Crítica | Eu, Daniel Blake

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estrelas 3,5

Problemas sociais contemporâneos sempre foram retratados pelo cinema sob os mais diversos pontos de vista e com as mais diversas intenções, gerando, inclusive, escola uma cinematográfica entre 1942 e 1952, com narrativa, estética e nuances muito específicas para mostrar os problemas do “mundo da Guerra”: o Neorrealismo Italiano.

Na Europa do século XXI, crises e programas de austeridade econômica também tem ganhado destaque em filmes, na maioria das vezes, assumindo mostrar problemas pontuais, como uma “ponte de consequência” entre as ações de um “Estado Corporativo” e o cidadão médio, vide Dois Dias, Uma Noite (2014) e São Jorge (2016). Outros longas, como As Mil e Uma Noites: O Inquieto e O Desolado (2015), As Asas do Meu Pai (2016) e Eu, Daniel Blake (2016), apesar de abordarem questões específicas de um país europeu (no caso dos filmes citados, Portugal, Turquia — parcialmente — e Reino Unido), tendem a ser Universais, guardadas as devidas proporções e particularidades de casos, porque espelham no drama humano as decisões de acordos de gabinete, de seus servidores, de sua burocracia, regras e “caminhos de melhorias para todos” que, na verdade, criam uma via ruim para a maioria.

Sabe-se que Ken Loach é um diretor de pensamento político de esquerda e que também milita através de seus filmes. Em Eu, Daniel Blake, sua ácida resposta ao programa de austeridade britânico obviamente passa pelo viés de sua leitura ideológica, mas não há nenhuma novidade nisso e Loach não é um estranho no ninho neste ponto: diretores e roteiristas que dramatizam ou documentam crises econômicas desde o estopim de 2008, adotam posturas ideológicas pessoais para mostrar a sua visão dos fatos, vide obras como Trabalho Interno (2010), Grande Demais Para Quebrar (2011), Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011) ou A Grande Aposta (2015).

SPOILERS!

A partir desta visão, acompanhamos a vida do personagem-título, muitíssimo bem interpretado por Dave Johns, que após ter um ataque cardíaco em serviço, é afastado, mas precisa percorrer uma via crucis de solicitações, aplicações e papéis para conseguir algo equivalente ao nosso auxílio-doença. Em pouco tempo, a “profissional da saúde” que iniciou o caso de Daniel, declara que ele, a despeito do fato de ter tido um ataque cardíaco recentemente e de ter sido afastado pela equipe médica, está “apto para trabalhar”. Mas ele não pode fazer isso. Aí começa o grande inferno social de Blake.

Ao contrário dos que denominaram o filme de “propaganda comunista neurótica e mentirosa“, a trama tem sim correspondência em casos de pessoas que tiveram o mesmo processo de Daniel Blake frente aos órgãos de Serviço Social no Reino Unido para conseguirem aposentadoria por invalidez ou auxílio doença. Cinco minutos de pesquisa sobre manifestações populares e o desemprego no país entre 2015 e 2016; sobre os caminhos econômicos do país durante o Ministério de David Cameron (já iniciado com os famosos protestos de estudantes de 2010), o exercício Theresa May desde julho de 2016, e claro, as várias opiniões sobre o programa de austeridade darão ao espectador um panorama geral de que o contexto do filme não foi tirado da cartola. Ele é real. [Nota: um pequeno documentário do The Guardian foi feito logo depois da estreia do filme. Assista no canal oficial do jornal aqui]

Existe, evidentemente, um drama emotivo em cena, mas como não estamos falando de um documentário, era de se esperar essa linha pessoal no roteiro de Paul Laverty (Rota Irlandesa, A Parte dos Anjos) para mostrar a vida de Daniel Blake. Na primeira parte do filme, o espectador recebe de forma limpa e muito bem dirigida as nuances pessoais do protagonista. Apesar de entendermos rapidamente a ligação entre Daniel e Katie (Hayley Squires), a aproximação deles no início parece rápida demais, até artificial, mas compreendemos a bela amizade entre os dois.

Infelizmente, essa relação pende para um lado desconexo com o restante de fita quando ela passa a trabalhar como prostituta para não passar fome e sustentar os filhos, visto que nenhum serviço de faxineira parecia querer contratá-la. A cena com o telefone de Ivan caído no chão, perto da porta, é demasiadamente conveniente, barata e risível, uma das coisas que mancham a segunda parte do longa, que é um pouco problemática, bem diferente da primeira hora.

Se em um primeiro momento somos fortemente marcados pelo drama de um senhor doente, preso em um labirinto de seguridade social; na segunda parte, a película acaba explorando os sentimentos em primeiro lugar, pavimentando mais a relação entre Daniel, Katie e seus filhos, dando atenção a coisas que só são ressaltadas de tal forma para impactar mais o desfecho, com a morte do personagem, uma cena realmente tocante. O tom sério que permeia o texto não vai embora, muito pelo contrário, ganha cores ainda mais escuras. Todavia, o filme se torna um drama quase comum e um pouco menos uma crítica social densa e necessária. As atuações permanecem fortes e realistas, mas a forma, mais garbosa no princípio, encontra uma direção mais solta e montagem menos exigente nos 30 minutos finais.

É óbvio que nem todo mundo no Reino Unido passa pelo mesmo problema do filme ao tentar os mesmos benefícios, mas Daniel Blake é uma das muitas pessoas condenadas a este “inferno de cidadão necessitado”, principalmente de 5 anos para cá, na Terra da Rainha. Diante disso, a importância do filme é tremenda, a discussão urgente e necessária, o que levou a obra a ter grande impacto na Europa, começando por vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio de 2016, e seguido pelas inúmeras reações de críticos e espectadores, hashtags no twitter, depoimentos de funcionários de diversas Centrais de Trabalho no RU e uma campanha de vídeos para o Youtube desde a sua estreia europeia em 21 de outubro de 2016.

O realismo social de Ken Loach às vezes incomoda, às vezes é ingênuo ou até desleixado e irritantemente superficial com o próprio objeto que ele se propõe analisar (O Espírito de 45 é um exemplo disso), mas aqui em Eu, Daniel Blake ele é humano. Honesto. Desesperador. Sério. E preciso. A guinada dramática da segunda parte da obra tem sim impacto negativo na qualidade geral da fita, mas não retira nenhuma das qualidades humanas antes apresentadas. E com o final, é difícil não tomar ainda mais as dores do personagem principal. E não, não se trata de sentimentalismo barato. É só um pedaço de realidade que nós também conhecemos de perto aqui no Brasil.

Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake) — Reino Unido, França, Bélgica, 2016
Direção: Ken Loach
Roteiro: Paul Laverty
Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Sharon Percy, Briana Shann, Dylan McKiernan, Natalie Ann Jamieson, Jane Birch, Mark Burns, Stephen Clegg
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.