Crítica | Eu e Você

estrelas 3

Niccolò Ammaniti é um escritor corajoso. Seus livros abordam crises difíceis de serem superadas e na maior parte das vezes, vividas em conjunto. O desprezo a que os desfavorecidos são relegados, a crueza no tratamento das personagens, o falso intelecto, tudo ganha ares de urgência em seus livros. Como Deus Manda (2006) e A Festa do Século (2009) são exemplos gloriosos dessa literatura de crise – ou sobre as crises – , um trânsito entre o íntimo humano, o apocalipse social e o mundo sem muitas regras; ligações difíceis de serem feitas num contexto contemporâneo em literatura crítica, mas que o autor logra fazer muito bem. É observando esses conceitos que entendemos melhor outra de suas obras, Eu e Você (2010), adaptada por Bernardo Bertolucci para o cinema, com o próprio Ammaniti na co-escrita do roteiro.

Das obras do autor, Eu e Você é a que eu menos gosto, e talvez tenha sido por isso que minha curiosidade ficou bastante aguçada para conferir o filme e ver como seria o trabalho em cima dessa curiosa história. Sabendo que a sutil indicação incestuosa (não real, mas sugerida) na relação entre os dois meio-irmãos era um tema bastante caro a Bertolucci, imaginei algo mais ou menos na linha de Os Sonhadores, ao menos na forma geral do filme, cenário e concepção estética, diferenciando-se apenas na trama, uma suspeita que se mostrou real.

O filme conta a história de Lorenzo, um adolescente introspectivo que se esconde no porão de seu prédio durante uma semana, fazendo a mãe acreditar que está em uma excursão do colégio. O garoto é um personagem complexo, com violentos ataques de raiva e com uma origem posta como ponto de interrogação, e que encontrará na chegada de Olívia, sua meio-irmã, um contraponto dramático bastante intrigante, mas que não funciona bem na trama. A jovem é viciada em heroína e está em abstinência por conta própria, tentando se livrar do vício. O porão-refúgio de seu meio-irmão é o único lugar que ela tem para ficar durante o restante da semana. E essa estadia é o que marca o corpo do filme.

A primeira parte da fita funciona melhor que a segunda, quando então vemos desenvolvida a relação entre os dois irmãos. A personagem de Lorenzo, vivida pelo simpático Jacopo Olmo Antinori, tinha motivos dramáticos e força para levar o filme sozinha, ou pelo menos sem esse encontro com a irmã que beira a dependência, uma espécie de fetiche textual que Bertolucci quis explorar de qualquer maneira.

Num espaço pequeno e cuja intenção era nos transmitir uma espécie bastante peculiar de claustrofobia, vemos Lorenzo conviver consigo mesmo, feliz, isolado de todos. A chega da irmã o deixa bravo porque o único tempo que tinha para ele deveria agora ser dividido com mais alguém, e pior, uma pessoa-problema. À essa situação claustrofóbica, adicionemos também o viveiro de formigas que Lorenzo levou para o porão, uma ligação com a inquietude do rapaz e ao mesmo tempo a simbólica sugestão de que aquela semana consistia num trabalho interno e psicológico que traria importante transformação ao rapaz. No final das contas, a intervenção de Olívia desvia um pouco a atenção do espectador para algo de pouca força e cujo interesse, ao menos para mim, foi mínimo.

Bertolucci consegue guiar bem um filme em um pequeno espaço (essa forma não é nova para ele), indicando caminhos seguros para os atores, uma ótima dupla de protagonistas, por sinal, e finalizando a história quase como uma felicidade anunciada para o tempo elíptico pós-filme. Mas principalmente por conta da segunda história, esse final tem um gosto amargo, não corrigindo alguns tropeços no quesito verossimilhança e tornando-se muito simples para uma situação psicológica e pessoal (a de Lorenzo) bastante complexa.

Eu e Você deveria ser um filme sobre uma pessoa só. Talvez uma adaptação livre, ou talvez o “você” o título fosse alguém que não estivesse no mesmo local de isolamento do protagonista. A premissa do filme é muito boa, sua execução até certo ponto é interessante, mas depois as coisas se transformam numa relação conflituosa de dois meio-irmãos, uma desnecessária confusão para uma história com potencial para coisas mais simples e bem mais interessantes.

Eu e Você (Io e Te) – Itália, 2012
Direção: Bernardo Bertolucci
Roteiro: Niccolò Ammaniti, Umberto Contarello, Francesca Marciano, Bernardo Bertolucci
Elenco: Tea Falco, Jacopo Olmo Antinori, Sonia Bergamasco, Veronica Lazar, Tommaso Ragno, Pippo Delbono
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.