Crítica | Esquadrão Suicida

suicidesquad-esquadrao-suicida-plano-critico

estrelas 3

Obs: Não contém spoilers. Leia a crítica com spoilers, aqui.

A Warner Bros viu o tiro de sua ambiciosa adaptação dos quadrinhos da DC sair pela culatra no polêmico e inesperadamente divisivo Batman vs Superman: A Origem da Justiça, que rendeu muito menos do que os fãs e críticos esperavam do primeiro encontro entre os maiores heróis da história. A segunda chance de acertar em cheio viria alguns meses depois, com a estreia de Esquadrão Suicida, filme de David Ayer que prometia ousar ao apostar no protagonismo de vilões e, ainda por cima, contava com muito menos responsabilidades em termos de construir um universo cinematográfico. Infelizmente, é mais um resultado torto.

A trama se ambienta no mundo pós-BvS e ainda abalado pela morte do Superman, o que leva a agente do governo Amanda Waller (Viola Davis) a apresentar um radical projeto para segurança nacional: construir uma equipe formada por alguns dos sujeitos mais desprezíveis e vilanescos do qual se tem ciência, de usar suas habilidades para fins pessoais e combater um perigoso e misterioso inimigo que repentinamente é libertado.

Então o roteiro de Ayer parte para selecionar alguns dos mais interessantes e fascinantes vilões da DC Comics, setor no qual a editora se sai muito bem. Temos o Pistoleiro de Will Smith, a Arlequina de Margot Robbie, o Diablo de Jay Hernandez, o Capitão Bumerangue de Jai Courtney, o Crocodilo de Adewale Akinnuoye-Agbaje, o Amarra de Adam Beach e a Magia de Cara Delevingne. Adicione à mistura o militar Rick Flag de Joel Kinnaman e a segurança Katana de Karen Fukuhara e temos aí a primeira formação da Força-Tarefa X. Todos são personagens interessantíssimos e que surgem muito bem representados por seus respectivos intérpretes, com a atenção convergida para os arcos de Smith e Robbie, claro, mas todos rendem ótimos momentos quando lhe têm atenção fornecida.

Smith está lá com seu carisma habitual e domina a maioria das cenas, com o Pistoleiro recebendo uma backstory emotiva e que envolve a presença de sua filha. Isso acaba em transformar Smith em algo mais próximo de um anti-herói do que de um vilão, mas a performance irônica do ator favorece a situação. Acerto garantido desde a notícia do casting, Margot Robbie brilha e explode de carisma na pele da Arlequina, rendendo um retrato divertido e que constantemente rouba a cena – mas os produtores exageram ao trazer a personagem tempo demais. Jai Courtney é um ator conhecido por arruinar potenciais filmes bons com seu talento limitado, mas temos uma performance surpreendentemente engraçada como Bumerangue, favorecido pelo sotaque australiano carregado. Jay Hernandez oferece um bom peso dramático a seu Diablo (principalmente pelo medo deste em usar suas habilidades incendiantes) e Adewale Akinnuoye-Agbaje surge bem ameaçador sob a excelente maquiagem do Crocodilo, mas é mesmo Viola Davis quem se revela a mais durona de toda a projeção.

O problema do filme é que ele parece incapaz de dar a essas figuras maravilhosas algo a fazer. A tal ameaça que forma a união desses vilões é fraquíssima e embaraçosamente ruim, seja pelo visual tosco ou a reviravolta sem graça que envolve um dos membros do Esquadrão. O longa passa boa metade de seus ligeiros 120 minutos no desenrolar dessa missão, que se revela repetitiva e sem gás para sustentar a duração; imagine se Mad Max: Estrada da Fúria não tivesse todas aquelas cenas de ação incríveis e a fotografia estonteante que prendia nossa atenção. É quase isso. O roteiro de Ayer não elabora bem uma ameaça convincente e falha ao explorar com eficiência as relações entre os personagens, tendo como uma das raras exceções uma divertidinha cena em um bar. É até irônico que eu tenha defendido a campanha de marketing por esconder seu antagonista e boa parte da trama. A triste verdade é que não havia muito de história ali mesmo.

Visualmente, Ayer não se revela muito imaginativo. Sua decupagem não se arrisca e a fotografia de Roman Vasyanov não extrai muitas paletas de cor variadas de seus indivíduos coloridos, podendo dividir-se entre escura e cinzenta para as cenas na cidade de Midway City e alaranjada para as externas diurnas, vide o acampamento dos militares. O diretor falha também ao oferecer cenas de ação que não empolgam, justamente por trazerem pouco de novo, e a total ausência de tensão: os eventos vão acontecendo e nunca temos a  criação de uma atmosfera palpável, tendo um mero vislumbre disso no primeiro contato do Esquadrão com os misteriosos inimigos do antagonista – aí sim temos um certo medo de como a situação se desenrola, mas dura pouco. Raios, nem mesmo o Coringa de Jared Leto ganha uma introdução à altura do personagem, sendo reduzido a uma apresentação que o coloca no canto da tela como se fosse um personagem qualquer.

E por falar nele, como ficou esse Coringa? Obviamente todos já viram as imagens e os trailers que trazem um Palhaço do Crime tatuado e com postura de chefão do crime. É uma releitura muito interessante do personagem e Leto se sai muito bem ao abraçar um lado afetado e espalhafatoso do personagem (sempre gemendo e abrindo a boca para revelar seus dentes prateados), mas, infelizmente, o roteiro não colabora para justificar sua inserção na trama. O Coringa simplesmente está ali, com a montagem problemática de John Gilroy inserindo sua subtrama de forma desconexa e sem grandes ligações com a narrativa principal. Confesso que estou muito curioso para mais material do personagem, assim como uma inevitável interação com o Batman de Ben Affleck – que, sim, está no filme.

Ritmo é outro problema. Não só o segundo ato torna-se arrastado por apostar nessa missão simplória e sem grandes reviravoltas, como o primeiro ato do filme é um experimento estranho onde somos apresentados aos personagens através de uma série de flashbacks apressados e que desperdiçam potenciais linhas narrativas para saltar direto à ação; a origem da Arlequina é o maior exemplo disso, rendendo uma sequência mal montada e que não explora bem a relação bizarra entre ela e o Coringa, que rende ainda uma pavorosa sequência musical que parece ter saído de um videoclipe da Madonna.

Como fã roxo da DC Comics, é mais uma triste decepção ver Esquadrão Suicida ter seu gigantesco potencial e seus excelentes personagens desperdiçados em um roteiro sem graça e movido pela direção pouco inspirada de David Ayer. É um futuro nebuloso para o universo cinematográfico da DC, e eu só espero que em algum momento o material apresentado aqui ganhe um tratamento digno.

Esquadrão Suicida (Suicide Squad, EUA – 2016)

Direção: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Viola Davis, Joel Kinnaman, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Cara Delevingne, Karen Fukuhara, Adam Beach, Ben Affleck
Duração: 130 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.