Crítica | Eu Matei a Minha Mãe

estrelas 3,5

Em 2009, aos 20 anos de idade, Xavier Dolan estreou atrás das câmeras com o longa Eu Matei Minha Mãe, dando início a uma carreira que aos poucos ganharia importância e respeito no cenário cinematográfico internacional. Ator desde os 5 anos, Dolan cresceu no meio televisivo, publicitário e cinematográfico, um início de carreira que certamente definiria a essência da fase seguinte de sua profissão, na qual misturaria elementos de estética de videoclipe com nuances barrocas (especialmente na direção de fotografia na direção de arte), estrutura narrativa de vanguarda e linguagem jovem, agressiva, pessoal e crítica.

Pelo bem pelo mal, Eu Matei Minha Mãe é um filme cru, com alguns problemas de direção — especialmente no meio — e com um estilo que vai agradar a alguns espectadores enquanto desagradará a muitos outros. E perceba que, a rigor, não se trata de bom ou mal uso desse ou daquele elemento estético e dramático. Trata-se unicamente de visões pessoais de cinema que verão de forma distinta o estilo de montagem que o diretor trouxe para o filme, assim como o intercalar de objetos “aleatórios” + música na tela ou ainda os flashes de eventos aparentemente não conectados com a trama principal. Por um momento, as opiniões se separam na simpatia ou não em relação ao “barroco-moderno” de Dolan. Mas no passo seguinte passamos para o que verdadeiramente nos interessa, a visão de como tais elementos foram arquitetados no decorrer do filme, quer gostemos deles ou não.

Eu Matei Minha Mãe é a história de Hubert (Xavier Dolan) e Chantale (Anne Dorval), mãe e filho que possuem uma tempestuosa relação de amor e ódio que ganha e perde peso no decorrer do filme. O roteiro tem uma característica episódica (cujas melhores partes estão no início e no final) e explora os altos e baixos da relação entre a dupla, colocando nas entrelinhas o relacionamento amoroso de Hubert com Antonin (François Arnaud); o destaque um pouco nebuloso para a professora de francês de Hubert (interpretada por Suzanne Clément, uma das atrizes favoritas de Dolan) e a amiga da mãe, que aparece como uma quebra quase tragicômica em dado ponto da fita.

Enquanto raio-X de um relacionamento materno, o filme funciona quase à perfeição. Embora haja exageros melodramáticos (e falo isso no melhor sentido que o melodrama cinematográfico pode suscitar), esse ponto da obra é denso, ousado e marcado por uma verossimilhança impressionante se considerarmos o estilo de direção de Dolan. Cenas como as conversas de Hubert e sua mãe dentro do carro, a “despedida” dos dois no dia em que o jovem vai para o colégio interno e a excelente sequência em que ele, sob efeito de drogas, ele conversa com ela são exemplos de como há muitos elementos realistas na composição do texto e de como esses elementos são bem organizados no todo.

As memórias da infância de Hubert colocadas como filmagens em super-8 fazem parte dos pontos isolados ou pouco interessantes da fita. Elas não trazem praticamente nenhuma amplitude para o personagem ou sua relação com a mãe e aparecem quando não deveria, uma constatação que permanece mesmo se dermos a elas o bônus de uma denominação essencial, a de uma memória perdida ou forjada da infância. Juntamente com elas, temos a falha na exploração do personagem Antonin, que apesar de algumas boas cenas ao lado de Hubert (a sequência do dripping à la Jackson Pollock, por exemplo), termina o filme carregando um baita ponto de interrogação, o que certamente interfere na dinâmica final do filme, que embora deixe aberto o todo sobre o futuro, define muitíssimo bem os estágios “atuais” dos personagens no refúgio campestre, deixando Antonin à deriva, em todos os sentidos narrativos.

Por se tratar de um primeiro filme e por adotar, desde cedo, um estilo enredístico e estético não convencional, Xavier Dolan consegue um ótimo resultado com Eu Matei Minha Mãe. O filme traz um frescor e uma profundidade que às vezes podem se perder à primeira vista mas que, se observadas com maior atenção, virão à tona e irão fazer o espectador se lembrar de pelo menos um momento de suas vidas onde a relação mãe-e-filho não era, nem de perto e nem de longe, um paraíso.

Eu Matei a Minha Mãe (J’ai tué ma mère) – Canadá, 2009
Direção: Xavier Dolan
Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Anne Dorval, François Arnaud, Suzanne Clément, Patricia Tulasne, Niels Schneider, Monique Spaziani, Pierre Chagnon, Justin Caron, Benoît Gouin, Johanne-Marie Tremblay, Hugolin Chevrette-Landesque, Francis Ducharme
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.