Crítica | Estação do Diabo

É de se esperar que alguém diga que Estação do Diabo seja um filme redundante dentro da carreira de Lav Diaz. O cineasta filipino usa sua filmografia como maneira de entender a influência do fascismo sobre seu país, em especial a ditadura de Ferdinand Marcos e da Lei Marcial (cujas vítimas são homenageadas no letreiro final do seu último filme), que marcaram não só aquele momento da sociedade filipina, mas gerou um legado violento cujo interesse do diretor é enorme. Como visto em seus filmes mais cultuados como Norte, o Fim da História, essa selvageria cultural instiga o autor que procura por meio de estórias detalhar as raízes de tanta aspereza, e diante de Estação do Diabo, o público vê uma nova forma de Diaz trabalhar seu interesse por meio da tradição oral e do folclore.

A estrutura do filme é bastante simples: há os militares, os “monstros”, e o intelectual, vivido na figura de Hugo, poeta e ativista. Os oficiais convencem a população de que criaturas da floresta estariam os ameaçando, e então tomam o poder para eles. É um filme em que Diaz mais do que nunca associa figuras simbólicas à história e cria uma espécie de fábula ao pé da letra, conta a lenda de seu país de uma maneira reduzida, transformando-a em um conto “simples”, como fosse uma memória passada oralmente, onde há papéis muito bem delimitados dentro do simbolismo em jogo. Com pouco tempo de filme o espectador já reconhece O Sábio, O Herói, A Coruja, Os Militares, e cada função que esses personagens exercem dentro daquela realidade.

Formalmente, Diaz ergue esse tom fabular dentro de uma estrutura basicamente teatral, onde seus enquadramentos, jogos de luz e principalmente, canções, acrescentam à simplicidade da história. Sim, este é um musical de Lav Diaz, e embora a escolha pareça estranha, muito diz respeito sobre não apenas à maneira delirante que a história é contada mas também envolve o tratamento de lenda popular que o autor passa ao longo do filme. Todo diálogo ganha um peso muito maior já que é cantado, como se cada decisão tornasse-se hino de resistência, cada perda mais doída, cada encontro mais cênico. Se Lav Diaz é o grande contador de histórias político de nossa geração, Estação do Diabo é o mais próximo de um viés literário que o cineasta vem aproximando-se em sua carreira (vale lembrar que ele sempre teve interesse em adaptações bibliográficas). Tudo dentro daqui tem o mesmo tom épico e detalhista de sempre, são quatro horas pouco exaustivas de tão sábias que são as decisões do cineasta, mas Diaz para estrutura-se dentro de um mito popular para convergir em uma elegia anti-mito, que reconhece o valor alienador da tradição.

Por mais que Hugo, herói em certa medida, tenha noção do quão manipulado é o povo filipino, não há como libertar a maioria deste jogo arquitetado pelo poder. Próximo ao final do filme, um dos militares, interrogando-o, diz que sua poesia é muito boa, mas que é tolice acreditar que alguém ali fosse entender. Hugo, mesmo tendo a virtude do conhecimento, não é capaz de transmitir isso às massas, que se enganam diante do mito que foi construído a partir de lendas já conhecidas e que foram transformadas em ameaça pelos militares. O povo é mau por escolher preferir acreditar nos militares? De jeito algum, por isso talvez que a missão de Hugo tenha um gosto tão amargo no fim, pois vai ficando cada vez mais clara a impotência do protagonista, incapaz de reverter a situação naquele momento.

Estampando o pôster do filme, há a figura do Presidente Narciso, líder dos militares que pouco aparecesse no filme. Narciso tem duas faces, uma olhando para o passado e outra para o futuro. Diaz tem total noção de que Rodrigo Duterte, atual presidente das Filipinas, muito tem a ver com o ditador Ferdinand Marcos, que durante uma década impôs um regime militar que suspendeu os direitos civis filipinos, período trágico que já vinha sido retratado no cinema do diretor. Duterte no ano passado também instituiu a Lei Marcial sob Mindanao, maior ilha do país, e mesmo com todos os exemplos negativos do governo de Ferdinand, como os mesmo atos podem repetir-se? Afinal, Duterte foi eleito democraticamente pelo povo, isso seria culpa deles?

Narciso, presidente do país na história, tem olhos tanto para o passado quanto futuro do país, que por pouco diferem-se. O medo que o povo tem dos boatos que os militares espalharam é tanto que de certa forma já se tornou algo intrínseco a eles, uma verdade. Talvez Lav Diaz, dentro do contexto filipino, assuma o papel de Hugo, que mesmo tentando esclarecer a visão do seu povo com sua arte, não consegue reverter a situação demoníaca que o país passa (não é preciso dizer que a popularidade do cineasta dentro das Filipinas é quase zero). A estação do diabo, que tanto na ficção quanto na realidade o país passa, é uma condição que parecesse estática e muito longe de seu fim. Por isso mesmo entendo que Diaz possa ser reiterativo dentro de sua carreira, pois ele não desiste de tentar mudar.

Estação do Diabo (Ang panahon ng halimaw, Filipinas – 2018)
Direção: Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz
Elenco: Piolo Pascual, Shaina Magdayao, Bituin Escalante, Pinky Amador, Bart Guingona, Hazel Orencio, Joel Saracho e Angel Aquino
Duração: 234 min

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.