Crítica | Estranhos no Paraíso – Minissérie (1993 – 1994)

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O realismo que apresenta personagens vivendo as mais diversas situações cotidianas, colocando para fora as suas emoções e sendo apresentados em linhas de roteiro ou tramas virtualmente abertas (exatamente como na vida real) é chamado, em dramaturgia — e em abordagens literárias correlatas –, de slice of life. Fatia da vida. Nesse tipo de exposição, os personagens ganham destaque a partir das amenidades e banalidades do cotidiano elevadas a um nível emocional considerável. Alguns leitores e críticos tendem a classificar esse tipo de construção narrativa de “melodramática” (entre aspas, porque o uso, nesse caso, é no sentido puramente negativo), todavia, a gente sabe que existe uma outra forma de enxergar a coisa.

Se sairmos da visão ruim a respeito do que melodrama significa, podemos facilmente colocar essa aplicação em sua forma original e muito elogiosa para Estranhos no Paraíso, minissérie em três edições escrita, desenhada e editada por Terry Moore, originalmente publicada pela Antarctic Press, entre 1993 e 1994. Moore vinha tentando já há algum tempo emplacar uma tira de jornal que abordasse a vida de duas garotas — Francine Helena Peters-Silver e Katina “Katchoo” Choovanski –, duas amigas desde a época do Colégio… e um jovem (David Qin) que, em uma estranha situação, conhece uma delas. Depois de uma coleção de negativas, o autor resolveu levar adiante esse projeto, já que tantas ideias e tanto material pré-pronto ele havia criado a respeito. O que não significa que ele não tenha tido algumas surpresas pelo caminho. E algumas dessas surpresas a gente percebe claramente nessa minissérie, o primeiro passo de algo que se tornaria um fenômeno.

Em mais de uma ocasião Terry Moore disse que, a princípio, sua trama destacava Francine e tinha Katchoo como coadjuvante. Não demorou muito, porém, para que ele percebesse que a loira temperamental e anárquica era, na verdade, a linha condutora da história, sensação que ganhou uma outra camada quando do aparecimento de David, jovem, nerd, sensível, leal e de um coração e fofice enormes, que aparece na vida das duas amigas e cria um tipo de “equilíbrio” delicioso de se ver. No decorrer da história dessa minissérie — que daria origem a uma média, depois a uma longa série –, nós percebemos essa mudança e também a rapidamente superada dificuldade de elencar essa alteração de perspectiva, algo sentido mais fortemente quando Katchoo é presa e temos informações soltas, mas não suficientes, sobre sua vida passada.

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Oooooops!

O resultado da união de Francine, Katchoo e David — desde o começo, a ideia de triângulo amoroso brilha na mente do leitor, mesmo que não haja nenhuma real indicação disso — nos encanta de um modo que é difícil expressar. Aliás, o roteiro e a arte de Terry Moore adotam a simplicidade como norte e, a partir dela, alçam voos muito altos. Na imagem, os maiores detalhes são para espaços fortemente humanizados ou para delineação dramática de personalidades, como o quarto absurdamente bagunçado e sujo de Katchoo e o não tão arrumado quarto de Francine. No texto, a construção dos diálogos, o tipo de imposição, volume de voz (o letramento é outro grande destaque da minissérie), os quadros sem luz… tudo aparentemente muito simples, mas que juntos, formam algo que encanta e nos faz ver esses personagens como indivíduos que conhecemos na vida. A identificação é o grande trunfo do autor.

Começando em uma peça de teatro escolar que termina de maneira “trágica” — e de onde vem a frase “Sem amor, somos como estranhos no Paraíso” — e encerrando em uma reunião que celebra a superação de uma depressão, a minissérie Strangers in Paradise consegue, em apenas três edições, criar no leitor a máxima curiosidade pelo que vem a seguir. O desejo de seguir acompanhando esses incríveis e plurais personagens pela vida, como se fossem nossos amigos. Um começo de saga impossível de se ignorar.

The Collected Strangers in Paradise — EUA, 1993 – 1994
Contendo: Strangers in Paradise Vol.1 #1 a 3
No Brasil: Editora Abril (1998) e Pandora Books (2003)
Editora original: Antarctic Press
Roteiro: Terry Moore
Arte: Terry Moore
Capas: Terry Moore
36 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.