir da temática do longa, parecendo ter mais intenções de abordar esse universo imaginativo do que o amor, principal assunto da obra.

Entretanto, por mais que as histórias oscilem de qualidade, não há a sensação de repetição aqui, uma vez que cada uma delas traz uma reflexão própria sobre desejo. O Perigoso Encadeamento das Coisas mostra como o ser humano idealiza a juventude, física ou espiritual, com o passar da idade. Já Equilíbrio destaca o poder do subconciente sob o desejo, muitas vezes imaginando uma pessoa que não existe; e, por fim, A Mão revela o quão excitante pode ser o simples toque de uma mão, algo que Kar-Wai destaca bem com seus close-ups nas mãos dos personagens.

Outro ponto semelhante é a riqueza visual de cada história. Antonioni apresenta seus tradicionais planos abertos com belas paisagens, trazendo os personagens em conjunto com os ambientes, estratégia que evoca a natureza existencialista deles. Enquanto isso, Soderbergh opta pelo preto e branco para destacar a diferença entre o mundo dos sonhos e o real, além de dar uma roupagem clássica ao curta, que se passa na década de 50. Para finalizar, Kar-Wai é o que apresenta a direção mais consistente aqui, construindo, através do figurinos elegantes e uma direção de arte refinada, um universo sensual, provocativo, mas também melancólico, com uma paleta de cores mais escuras.

Vale destacar também a belíssima transição entre as histórias, trazendo imagens eróticas que lembram o livro Kamasutra, apresentadas em cores diferentes dependendo do capítulo que antecedem, remetendo à paleta usada por cada diretor. Além disso, as transições são embaladas ao som de Michelangelo Antonioni, canção interpretada com perfeição por Caetano Veloso, evocando a atmosfera de desejo do longa.

Mesmo com histórias inconsistentes, Eros chama a atenção por proporcionar ao público a reunião de três lendas do cinema, Antonioni, Soderbergh e Kar-Wai, apresentando-nos pequenas sínteses do estilo de cada um e a suas visões sobre um tema tão universal como o amor.

Eros – Itália, EUA e Hong Kong, 2004
Direção: Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh, Wong Kar-Wai
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh, Wong Kar-Wai
Elenco: Robert Downey Jr, Gong Li, Luisa Ranieri, Chang Chen, Alan Arkin, Tien Feng, Christopher Buchholz, Regina Nemni, Ele Keats
Duração: 108 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.