Crítica | Eu Ainda Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado

estrelas 2

Ao esboçar o texto sobre este filme, busquei ao máximo fugir da obviedade que se tornou a perseguição aos filmes de terror e as suas continuações. Vivemos na lógica do capitalismo, sendo assim, o direcionamento mais pertinente na indústria do cinema é o lucro. Engana-se quem pensa que até mesmo o cineasta que produz os chamados “filmes de arte” é apenas um ser diletante, sem interesse em ter retorno financeiro para as suas produções. Bobagem, em linhas gerais, a mais pura ingenuidade.

Desde o lançamento do primeiro filme, que rendeu seis vezes mais o que custou em 1997, não era preciso ser crítico ou especialista em linguagem e história cinematográfica para saber que os produtores iriam arranjar alguma forma de apresentar uma sequência ao público. O problema é que nem todos tinham capacidade de Wes Craven em produzir continuações. Se Pânico 2 consegue ser ainda melhor que o seu primeiro filme, Eu Ainda Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado segue o caminho contrário, pois para tentar impressionar, recorre à todos os clichês possíveis do gênero, o que não é um problema, se fosse bem estruturado e plausível.

No final do primeiro filme, o roteiro segue à risca um dos tópicos da cartilha do terror: se você não viu o corpo do algoz, significa que ele ainda pode estar vivo. Um ano após os terríveis acontecimentos que ceifaram a vida de seus amigos Helen e Barry, Julie (Jennifer Love Hewit) muda-se para Boston e volta para a faculdade. A relação com Ray (Freddie Prinze Jr) está por um fio, pois a distância esfriou os sentimentos.

Como era de se esperar, a produção não iria apenas dedicar todo o roteiro na perseguição do casal por parte de um suposto morto-vivo. É aí que entra a amiga Karla (a cantora Brandy), uma corajosa companheira de quarto. Há ainda o namorado da nova amiga e um sorridente rapaz que insiste em paquerar Julie. Certo dia as moças recebem uma ligação. É de um apresentador de programa de rádio local. Se elas acertarem uma pergunta, ganham passagens para um final de semana (chuvoso) nas Bahamas. A pergunta é sobre geografia: qual a capital do Brasil?

Após alguns segundos para pensar, elas respondem que é o Rio de Janeiro, o que causa uma inquietação inicial, mas que se explica ao longo do filme. O programa era uma cilada para levar Julie ao encontro com o pescador vingativo. Excêntrico, não? Pois este é o mote do filme. Toda uma parafernália narrativa que não convence nem os espectadores mais despreocupados com o desenvolvimento de um roteiro de cinema.

Apelativa, esta continuação aposta na violência dos assassinatos e em desculpas absurdas e insustentáveis para condução do roteiro, uma colcha de retalhos mal conduzida pela direção de Danny Cannon, inexpressiva diante do material ruim que recebera para guiar. O roteiro de Trey Callaway demonstra que ele entende de filmes de terror, mas fica preso apenas à histeria e as perseguições que parecem não ter fim. Como não há muito que contar, a única escolha era aumentar a lista de corpos. Há até alguns momentos interessantes, como a irônica canção I Will Survive, cantada por Julie num caraoquê, mas nada mais que isso.

Com filmagens no México e na Califórnia, a produção foi um sucesso de bilheteria, mas fracasso total de crítica. Ao longo dos seus 101 minutos de duração, Eu Ainda Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado é enérgico e eficiente como filme de ação, principalmente do meio para o final, mas os furos e a fragilidade do roteiro não deixam qualquer fagulha que nos faça aceitar a produção como algo interessante, principalmente por conta do seu final que deixa a entender uma continuação. Se esse não tinha o que contar, imagina uma próxima investida no pescador vingativo? De fato houve um absurdo Eu Sempre Saberei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, mas o filme não segue os dois primeiros e possui como ligação apenas o título oportunista.

Eu Ainda Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Still Know What You Did Last Summer, Estados Unidos – 1998)
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Trey Callaway
Elenco: Jennifer Love Hewit, Freddie Prinze Jr., Brandy, Jennifer Esposito, Mekhi Phifer, Bill Cobbs, Mathew Settle.
Duração: 101 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.