Crítica | Estranha

estrelas 4

Um dos argumentos mais utilizados pelos conservadores homofóbicos para impedir o casamento ou a possibilidade de um casal gay ou lésbico de casar ou adotar um filho é o de como uma criança poderá crescer em um ambiente com dois pais ou duas mães.  Estranha, o primeiro longa-metragem da chilena Pepa San Martín, lida justamente com essa questão e como o preconceito pode ser utilizado para alterar profundamente a vida de crianças que, na realidade, contam com uma mente muito mais aberta que todos nós. Um filme sobre sexualidade e preconceito que atinge em cheio o conceito da família tradicional.

Uma câmera que acompanha a protagonista, Sara (Julia Lübbert) por trás nos introduz ao longa-metragem. Seu rosto custa a aparecer, tanto para ilustrar a forma como se enxerga – é uma menina entrando na adolescência que acabara de tirar o aparelho fixo, sua insegurança é notável – como para, desde já, revelar que uma parte de sua vida, infelizmente, ainda precisa ser deixada parcialmente escondida da maior parte da sociedade. A mãe de Sara, Paula (Mariana Loyola) após se separar do marido, passou a viver com sua parceira, Lia (Agustina Muñoz), algo que não agrada nem um pouco seu ex, pai de seus filhos, apesar dele, também, já estar em outro relacionamento.

Sob o olhar de Sara e sua irmã caçula, Catalina (Emilia Ossandon), é muito gratificante enxergar a maneira progressista que o roteiro trabalha toda a questão da homossexualidade. Há uma inocência na visão dessas jovens, especialmente da pequena Catalina, que chega a desenhar sua família composta por duas mães. De fato, o longa nos mostra que toda essa vivência é tão saudável quanto a de qualquer outra família – existem brigas, sim, mas que filho nunca briga com seus pais? A forma como Lia é retratada também é muito interessante, ela age como a peça mais estável da relação, visto que Paula é constantemente tirada do sério pelo ex-marido, que não cansa de provoca-la.

O estopim para a desestabilização desse ambiente é a adolescência da protagonista, que passa a ver na figura do pai uma válvula de escape para seus problemas em casa, frutos dos hormônios à flor da pele, evidentemente. Não há como não sentir raiva do pai das garotas, não por ele representar uma figura paterna e sim pela maneira como seu preconceito e ressentimento o faz agir de forma a prejudicar suas próprias filhas. Separação já está longe de ser algo fácil, é uma questão que altera profundamente toda a vida da criança que tem o infortúnio de estar no meio de toda essa situação – tudo se complica ainda mais quando a briga pela guarda é envolvida. Estranha trabalha com isso de forma a ilustrar como a homofobia pode afetar negativamente inúmeras vidas e não só a dos diretamente envolvidos.

O roteiro de Pepa San Martín e Alicia Scherson ainda espertamente foge do estereótipo de que filhas de casais homossexuais também seguirão pelo mesmo caminho. A sexualidade de Paula é deixada em aberto, ela se apaixona por um garoto da escola, mas, ao mesmo tempo, tem uma relação bastante íntima com sua melhor amiga, mostrando comoa mente da jovem está aberta, mas que ela ainda precisa se descobrir. Não é uma receita de bolo ou algo hereditário, vai de pessoa para pessoa e somente ela pode descobrir isso. O texto nos mostra exatamente isso, sem a necessidade de jogar em nossa cara as informações de forma didática.

Infelizmente, através de algumas pontuais repetições, o ritmo do longa-metragem sofre alguns baques em seu percurso. Nada, porém, que afete muito nossa percepção da obra, especialmente levando em conta o trabalho de todo o elenco, que verdadeiramente nos entrega personagens críveis, com emoções bem representadas, de forma que não conseguimos destacar apenas um dos membros da família, todos ajudam a compor essa pluralidade reconfortante de se ver.

Estranha, apesar de seus eventuais tropeços, consegue nos trazer um retrato bastante genuíno e tocante de problemáticas atuais de nossa sociedade. Com interpretações sólidas e um roteiro envolvente, temos aqui um filme que deveria ser mostrado a todos os que ainda acreditam que duas mulheres ou dois homens não são capazes de criar uma criança, a fim de que possam, enfim, entender como essa crença pode prejudicar famílias inteiras.

Estranha (Rara) – Chile/ Argentina, 2016
Direção:
 Pepa San Martín
Roteiro: Pepa San Martín, Alicia Scherson
Elenco: Julia Lübbert, Emilia Ossandon, Mariana Loyola, Agustina Muñoz, Coca Guazzini, Daniel Muñoz
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.