Crítica | Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída

estrelas 4

Não há período mais conturbado na vida de uma pessoa do que a adolescência. Além da época exigir decisões importantes, como a profissão a ser seguida, é nessa faixa etária que estamos emocionalmente mais vulneráveis, ou seja, qualquer experiência mais emblemática atinge-nos com uma força desproporcional. Devido a essas dificuldades, alguns jovens utilizam determinados recursos para aliviar seus dramas, sejam coisas leves, como a música e amizades, ou mais pesadas, como as drogas.

Dentre os milhares de jovens que já passaram pelo turbilhão de emoções que é a adolescência, Christiane F. chamou a atenção da sociedade alemã, em 1978, ao publicar suas memórias em um livro autobiográfico. Não muito tempo depois, o cineasta Uli Edel decidiu adaptar a história da garota, uma vez que o livro tornou-se um best-seller, gerando o longa Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída.

O filme mostra Christiane F. (Natja Brunckhorst) como uma jovem comum que mora com a mãe e a irmã caçula. Ela sonha em conhecer a “Sound”, discoteca mais moderna e badalada do momento. Menor de idade, ela consegue entrar com a ajuda de uma amiga, conhece Detlev (Thomas Haustein) e começa a se aproximar das drogas.

O diretor Uli Edel utiliza a história de Christiane F. justamente para retratar uma geração de adolescentes que teve na rebeldia o escape para a monotonia da vida. No filme, embalados ao som de David Bowie, os jovens utilizam a música, a amizade e as drogas para terem seus momentos de descarrego. Portanto, logo no início, o diretor Uli Edel mostra como funciona a mente de Christiane F., uma dessas adolescentes e protagonista do filme, mostrando-na correndo por um corredor escuro e vazio, enquanto ela diz, em off, ‘‘a podridão está em toda parte, é só dar uma olhada’’, ressaltando como a garota vê o mundo de maneira melancólica.

Além disso, o roteiro, escrito por Herman Weigel, Kai Hermann, Horst Rieck, é preciso em destacar como cada evento na vida de Christiane F. levou a outro, como se fosse uma espécie de bola de neve que começa pequena e inofensiva, mas pode tornar-se incontrolável, caso jogada montanha abaixo. Portanto, perceba que a garota, mesmo bebendo bebidas alcoólicas, é resistente, no início, com o uso de drogas, inclusive, aconselhando seu amigo a não utilizá-las, contudo, quando a jovem tem sua primeira decepção amorosa, ela toma coragem para cheirar cocaína pela primeira vez. Ademais, levando a história um pouco mais adiante, o vício de Christiane em heroína também tem ligação com seu amor por Detlev, gerando, a seguinte fala do rapaz: ‘‘você precisa copiar tudo o que eu faço?’’, destacando como os jovens são uma espécie de esponja que absorve tudo a sua volta, fazendo o necessário para serem aceitos, e como o vício de Christiane, e de várias outras pessoas, funciona como alívio para suas carências

Aliás, o longa é sensível em não mostrar aqueles jovens como fúteis ou delinquentes, pelo contrário, a película destaca como pais muito rígidos, ou muito ausentes, resultam nas escapadas que os adolescentes buscam, estratégia que insere um maior peso emocional à história. No entanto, o filme em nenhum momento romantiza o uso das drogas, destacando-as como algo degradante, além de mostrar como o primeiro contato com elas pode surgir em situações das mais simples e de pessoas confiáveis. Portanto, é justamente esta discussão sobre drogas que a obra realiza com maestria, mostrando como um vício leva a outro e denunciando como a dependência incentiva os usuários a cometerem atos deploráveis, somente para conseguir comprá-las, como o roubo e a prostituição.

Como dito anteriormente, a degradação de Christiane é contada como uma espécie de bola de neve e o diretor Uli Edel é extremamente preciso em pontuar este arco. Se, no início, tínhamos tomadas em sua maioria noturnas, mas com um bom uso de cores, desde o neon das boates até as próprias roupas dos personagens, com o decorrer do longa, ele torna-se cada vez mais cinza e apagado. Aliás, a própria fisionomia dos personagens muda, indo da irreverência da juventude para a completa melancolia da dependência, algo destacado pelo bom trabalho de maquiagem. Além disso, o uso da trilha sonora mostra-se genial aqui, porque se tínhamos várias músicas do maravilhoso David Bowie, na primeira metade, destacando a rebeldia dos adolescentes, ouvimos apenas um pesado e repetitivo piano, na segunda parte, mostrando como a liberdade da adolescência foi substituída pela prisão do vício.

Até mesmo o tom da obra muda gradativamente. Enquanto o primeiro ato é vibrante, o terceiro mostra-se surpreendentemente perturbador, com destaque para uma das cenas de vômito mais nojentas que já vi, assim como várias outras que mostram como usar de agulhas das maneiras mais anti-higiênicas possíveis. Aliás, se todo este arco de degradação é bem construído, a atriz Natja Brunckhorst tem enormes méritos nisso, construindo com perfeição as mudanças que Christiane passa, transmitindo tanto a ingenuidade inicial quanto o desespero da abstinência com extremo realismo.

Mesmo que soe anticlimático, o choque da parte final da projeção nada mais é do que parte da estratégia brilhante do diretor de destacar que não há final feliz com o vício, ou seja, Edel subverte nossas expectativas justamente para causar impacto, o mesmo que a droga causa na vida dos usuários. Este plano do diretor culmina em uma última cena que pode soar simplista e decepcionante, mas que encaixa-se perfeitamente na mensagem do longa, mostrando que o destino de Christiane F., após tudo o que passou, foi uma cidade isolada e em meio ao gelo, tão fria quanto a sua, antes pura e ingênua, mentalidade.

Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída (Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo) – Alemanha, 1981
Direção: Uli Edel
Roteiro: Herman Weigel, Kai Hermann, Horst Rieck (baseado na autobiografia de Christiane F.)
Elenco: Natja Brunckhorst, Thomas Haustein, Jens Khupal, Christiane Reichelt, Daniela Jaeger, David Bowie, Reiner Wolk, Jan Georg Effler, Kerstin Richter, Peggy Bussieck, Kerstin Malessa, Bernhard Jenson, Cathrine Schabeck
Duração: 136 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.