Crítica | Esfera

estrelas 1,5

Obs: esta crítica contém possíveis spoilers.

Após o sucesso de Jurassic Park, filme baseado no livro de Michael Crichton, as obras do autor entraram em evidência em Hollywood, culminando em vários longas baseados em suas histórias, como, por exemplo, Congo, além do roteiro de Twister, escrito por ele. Mas, o diretor Barry Levinson, que havia produzido Assédio Sexual, outro longa inspirado na obra de Crichton, decidiu dirigir uma ficção científica desenvolvida pelo escritor, resultando no lançamento de Esfera.

A obra conta sobre um grupo de especialistas formado por um psicólogo, um matemático, uma bioquímica e um astrofísico que são convocados pelo governo americano para analisarem uma espaçonave, que está a trezentos metros de profundidade no Oceano Pacífico. Mas ironicamente este grupo foi formado com base em um relatório bastante fantasioso elaborado pelo psicólogo, que apenas o redigiu para ajudar a pagar sua casa. Assim, este grupo, que nunca trabalhou junto, tem a tarefa de participar de uma missão ultra-secreta e se defronta com uma misteriosa esfera, que passa a influir nas suas vidas, despertando e tornando realidade seus maiores temores.

O roteiro, escrito por Michael Crichton, Kurt Wimmer e Paul Attanasio, tenta estabelecer em pouco tempo vários pilares da trama. Ou seja, em apenas 30 minutos de projeção, o filme apresenta ao público toda a equipe de contato da missão, a base ultrassecreta da marinha instalada no fundo do oceano pacífico, a nave supostamente extraterrestre que está ancorada no fundo do mar, para logo em seguida revelar que ela pertence a humanos do futuro e que dentro desta nave está a esfera, criando um ritmo caótico no longa. A pressa em desenvolver a história impede que o filme crie um ar de mistério no início, uma vez que, toda pergunta levantada na trama é logo respondida, tornando tudo muito fácil, impossibilitando que o público crie curiosidade.

Outro defeito dos roteiristas é a incapacidade em humanizar os protagonistas, resultando em diálogos que os tornam ainda mais distantes de quem assiste, como na cena onde Ted e Harry competem para ver quem possui mais PhDs. Além disso, os personagens parecem querer mostrar a todo momento o quanto são gênios, impossibilitando que o público crie empatia por eles. O roteiro ainda desenvolve de forma rasa seus personagens, apresentando no início um suposto romance passado entre Beth e Norman, mas em nenhum momento desenvolvendo-o.

Pior do que os erros apontados anteriormente, são as diversas lacunas presentes na trama, necessitando de muita boa vontade de quem assiste para ignorar certos fatos, como, por exemplo, se os monitores refletiam o subconsciente de quem entrou na esfera, porque somente Harry se comunicava pelos aparelhos? Ou ainda, se a esfera dava poder ilimitado a quem entrou nela, e eles sabiam disso, porque simplesmente não imaginaram um veículo aquático para sair dali? Aliado a isso, é incrível constatar a falta de criatividade do filme em retratar a mente dos personagens, sendo decepcionante assistir pessoas com o poder de tornar real tudo o que seu subconsciente imagina e teme pensarem apenas em feras aquáticas, como medusas e lulas gigantes, limitando demais o poder da mente humana.                        

Já tecnicamente o filme é eficiente, a direção de arte apresenta a base submarina com realismo e os efeitos digitais constroem a esfera de forma magnetizante, atraindo a atenção do público. Porém, ao mesmo tempo que funciona, a parte técnica da obra não apresenta nada de impressionante, algo fundamental para uma ficção científica, aliás, é frustante como a obra cria expectativa sobre a lula gigante vinda dos sonhos de Harry, mas nunca mostra o monstro, apenas sugere sua presença ali, adicionando pouco impacto na cena onde a fera ataca.

A direção de Levinson utiliza vários planos fechados, close-ups e close-ups extremos, adicionando tensão e aumentando sensação de claustrofobia, estratégia inteligente, uma vez que, os protagonistas estão presos no fundo do mar. Além disso, o diretor investe em alguns planos de grupo, tentando criar uma química entre a equipe de exploração, mas não consegue fazer milagre com o mal desenvolvimento do roteiro. Contudo, a direção de Levinson pode ser considerada sem audácia frente a um filme que tenta explorar o subconsciente humano.

O elenco também não está nem um pouco inspirado. Liev Schreiber faz de Ted o estereótipo do gênio prodígio e Peter Coyote tenta criar em Barnes uma espécie de tuff guy que em nenhum momento convence. Já no trio de protagonistas, apenas Dustin Hoffman possui um trabalho aceitável como Norman, mas Sharon Stone constrói uma Beth sem carisma algum aqui e Samuel L. Jackson mostra sua dificuldade em criar boas composições na mão de um diretor que não o dirija com eficiência, criando uma composição que oscila entre um Harry infantil e outro maléfico depois que entra na esfera, mas não convence como nenhum dos dois.

Por fim, o que pode ser realmente elogiado no filme são os últimos 5 minutos de projeção, onde, apesar de ser absurdo os personagens usarem seus poderes para esquecer tudo o que aconteceu, traz uma mensagem interessante sobre como a humanidade ainda é primitiva e ainda não está pronta para ter contato com seres ou tecnologias superiores. Porém, por melhor que fosse o final, nada salvaria o filme de seu ritmo completamente instável criado, apressado e sonolento durante alguns momentos.

Após ter vencido o Oscar de melhor diretor por Rain Man e possuindo uma filmografia com bons filmes, é constrangedor que Barry Levinson seja tão incompetente aqui, construindo uma obra que não funciona em nada que se propõe, ineficiente tanto como entretenimento, quanto como ficção científica. Talvez por isso, o diretor não tenha mais tentado se aventurar no gênero.

Esfera (Sphere) – EUA, 1998
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Michael Crichton, Kurt Wimmer, Paul Attanasio
Elenco: Dustin Hoffman, Sharon Stone, Samuel L. Jackson, Peter Coyote, Liev Schreiber, Queen Latifah, Marga Gómez
Duração: 135 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.