Crítica | Estômago

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estrelas 5,0

Caro leitor, permita-me, antes de entrarmos na crítica em si, falar sobre Estômago com um toque de pessoalidade. Poucos foram os filmes brasileiros que me marcaram tanto quanto esse de Marcos Jorge, lembro-me que, pouco após seu lançamento, assisti junto de amigos e imediatamente fomos cativados pela obra, a tal ponto que fizemos um macarrão à putanesca (puta vesga?) poucos dias depois e, é claro, adotamos muitas das falas do longa-metragem como “internas” – porra, Nonato!”, “é italiano, é chique pra caralho”, “É putanesca!!!” foram algumas das que inseríamos sempre que cabia em determinada situação. Digo isso para, desde já, ilustrar, tornar claro, que Estômago é um filme que dialoga com o espectador de tal forma que sentimos como se conhecêssemos Nonato de longa data.

Trata-se de um filme que conversa com a alma do brasileiro, aquele que frequenta o botequim para tomar aquela cerveja gelada, que quando está morrendo de fome para na lanchonete mais próxima e compra um salgado que, no momento, parece a comida mais deliciosa do mundo, o brasileiro que, desde cedo, é conquistado pelo estômago mais do que qualquer outra coisa. Temos aqui um Ratatouille sombrio, que dialoga com a realidade do trabalhador que, com o perdão da palavra, sem um “puto” necessita aceitar qualquer tipo de emprego e simplesmente se virar ali no meio.

Mas Raimundo Nonato (João Miguel) não é qualquer um, ele é um rapaz de talento, que veio do nordeste para São Paulo sem ter sequer onde morar e sem um real para comer. Evidente que ele não passaria fome e, na malandragem, misturada com uma dose de ingenuidade, ele acaba comendo duas coxinhas em um bar e, como não tem como pagar, começa a trabalhar ali, ganhando, inclusive, um quartinho nos fundos do estabelecimento para passar as noites. Porém, como dito antes, ele é um homem de talento, com um dom para a cozinha e acaba ganhando mais atenção ali no meio, inclusive da prostituta Iria (Fabiula Nascimento), por quem começa a se apaixonar.

Marcos Jorge poderia nos contar a história da ascensão de Raimundo como um conto de alguém que venceu na vida, superando suas origens humildes e se tornando um chef de cozinha. Mas a trama desconstrói isso logo de início, criando uma narrativa não linear que alterna entre o presente e passado do protagonista, que, agora, está na prisão. Desde já ficamos curiosos para saber o que levara Raimundo à cadeia, o que fizera dele o homem que quer ser chamado de Nonato Canivete porque só Nonato não é nome de presidiário, segundo ele próprio.

O que facilmente poderia se tornar uma trama fragmentada, nos tirando do foco mais interessante da obra e, portanto, prejudicando nossa imersão, funciona como um belo artifício para nos manter sempre atentos. Os eventos do passado do personagem principal dialogam constantemente com seu presente, testemunhamos seus aprendizados na cozinha e o vemos aplicando-os para os seus companheiros de cela, na base do improviso, claro. A narrativa se estabelece de forma tão orgânica e fluida que não conseguimos nos decidir qual pedaço dela estamos mais curiosos para ver o que irá acontecer, visto que são igualmente engajantes.

Muito espertamente, a montagem de Luca Alverdi utiliza dessas constantes trocas de foco para criar elipses dentro da história. Quando vamos para o presente e voltamos vemos um Nonato mais experiente, em um momento diferente de sua jornada. Com isso, o longa ganha uma agilidade digna de nota, não tropeçando em qualquer ocasião, conseguindo nos manter vidrados na tela. O roteiro sabiamente ainda coloca os momentos de maior tensão ocorrendo paralelamente em ambas as histórias, algo que pode ser visto claramente no clímax, que se utiliza de uma montagem paralela mais dinâmica para nos deixar ainda mais afoitos.

Caro que muito do mérito vai para João Miguel e Fabiula Nascimento, ambos nos conseguindo convencer a qualquer instante. Há uma assustadora sinceridade na forma como interpretam seus personagens, a tal ponto que conseguimos imaginar esses dois indivíduos existindo e se colocando nessas inacreditáveis situações.

O diretor, Marcos Jorge, é claro, não desperdiça suas oportunidades para criticar a nossa sociedade. Vemos claramente uma problematização da forma como os migrantes são tratados pelo local que os recebe. Podemos traçar um paralelo com os imigrantes italianos, que tiveram de trabalhar em troca de estadia, sem receber absolutamente nada, ou com os próprios trabalhadores de outros estados que buscam o sudeste na esperança de uma vida melhor e o que encontram são péssimas condições de trabalho e pessoas (não necessariamente no círculo profissional) que apenas se aproveitam delas. É importante ressaltar que Jorge ainda trabalha com a questão da ignorância ao trazer o choque de realidade entre dois mundos distintos: o do rico e do pobre, utilizando muito bem da comida para demonstrar a diferença entre esses universos.

Apesar de sua veia cômica, desde cedo sabemos que algo de muito errado irá acontecer em Estômago, algo anunciado pelas sequências noturnas, que basicamente tomam conta de toda a projeção. Claro que a presença de Nonato na cadeia deixa isso bem claro, mas toda a linguagem visual da obra visa criar em nós um nítido desconforto, que não nos permite relaxar em momento algum. A trilha também acompanha a imagem nesse quesito, se apoiando na linguagem de thrillers e filmes de terror para praticamente nos deixar sem ar nos momentos de maior tensão – isso, é claro, quando não insere suas doses de ironia quando traz coros para ilustrar o talento de Raimundo na cozinha.

Com um desfecho realmente chocante e verdadeiramente brilhante, Estômago é o tipo de filme que nos pega de surpresa e que pelo qual nos apaixonamos de imediato. É uma obra que certamente merece ser vista por qualquer brasileiro, por dialogar perfeitamente com a nossa sociedade e nos entregar um olhar visceral e perturbador sobre ela. Ao término da projeção, somos deixados estáticos, tentando processar tudo aquilo que vimos e, é claro, nos lembrando das ótimas falas que, certamente, merecem se tornar “internas” em círculos de amizade.

Estômago — Brasil/ Itália, 2007
Direção:
Marcos Jorge
Roteiro: Fabrizio Donvito, Marcos Jorge, Lusa Silvestre, Cláudia da Natividade
Elenco: João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana, Carlo Briani,  Zeca Cenovicz, Paulo Miklos, Jean Pierre Noher
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.