Crítica | Esta é a Sua Morte – O Show

Em A Sociedade do Espetáculo, o francês Guy Debord trata a cultura do espetáculo como um agente de manipulação social e uma coletividade conformista, comparando-o, inclusive, à Guerra do Ópio, momento histórico que tem o objetivo de embriagar os atores sociais e fazer com que eles se identifiquem com as mercadorias que estão sendo oferecidas, e, consequentemente as consumam. Para o autor, a teatralidade havia tomado conta da sociedade, assim como as relações entre as pessoas. Nada mais era autêntico e os seres humanos começaram a viver das aparências, sempre a seguir os modelos ditados pela indústria cultural.

Ao promover uma tensão entre as ideias contidas no livro e as reflexões que ao longo do tempo reduziram o termo a uma mera descrição de uma sociedade repleta de imagens midiáticas, esfera em que os meios de comunicação são apontados como o eixo central da organização dos processos que engendram as relações sociais, econômicas, políticas e culturais, é possível observar que há pontos convergentes e outros que já não se sustentam mais.

A supremacia do emissor sobre o receptor e a cegueira oriunda da relação entre os leitores e espectadores em relação aos produtos midiáticos já foi colocado em xeque há décadas pelos estudiosos da cultura, afinal, o espectador alienado e passivo são deslizes já corrigidos pelos Estudos Culturais, uma corrente teórica que inseriu a ideia de um receptor mediado, ativo e capaz de filtrar os conteúdos provenientes dos meios de comunicação massiva.

Em Esta é a Sua Morte – O Show, os espectadores e internautas que dão audiência aos absurdos apresentados por um produto televisivo dominado por elementos macabros, na verdade, são bastante ativos e conscientes do material que é exposto. A grande questão é que não há nenhum dilema ético, tampouco preocupação social. As pessoas parecem mesmo não se importar mais, pois o que realmente vale a pena é o entretenimento para as suas vidas atribuladas. Para reforçar a questão basta observar a vida real: quantas vezes já enfrentamos congestionamentos absurdos em prol dos cinegrafistas amadores que atrasam a vida de todos, tendo em vista, filmar um pedacinho da miséria alheia para compartilhar no whatsapp?

A desgraça do “outro”, por sinal, é o tema central do filme em questão. Na narrativa a morte oriunda do suicídio ganha uma versão mais turbinada e frenética que as apresentadas pelas fitas de Hanna Baker. A morte como espetáculo já rendeu produções instigantes no cinema e na televisão. Black Mirror, Jogos Vorazes, Rede de Intrigas e O Abutre são alguns exemplos que podem ser citados, materiais dramatúrgicos que a dupla de roteiristas formada por Noah Pink e Kenny Yakkel provavelmente tiveram acesso para a elaboração do roteiro de Esta é a Sua Morte – O Show, dirigido por Giancarlo Esposito.

Em sua segunda incursão pelos meandros da direção, o famoso vilão de Breaking Bad traz para o público um angustiante, dinâmico e atordoante filme que funciona como uma espécie de sátira social aos caminhos que a sociedade do espetáculo contemporânea tem conduzido os seus produtos. Na trama, Adam Rogers (Josh Duhamel) é um apresentador de um reality show mais idiota que o Big Brother. No canastra produto televisivo, os realizadores arranjam uma noiva para um cara milionário.

O problema é que na final de uma das edições, há uma situação bastante insólita: uma das finalistas sente-se preterida e acerta o homem que não a escolheu com um tiro no peito. Antes de ceifar a vida da vencedora, a histérica que não soube aceitar o segundo lugar é impedida, haja vista a interrupção por parte do apresentador que logo se torna um herói nacional. Tudo é transmitido ao vivo pela televisão e os produtores concebem uma ideia absurda diante do sucesso que a situação desencadeou.

Diante da audiência promovida pela situação, Ilana (Famke Janssen), uma produtora que adora jornalismo sensacionalista, reúne-se com uma equipe para a organização de um programa de televisão macabro onde as pessoas inscritas cometem suicídio diante da plateia e das câmeras. Inicialmente reticente, o personagem propositalmente caricato de Josh Duhamel não se entrega à ideia, tendo dilemas éticos a gravitar em torno da sua consciência.

Não demora ao novo herói nacional se convencer de participar do programa absurdo e um espetáculo de sangue e horror se desenhar diante da tela. No palco, cenografia, trilha sonora e uma câmera amante do voyeurismo unem-se para contemplar a desgraça alheia ao público de casa. Os resultados da primeira edição mostram-se satisfatórios e a cada novo episódio o programa rende maior receita e publicidade. O problema é que diante de tantos absurdos, outros conflitos começam a se estabelecer e tudo perde o controle: candidatos que desistem de morrer podem ter sido assassinados nos bastidores, tudo em prol da audiência, além de uma subtrama que envolve a irmã do protagonista colocar a produção no seu “limite”.

Esta é a Sua Morte – O Show está longe de ser um filme perfeito. Há muitas subtramas e a maioria delas trafega pela obviedade. O eixo mais conciso é a trajetória de Mason Washington (o cineasta Esposito), patriarca de uma família que não consegue manter-se próspera. Ele vive de subempregos e não descola mais nenhum trabalho digno de sua competência. Acometido por conta dos problemas econômicos e estatais que transformam os seres humanos em máquinas escravas do sistema capitalista, o personagem é a representação perfeita da falência da classe média estadunidense, apodrecida também diante de suas escolhas, pois há trechos que nos mostram famílias inteiras reunidas diante da televisão na contemplação das mortes do tal programa televisivo.

Em sua crítica aos excessos do entretenimento, o filme apoia-se na linguagem televisiva em prol do estabelecimento da metalinguagem: fotografia, trilha e enquadramentos são organizados para parecer que estamos diante de uma produção televisiva. O público, como apontado, tornou-se apaixonado por assistir à degradação alheia na televisão. Sem deixar o espectador respirar por quase nenhum instante, as informações são processadas num ritmo frenético que dialoga bastante com os formatos abordados pelos meios de comunicação contemporâneos.

Injustamente chamado de Black Mirror genérico por alguns críticos, Esta é a Sua Morte – O Show é um filme que talvez precise de mais tempo para ser compreendido. Ao passo que cada instante dos 104 minutos de narrativa avança, a sensação é a mais aterrorizante possível, afinal, nossa sociedade aparenta caminhar para um epílogo muito mais trágico e alienante. Não tem a mesma classe que Rede de Intrigas, tampouco os maneirismos de O Abutre, mas ainda assim, é um filme que promove uma discussão bastante relevante.

O Show – Esta é a Sua Morte (This is Your Death) — EUA, 2017.
Direção: Giancarlo Esposito
Roteiro: Noah Pink, Kenny Yakkel
Elenco: Josh Duhamel, Giancarlo Esposito, Famke Jassen, Sarah Wayne Collies, James Franco, Chris Ellies, Beatrice King, Caitlin FitzGerald, Chelah Horsdal, Lucia Walters.
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.