Crítica | Escritório / Office (2015)

estrelas 4

Quem assiste e gosta dos filmes de Johnnie To vai se surpreender completamente com Escritório, que talvez seja seu filme mais… digamos, diferente. Afinal, trata-se de um musical (sim!) altamente estilizado sobre a vida corporativa em uma empresa multibilionária na China durante a crise do subprime em 2008. Mas se essa breve descrição não atiçar sua curiosidade, então confira sua pulsação, pois você deve estar morto.

Usando uma estrutura teatral que lembra de longe o que Lars von Trier fez no magnífico Dogville, mas com bem mais sofisticação, vemos cenários sem paredes, apenas com a estrutura básica, normalmente muito iluminada. Com isso, To trabalha uma incrível movimentação de câmera que, apesar de ser frenética, não necessariamente chama atenção para si mesma. Ela está lá e é usada no ritmo da dinâmica entre os personagens que são usados em uma cenografia teatral estonteante e perfeita. Todos os espaços são ocupados com uma simetria quase kubrickiana e a fotografia faz uso de profundidade de campo para abordar situações simultâneas em locais diferentes graças à “transparência” do cenário. Além disso, com fotografia de alto contraste e um design de produção que acompanha esse princípio, o resultado é de certa forma inebriante.

Ou seja, em termos técnicos, Escritório é um deleite visual para apreciado pelo cinéfilo mais ávido que saiba esperar o inesperado de Johnnie To. Mas muitos podem ficar curiosos pelo fato de a produção ser um musical e confesso que temi essa características também. No entanto, fui completamente surpreendido pela sonoridade das canções (há diálogos, com músicas esparsas apenas) e, em alguns casos, pelo agradável ritmo que elas imprimem na ação em tela.

Baseado na peça teatral musical Design for Living de 2008 (não confundir com a peça homônima de Noël Coward), escrita e estrelada pela taiwanesa Sylvia Chang e que fez grande sucesso na China, To conta a história da empresa Jones & Sunn que está às vésperas de fazer um IPO sob a liderança de seu presidente Ho Chung-ping (Chow Yun-fat) e da CEO Winnie Cheung (Sylvia Chang). Os dois são amantes há 20 anos e a esposa de Ho Chung-ping está em um coma causado possivelmente por desgosto. Mas a história é inicialmente vista através dos olhos de Lee Seung (Wang Ziyi) e Kat Ho (Lang Yueting), dois jovens estagiários que acabaram de começar a trabalhar por lá. Logo se ve que, enquanto ele tem origens humildes, Kat Ho tem uma sofisticação diferente que deixa entrever um segredo que ela tenta ao máximo esconder.

Enquanto a peça original tem foco no papel de Chang, como uma mulher de meia-idade e seu papel nessa sociedade capitalista (China, quem te viu, quem te vê…), o filme de  To acaba se perdendo em uma multitude de personagens que, em razão do relativo pouco tempo de tela, são mal explorados. Com isso, há uma dispersão de assuntos, com o roteiro caindo na armadilha de querer mostrar pouco de mais, no lugar no de focar em desenvolver apenas alguns personagens e situações.

Apesar do roteiro perder o foco, a diversão é garantida. Chow Yun-fat (ele não envelhece não?) tem um ar estoico e direto e seu olhar já demonstra sabedoria e muita experiência logo na primeira tomada no hospital, visitando sua esposa. E, ainda que os mais jovens – notadamente Ziyi e Yeuting – não façam feio, o destaque fica mesmo com Sylvia Chang e sua pose orgulhosa, inabalável mesmo diante das maiores adversidades.

Escritório é quase surreal em seu conceito e saber que é uma fita de Johnnie To empresta um sabor todo especial à esse musical chinês. Só não dá sair cantando as músicas, pois as letras são um pouquinho complicadas…

Escritório (Hua lI shang ban zou / Office, China/Hong Kong – 2015)
Direção: Johnnie To
Roteiro:  Sylvia Chang, Ka-Fai Wai (baseado em peça de Sylvia Chang)
Elenco: Chow Yun-fat, Sylvia Chang, Eason Chan, Tang Wei, Wang Ziyi, Lang Yueting, Cheung Siu-fai, Tien Hsin, Timmy Hung, Stephanie Che, Mickey Chu, Mimi Kung, Lo Hoi-pang
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.