Crítica | Eu, Olga Hepnarová

estrelas 4,5

É muito difícil pensar de forma ordenada depois de assistir Eu, Olga Hepnarová, que abriu o Festival de Berlim de 2016. Os sentimentos de desorientação, desolação, desesperança e desespero que estão encrustados nesta obra tcheca dos diretores estreantes em longas de ficção Petr Kazda e Tomás Weinreb exigem que sentemos no escuro, vendo os créditos brancos rolarem por sobre a tela preta sem qualquer acompanhamento musical somente para que consigamos digerir o suficiente do que vimos para caminhar provavelmente cabisbaixos para casa.

A certeza de que a experiência foi relevante vem justamente dessa forma acachapante com que o filme derrama sua história verdadeira, baseada nas terríveis ações que tornaram Olga Hepnarová a última mulher a ser sentenciada à morte na Tchecoslováquia, em 1975. Acompanhamos a jovem desde seus 13 anos, em sua enorme casa em Praga, quando tenta o suicídio com uma overdose de medicamentos. Ao voltar do hospital, depois de uma lavagem estomacal, sua mãe diz para ela, friamente, apenas uma única frase: “Para cometer suicídio, você precisa de força de vontade, algo que você certamente não tem”. Essa perturbadora sequência inicial dá o tom da fita e estabelece os parâmetros pelos quais as sequências seguintes serão trabalhadas. Imagens se sucedem linearmente, mas sem que a passagem de tempo seja explicitada ou de qualquer forma marcada, em um impressionante trabalho de montagem de Vojtech Fric que pula de sequência em sequência de forma a quase não sentirmos a transição e, com isso, temos que nos reajustar a “novas realidades”, de certa forma emulando a confusão mental de Olga Hepnarová, mas também potencialmente atrapalhando o desenvolvimento narrativo para espectadores menos atentos.

Mas o elemento fílmico que efetivamente nos coloca no estado de espírito da infeliz protagonista é a fotografia em preto e branco de Adam Sikora, responsável pelo excelente Matança Necessária. Na verdade, é injusto simplesmente classificar seu trabalho como “preto e branco”, pois Sikora procura ao máximo evitar justamente esses extremos ou fortes contrastes, mantendo o mundo de Olga quase que uniformemente acinzentado, com brancos e pretos esforçando-se, por intermédio do uso de delicados filtros, em encontrar uma espécie de meio termo. A mente de Olga parece funcionar da mesma forma, com opostos constantemente duelando e com sua vida sendo dizimada neste conflito. E essa mesma fotografia também funciona para ilustrar o enfoque de certa forma jornalístico (seria perfeitamente possível dizer que o cinza do filme é um “cinza-jornal”) que Kazda e Weinreb dão aos acontecimentos.

Sobre o enfoque dado ao filme, aliás, é particularmente importante notar que Kazda e Weinreb, que também escreveram o roteiro, usaram como base a correspondência deixada por Olga para explicar seu crime, correspondência esta que é lida integralmente durante a projeção, com voz em off da atriz. Com isso, o ponto de vista é o de Olga e os roteiristas, desta forma, não tentam nem justificar nem condenar a moça, deixando que o espectador tire suas próprias conclusões. Olga Hepnarová se auto-classifica como uma vítima da sociedade, como alguém que sofre mais do que “um negro americano”, em uma metáfora estarrecedora pela verdade embutida ali. E nós vemos esse alegado sofrimento de forma explícita apenas uma vez, quando a jovem é internada em um hospital psiquiátrico e sofre um espancamento das demais jovens internadas. O restante fica nas entrelinhas, como na fenomenal câmera parada a meia-altura em um longo corredor da casa da família de Olga, em que a vemos entrar em um quarto de onde, quase um minuto depois, sai seu pai. Só “ouvimos” silêncio, mas as implicações daquele vazio todo são estarrecedoras, em perfeita linha com a frieza de sua mãe após sua tentativa de suicídio.

Outro ponto importante é justamente o que ouvimos. Ou melhor, o que não ouvimos. A grande maioria dos diretores hesita em dirigir filmes sem pensar que a trilha sonora será sincronizada posteriormente, não só pela efetividade que uma boa música tem para um filme, como também pelo que o espectador convencionalmente espera. Mesmo quando não há música sincronizada, ouve-se pelo menos alguma melodia diegética. Normalmente, as exceções lidam com filmes de enfoque mais realista e/ou jornalístico como O Massacre da Serra Elétrica, A Separação e Rede de Intrigas, todos se fiando no silêncio para trazer autenticidade e, em alguns casos, tensão. Eu, Olga Hepnarová entra nesse rol de filmes notáveis sem trilha já como um dos melhores na manipulação do silêncio, enervando o espectador e focando em monólogos e sons (não música, que vem apenas uma vez) diegéticos levemente mais altos do que o normal, que sutilmente também parecem refletir a forma que Olga encara o mundo, como algo agressivo, que sempre quer derrubá-la.

Propositalmente deixei para próximo do final os comentários sobre Michalina Olszanska, a jovem atriz polonesa que vive Olga Hepnarová e que ganhou destaque mundo afora pelo inusitado A Atração. Aqui, Olszanska está assustadora como a protagonista. Assustadora em sua frieza, em sua forma de encarar a vida e as pessoas, assustadora em sua maneira de tentar compreender sua própria e confusa sexualidade. A atriz, que por vezes se parece muito com uma versão um pouco mais velha de Natalie Portman em O Profissional,  encarna Olga em dois momentos temporais distintos – com 13 e a partir de 22 anos – convencendo-nos perfeitamente da transformação, que, como mencionado, vem sem aviso, com apenas sutis trabalhos gestuais e mudança no penteado e figurinos, algo raro de se ver por aí. Se desde os primeiros segundos de projeção somos convencidos de que há algo errado com Olga, muito se deve à sutileza do que Olszanska faz, mesmo diante de inclementes close-ups e sequências que estranhamente carregam uma alta dose de erotismo.

Eu, Olga Hepnarová é um filme difícil em todos os sentidos – pela temática, pela abordagem, pelo silêncio, pela lentidão -, mas ele é carregado de simbolismo e não deixará nenhum espectador incólume. É como entrar na mente de Olga e ter dificuldade de sair. Pelo menos a luz que se acende ao final da projeção ajuda a acordar do transe cruel a que somos submetidos.

Eu, Olga Hepnarová (Já, Olga Hepnarová, República Tcheca/Polônia/Eslováquia/França – 2016)
Direção: Petr Kazda, Tomás Weinreb
Roteiro: Tomás Weinreb, Petr Kazda (história de Roman Cílek)
Elenco: Michalina Olszanska, Martin Pechlát, Klára Melísková, Marika Soposká, Juraj Nvota, Martin Finger, Marta Mazurek, Ondrej Malý, Petra Nesvacilová, Gabriela Mícová, Zuzana Stavná, Jan Novotny, Viktor Vrabec, Malwina Turek, Roman Zach
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.