Crítica | Estúdio Ghibli, Reino de Sonhos e Loucura

estrelas 4,5

Documentários que permitem que cinéfilos olhem em detalhes para o processo de criação de uma obra cinematográfica são raros, mas sempre muito bem vindos. Quando o objeto do documentário é ninguém menos do que um dos maiores nomes da animação mundial – quiçá o maior ainda vivo – então ele se torna algo obrigatório, essencial mesmo para qualquer um que se auto-proclame amante do Cinema.

Estúdio Ghibli, Reino de Sonhos e Loucura, como o nome deixa muito claro, nos dá uma visão de bastidores do estúdio japonês Ghibli, fundado, dentre outros, por Hayao Miyazaki, gênio que nos trouxe obras imortais de animação tradicional como Nausicaa – A Princesa do Vale dos Ventos, Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke e, recentemente, Vidas ao Vento e isso só para falar de um punhado exemplificativo. E, compreensivelmente, é Miyazaki a estrela e o foco do documentário, ainda que Mami Sunada tenha sido capaz, pelo menos por boa parte de sua obra, de salientar a importância do produtor Toshio Suzuki nesse processo.

Sem muita rigidez, o documentário pode ser dividido em duas partes. Na primeira, a diretora faz uma espécie de plano geral de todo o processo de produção, no caso um processo duplo, pois, quando o filme estava sendo feito, o estúdio estava às voltas com Vidas ao Vento de Miyazaki e com O Conto da Princesa Kaguya, pelas mãos de outra lenda da animação mundial, Isao Takahata (diretor do fenomenal Túmulo dos Vagalumes). Mas não se animem aqueles que acham que verão o processo criativo de Takahata, pois isso não acontece, com ele sendo muito mencionado, mas aparecendo mesmo apenas no final.

A dupla produção faz com que Sunada mergulhe na mecânica desse trabalho, completamente ao encargo de Suzuki, que tem que não só controlar dois gênios em meio às suas respectivas criações, como se preocupar com prazos, vendas das obras, novos produtos licenciados, coletivas de imprensa e todo o mais. Aprendemos que, enquanto Miyazaki é organizado, normalmente trabalha dentro do orçamento e dos prazos, Takahata – que trabalha em outra unidade do estúdio que nunca vemos – é desorganizado, lento e indeciso. Mas esse contraste acaba dando contornos de “ficção” ao documentário, acrescentando uma leve camada de suspense que só favorece o resultado final.

Mas é a segunda parte do documentário – que, vale lembrar mais uma vez, não é dividido dessa forma cartesiana que utilizo para a crítica, sendo bem mais fluido e bem construído – que realmente chama a atenção, pois há foco exclusivo em Miyazaki, com detalhes de sua rotina de trabalho (das 11h às 21h absolutamente todo dia, incluindo sábados e feriados, só deixando os domingos de fora) que, em um primeiro longo momento de dois anos, do qual vemos apenas o final, ele efetivamente prepara os storyboards de Vidas ao Vento. Quem conhece o mínimo de Miyazaki não estranhará, mas quem nunca procurou saber mais sobre esse diretor certamente ficará surpreso pelo fato de ele não trabalhar a partir de um roteiro. Ele cria seu filme e seus diálogos durante o processo de desenho dos storyboards que ele faz, de próprio punho – nada de computadores! – do começo ao fim, somente para então passar o trabalho adiante para a equipe de animadores que seguem seu traço sob sua batuta detalhista e sempre em movimento, pois ele altera a todo o tempo detalhes da história.

Há um evidente tom reverencial por toda a obra de Sunada, mas isso é algo esperado. Ela não esconde sua admiração logo no começo quando entra no estúdio pela primeira vez em 2012. É como entrar em um templo e realmente faz muito sentido: por mais que Miyazaki tenha seus problemas e suas obsessões, o objetivo mais amplo é falar sobre o estúdio através do homem e não criticar o homem. Mas o próprio Miyazaki cuida para que Sunada tenha ao menos um vislumbre de seu lado menos magnânimo, quando ele por exemplo comenta sobre seu passado – e presente – com o colega/concorrente Takahata e também do próprio trabalho com Suzuki.

No final das contas, Estúdio Ghibli, Reino de Sonhos e Loucura é o mais próximo que seres humanos normais chegarão desse grande homem e desse grande estúdio. O documentário de Sunada faz jus a toda a aura mitológica que Miyazaki adquiriu ao longo das décadas e assombrará mesmo os cinéfilos mais cínicos.

Estúdio Ghibli, Reino de Sonhos e Loucura (Yume to kyôki no ohkoku, Japão – 2013)
Direção: Mami Sunada
Com: Hayao Miyazaki, Toshio Suzuki, Isao Takahata, Hideaki Anno
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.