Crítica | Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo-plano-critico

estrelas 3,5

Estrelas Além do Tempo é baseado na obra de Margot Lee Shetterly, lançada em 2016, e aborda a jornada de algumas afro-americanas que trabalharam em posições de destaque na NASA, no início da década de 1960. Com co-produção de Pharrell Williams, o filme assume o seu lado parcialmente romanceado logo de início. Uma breve pesquisa sobre as três mulheres que a obra destaca deixa bem claro o que se quis dizer com “baseado em eventos reais“, mas todas as mudanças e trocas de acontecimentos foram feitas a favor do enredo, que tem o mérito de construir bem as personagens, mesmo com as intervenções pouco orgânicas fora do ambiente de trabalho das mulheres.

É impossível não identificar de imediato o trabalho visual da fotógrafa Mandy Walker na criação de atmosferas. Ela adota uma paleta de cinzas e branco para a maior parte dos setores da NASA e duas outras linhas fotográficas para interiores. A primeira, marcada por tons de marrom com pontuais contrastes nos figurinos ou objetos do cenário, que podemos ver no escritório das “garotas de cálculo” e no escritório de Kevin Costner. A segunda continua com essa tendência para tons térreos, só que com maior presença de verde e nuances em vermelho para os lares das três protagonistas.

Após uma breve introdução na infância de Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson em uma delicada interpretação, merecendo muitíssimo mais a indicação ao Oscar de Melhor Coadjuvante do que Octavia Spencer) — um momento infantil que fica perdido diante do foco do filme em três mulheres, tornando os primeiros passos matemáticos de Katherine deslocados –, o longa nos mostra o trio de protagonistas indo para o trabalho. O problema com o carro serve de cômica e firme introdução à personalidade de cada uma: a desafiadora Mary (Janelle Monáe, que também em 2016 atuou em Moonlight: Sob a Luz do Luar), a controladora e protetora Dorothy (Octavia Spencer, em boa interpretação, mas nada que justifique sua indicação ao Oscar na mesma categoria que a fez levar o prêmio por Histórias Cruzadas, em 2012) e a já citada Katherine.

Enquanto drama com um tópico de “vencedores oprimidos”, o roteiro de Estrelas Além do Tempo consegue prender o público. O tema do racismo é trabalhado com intensidade e se revela em diversas camadas, o que acaba sendo um diferencial, já que nem toda obra ambientada na década de 60 nos Estados Unidos traz essa visão de várias formas de segregação. Em alguns momentos, porém, esse problema social é encaixado rapidamente na história, como o protesto na rua ou as cenas de violência contra negros que o esposo de Mary assiste, juntamente com os filhos. No todo, porém, o elemento de igualdade racial somado à questão da igualdade de gênero ganha força e compõe o principal obstáculo a ser vencido pelas protagonistas.

Pela simpatia das personagens e por suas pequenas vitórias obtidas mediante a um cenário social racista, é impossível para o público não se emocionar ou torcer para que essas mulheres sejam reconhecidas pelo seu trabalho. O caso principal está no embate entre Katherine e Paul Stafford (Jim Parsons, deslocado no papel), que durante todo o filme parece girar em círculos e, na cena final, como resultado da elipse mais desequilibrada da fita, parecem já se aceitar e respeitar como colegas de trabalho, ponto que não vimos amadurecer, apenas tivemos sugestões de que aconteceria.

Se ganha bastante durante seu desenvolvimento, o filme passa a sofrer no bloco final, um pouco por culpa da montagem, que não harmoniza a transição entre cenas de TV de época ou envelhecidas com as tomadas em sets; e um pouco por culpa da direção, que se repete desnecessariamente e não tem muita imaginação para mostrar as “reuniões finais” ou “momentos de vitória”, conformando-se com planos simples de Katherine e planos de conjunto para Mary e Dorothy. Não é algo necessariamente ruim, mas vindo de um desenvolvimento bom, é impossível não notar a diferença e ver como a reta final perde ritmo na montagem e no roteiro, juntamente com o rigor no estabelecimento dos planos.

Estrelas Além do Tempo tem uma boa escolha de trilha sonora (nem todas as canções são bem utilizadas na narrativa, mas continuam sendo boas canções), um elenco em geral equilibrado e uma poderosa mensagem. A exposição dessas figuras escondidas no mundo da tecnologia (ou em qualquer outra área do conhecimento) precisam mesmo chegar a conhecimento público, ajudar a compor o imaginário da sociedade do século XXI, trazendo cada vez mais a noção do quanto a segregação tirou da humanidade, impedindo-a de crescer mais rápido. A obra vem em uma safra que clama por este tipo de mensagem, pois acompanha brotos de sementes sombrias da História. Mais uma vez, o tempo presente serve como motivação ou mesmo direção de olhar para obras cinematográficas, como esta que temos aqui.

Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) — EUA, 2016
Direção: Theodore Melfi
Roteiro: Allison Schroeder, Theodore Melfi (baseado na obra de Margot Lee Shetterly)
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Mahershala Ali, Aldis Hodge, Glen Powell, Kimberly Quinn, Olek Krupa, Kurt Krause, Ken Strunk, Lidya Jewett, Donna Biscoe
Duração: 127 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.