Crítica | Espírito de Lobo (2015)

estrelas 3,5

Se todo animal tem instinto, o ser humano é racional, em maior ou menor grau, com uma capacidade única de memória e de associação entre pensamento e sentimento. O instinto, porém, continua lá apesar da razão.

Além disso, com memória e sentimentos mantemos nossa crença, envolvemo-nos pouco ou muito em certa cultura, construímos cada qual um jeito de ver o mundo. Com a diferença, surgem os pontos de vista e onde o sentimento, a crença, o olhar alheio falam, questiona-se: quem é selvagem ou civilizado?

Essa é a questão que perpassa Espírito de Lobo a quase todo instante. Veja bem, a questão condutora de uma narrativa, ou mesmo a ilusão de uma pergunta inexistente, é o seu pilar-mor, sua base, e pode contar com extensões, engrenagens que trabalhem nuances, desenvolvam aspectos específicos a partir do comando central. No caso deste longa, que tem China e França envolvidas na produção e leva a assinatura de Jean-Jacques Annaud na direção e no roteiro, contudo, o maior problema é, de fato, o demasiado foco em um mesmo ponto.

A trama se passa durante a Revolução Cultural Chinesa. O ano é 1967 e o jovem estudante chinês Chen Zhen (Shaofeng Feng) é enviado para conviver com nômades no interior da Mongólia. Lá chegando e se inteirando com a cultura local, ao mesmo tempo que também busca transmitir um pouco do seu conhecimento, não tarda a se deparar com uma matilha de lobos e quase sofre um ataque fatal. Impressionado com a experiência, passa a desenvolver uma obseção pelos uivantes, ao mesmo tempo respeitados e temidos pelo povo local. Paralelamente, a princípio, o progresso do mundo civilizado avança e quando uma chacina às crias dos lobos é ordenada, não sem objeção do líder local, a resposta dos bichos afligidos é feroz.

Logo fica evidente que Zhen representa a ponte entre os lobos e os nômades quando o rapaz começa a criar escondido um filhote dos primeiros. O lado emocional, nesse sentido, funciona bem, sim, até certo ponto – destaque para a sequência envolvendo o encontro do filhote pelo protagonista -, mas o foco praticamente ininterrupto na relação homem-lobo quase não deixa espaço para uma melhor contextualização e interiorização dos personagens, ou mesmo dos próprios lobos, que poderiam ganhar mais cenas de seus pontos de vista – produções como o incompreendido Cavalo de Guerra é que o digam. Por causa disso, o viés dramático em muitos momentos parece um tanto exagerado, forçado, afinal mesmo o melodrama pode ser efetivo quando consegue nos convencer da intensidade dos sentimentos envolvidos – e esse é o ponto: se em Cavalo de Guerra, por exemplo, o melodrama existe, a diferença é que lá ele funciona bem demais.

Fora esses problemas e um progressista um tanto caricato, no entanto, Espírito de Lobo tem muitas qualidades. A trilha sonora certamente é uma delas. Imponente, melodiosa e orquestrada, com canções típicas de produções épicas, seria fácil escorregar e se expor em demasia, em momentos desnecessários, mas tanto não o faz como dialoga brilhantemente com situações episódicas da narrativa, por vezes lembrando o estilo instrumental de certos animes. Além disso, o conflito entre natureza e razão, apesar de tanta insistência, tem bons momentos, como quando um dito “escravo” se impõe sobre seu dono ou quando a revolta local com os ataques dos lobos chega ao seu ápice.

Com outros belos trechos, como a troca de uivos da matilha – que, diga-se de passagem, não podia faltar -, e ganhando sequências de caçada empolgantes e até angustiantes, Espírito de Lobo fica na ponta dos pés, mas não decola. Baseada em um best-seller homônimo autobiográfico, a adaptação apenas carece de sentimento em seu jogo entre emoção, instinto e razão.

Espírito de Lobo (Le dernier loup / Wolf Totem), China, França – 2015
Direção: Jean-Jacques Annaud
Roteiro: Jean-Jacques Annaud, John Collee, Alain Godard, Lu Wei, Jiang Rong (baseado em livro de mesmo nome)
Elenco: Shaofeng Feng, Shawn Dou, Ankhnyam Ragchaa, Yin Zhusheng, Ba Sen Zha Bu, Baoyingexige
Duração: 121 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.