Crítica | Estrada Perdida

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estrelas 5,0

Extremamente controverso em seu lançamento, recebendo críticas igualmente negativas quanto positivas, Estrada Perdida, de David Lynch, foi aos poucos ganhando uma legião de apreciadores. Um retorno ao surrealismo que vemos em Eraserhead, a obra nos leva em uma jornada onírica que não deve ser simplesmente assistida e sim experimentada, vivenciada. É um filme que pede ao espectador que se entregue totalmente, como em uma viagem alucinatória sem um destino definido. Nesse ousado longa-metragem Lynch trabalha questões como a paranoia, o ciúmes e o gradual definhamento dos relacionamentos. Mais que isso, porém, é uma jornada que nos deixa tão loucos quanto seu protagonista, visto que somos levados em uma espiral de confusão que jamais se resolve.

Ao som de I’m Deranged, de David Bowie, entramos nessa projeção – em tela, uma rodovia sendo percorrida, enquanto os créditos iniciais  passam diante de nossos olhos. Imagens iniciais essas que muito bem simbolizam nosso caminho para outra realidade, a dos sonhos, comum a muitas das obras do diretor. A canção de Bowie já nos alerta sobre o que veremos, a história de Fred (Bill Pullman), que é preso após assassinar sua esposa, Renee (Patricia Arquette) e que, na prisão, misteriosamente se transforma em um jovem mecânico, Pete Dayton (Balthazar Getty) e passa a viver sua vida, até que alguns elementos estranhamente familiares começam a aparecer diante de seus olhos.

É bastante fácil entender o porquê de Estrada Perdida não ter sido bem recebido por alguns críticos – aqui temos uma narrativa que não se preocupa nem um pouco em responder as diversas questões do espectador, que dispensa a narrativa clássica em favor de um surrealismo que deve mais ser sentido que simplesmente assistido. Estamos falando de um filme sobre sentimentos – a paixão, o ódio, o medo e a preocupação de Lynch é justamente nos passar isso, deixando o “entender” em segundo ou terceiro plano. De fato, ele consegue, através de um excelente desenho de som, o diretor consegue transformar uma cena de sexo em algo extremamente perturbador, ou um corredor escuro na coisa mais aterrorizante do mundo, ao mesmo tempo que transmite sensualidade e tensão em um simples diálogo através unicamente de seus enquadramentos.

Não há como não se deixar envolver pela paleta de cores utilizada no filme, com o intenso vermelho presente em quase todos os planos, muito bem representando a paixão e desejo ao mesmo tempo que um alerta da violência que tais sentimentos podem causar. Ao lado desse rubro temos a predominância de cores neutras, que dialogam com a estranha passividade do protagonista diante de tudo aquilo, algo presente especialmente em suas roupas, sempre pretas ou em algum tom pastel, que também marca a maior parte do interior de sua casa.

O preto também ajuda a construir o tom noir presente no longa-metragem, que aparece em toda a evidência no segundo ato do filme, já com Pete em foco. Sua relação com Alice (vivida também por Patricia Arquette) segue uma estrutura similar, se não idêntica aos filmes do gênero e o roteiro de David Lynch e Barry Gifford opta por utilizar elipses a fim de nos levar direto para o momento de tensão, sem perder tempo. O fruto proibido, o vermelho da maça, toma conta da projeção e sabemos que, de fato, estamos diante de uma estrada perdida, que pode tanto representar o estado psíquico do protagonista (assim como o nosso próprio), quanto o caminho que ele decide trilhar, iniciando uma relação com a mulher do criminoso Eddy (Robert Loggia, que, infelizmente, nos deixara em 2015).

Lynch definitivamente não deixa barato para nós, não sabemos o que esperar ao certo de qualquer sequência, visto que, de uma hora para a outra, um tremor no som pode significar um ataque de loucura do protagonista. Inserts são colocados durante toda a projeção a fim de nos lembrar que há algo de errado ali, o que é ressaltado constantemente pela semelhança física entre Pullman e Getty – em diversos momentos acreditamos ver um, enquanto, na realidade, enxergamos o outro, uma constante brincadeira do diretor conosco, jamais nos deixando atingir aquele estado de passividade que assumimos ao assistir um filme qualquer. Naturalmente que a atuação do elenco principal desempenha um grande papel nessa construção, tornando nossa permanente dúvida maior. Nesse quesito, Arquette é quem mais chama a atenção, interpretando suas personagens de tal forma que não sabemos dizer se são a mesma pessoa ou não.

A inquietação do espectador é mais ainda intensificada pela trilha musical, que repentinamente insere faixas de rock pesado quando menos esperamos, gerando um profundo desconforto que, também, está diretamente ligado com o que é mostrado em tela. O diretor vai um passo além quando não esconde seus cortes bruscos e pula para o silêncio após tais melodias, como se pedisse para a audiência que não se acostume com o que está assistindo, que jamais esqueça que está diante de um filme. A viagem, porém, jamais é interrompida, visto que, a partir do momento que nos entregamos, ficamos tão perdidos quanto a estrada no título.

 Ame ou odeie é justamente isso que Estrada Perdida provoca naqueles que assistem o filme, um rebuliço de emoções e sensações que nos deixam aterrorizados, confusos, perdidos, apaixonados e incomodados. David Lynch compõe uma obra repleta de surrealismo que não pede o entendimento e sim a livre interpretação, temos aqui um longa que pode ser visto de diferentes formas e absorvido das mais variadas maneiras dependendo do espectador, uma jornada alucinatória que desafia a narrativa clássica e que se faz verdadeiramente memorável justamente por isso.

Estrada Perdida (Lost Highway) — França/ EUA, 1997
Direção:
David Lynch
Roteiro: David Lynch, Barry Gifford
Elenco: Bill Pullman, Patricia Arquette, John Roselius, Michael Massee, Robert Blake, Balthazar Getty,  Robert Loggia
Duração: 134 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.