Crítica | Eu sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado

EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM ...

estrelas 4

Se fosse um argumento menos batido, Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado seria uma produção com instigantes reflexões contemporâneas. A produção surgiu numa época predecessora aos aplicativos que poderiam denunciar o tema. Eu sei, Eu ainda sei, Eu sempre saberei. Selfie, redes sociais e todos os aparatos do mundo virtual parecem ser um prato cheio para esse tipo de história.

Wes Craven conseguiu atualizar Ghostface para a geração mais recente em 2010, com Pânico 4, mas uma nova investida na história sobre uma figura vingativa que sabe o que certo grupo de jovens fez no verão, no inverno ou em qualquer momento do ano passado não se sustentaria mais na contemporaneidade por dois motivos: primeiro, pela saturação do tema, segundo, porque nem todo cineasta tem a habilidade de Craven para reciclar velhas ideias.

Em Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado quatro jovens atropelam um homem por acidente e decidem dar cabo do corpo, pois tem medo das consequências que aquele acontecimento pode trazer para a vida de todos os envolvidos. Um ano após o fatídico acidente, alguém parece saber da história e decide atormentar a vida dos jovens, inicialmente com uma correspondência que traz em seu interior um bilhete que repete o título da trama. Alguém sabe o que eles fizeram no último verão, mas quem seria?

É a partir deste acontecimento que todo o panorama é modificado. Eles precisam descobrir quem está por trás da possível brincadeira. Alguém viu o acidente e o abandono do corpo? O estranho conseguiu sobreviver ao acidente e retornou para se vingar? Eis o mote do filme. Os personagens não são muito carismáticos, mas conseguem dar conta do roteiro. O desejo de abandonar o corpo para se livrar das consequências não vai adiante. Se eles estão fora do eixo judiciário, fora do encarceramento físico, os seus planos foram alterados e a claustrofobia social torna-se um pouco abstrata e tão medíocre quanto estar num presídio, tendo em mira as audaciosas medidas posteriores ao término do colegial: ser atriz, estudar Direito, etc. As coisas, infelizmente, não seguem esse rumo.

Helen (Sarah Michelle Gellar) tinha planos de viajar e abandonar a vida interiorana, mas acaba como uma das funcionárias do negócio da família, numa lojinha local. Julie (Jennifer Love Hewit) vai para a faculdade, mas não consegue se livrar do sentimento de culpa, o que a deixa desconcentrada e com péssimo desempenho estudantil. Ray (Freddie Prinze Jr) torna-se um dos pescadores do local, uma cidade costeira, e Barry (Ryan Phillipe) não muda muita coisa, pois continua sendo um “playboy” arrogante e que se esconde por detrás da riqueza da família.

A produção, baseada no livro homônimo de Louis Ducan, lançado em 1973, nos lembra filmes como Sepultado Vivo e Eu Vi O que Você Fez, Eu Sei Quem Você É. Supostos mortos que retornam para infernizar a vida de quem os prejudicou. Eis uma história de vingança convincente. Não é um primor narrativo, mas funciona como filme de terror e suspense.

Eis uma história de vingança convincente. Não é um primor narrativo, mas funciona como filme de terror e suspense: os personagens são básicos, fogem dos irritantes clichês de moças extremamente sexuais e rapazes descerebrados, além de possuir um ritmo que segura o espectador até o final, graças à eficiente montagem, ao equilibrado e bom trabalho de som, aliados aos aspectos sombrios da direção de fotografia.

O bilhete recebido é apenas o prelúdio para uma perseguição implacável. O perseguidor utiliza uma indumentária de pescador, numa espécie de capa de chuva que lhe esconde o rosto quase totalmente. Não é uma sexta-feira 13, sequer Halloween, mas a data é emblemática: 04 de Julho, dia da Independência dos Estados Unidos. Um dia representado pelo heroísmo da sociedade estadunidense, postura que vai ser transferida para os jovens, caso queiram sobreviver.

O filme veio na esteira do sucesso de Pânico, lançado um ano antes, em 1996. Dinâmico, divertido e com doses de adrenalina que deixam o espectador preso ao filme, bem como satisfeito com o resultado, Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado foi o prenúncio de duas questões para o gênero terror: a qualidade de um filme que segue os padrões de uma nova vanguarda, neste caso, o estilo de Wes Craven de assustar, concomitante à avalanche de produções sem qualidade que esgotaria esta linha de produção poucos anos depois. Uma delas, Eu Ainda Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, uma equivocada continuação deste primeiro filme tão genial.

Orçado em U$17 milhões, rendeu seis vezes mais o valor de custo e alçou a carreira de muitos dos envolvidos na produção. Mais que merecido. O filme trata com agilidade e destreza temas já banais como a culpa e a vingança. O argumento simplório é bem explorado, sem deixar pistas fáceis e ficar preso aos assassinatos em demasia.

Recentemente (2015) fomos informados que teremos uma refilmagem de Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, uma produção relativamente recente e com derivados bastante saturados. Interesse é apresentar a história para novas gerações? Esse foi o primeiro questionamento ao ter acesso a este absurdo. Se for, os produtores estão realmente muito loucos, haja vista que a linguagem deste filme é extremamente próxima do que convencionamos chamar de contemporâneo, sendo o exercício de refilmagem uma grande perda de tempo.

Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, Estados Unidos – 1997)
Direção: Jim Gillespie
Roteiro: Kevin Williamson
Elenco: Jennifer Love Hewit, Sarah Michelle Gellar, Freddie Prinze Jr., Ryan Philipe, Bridgette Wilson, Anne Heche, Johnny Gakecki.
Duração: 101 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.