Crítica | Eu Só Quero Que Vocês me Amem

estrelas 5,0

O título de aparência romântica e alguns frames isolados de Eu Só Quero Que Vocês me Amem (1976) podem dar uma impressão errada sobre o objeto central do filme. É importante deixar claro que não se trata de uma busca libidinosa por amor ou de uma gratuita entrega de alguém a essa busca, lugar-comum de determinados enredos sobre relacionamentos humanos. O que temos aqui é a versão de R.W. Fassbinder para o homem engolido pelos aspectos simples do “cotidiano burguês” — pessoal e financeiramente — sem a aparência de um discurso militante ou qualquer coisa que o valha.

Se olharmos de maneira crua para o roteiro (mescla de um caso real de assassinato e uma peça de teatro), veremos indícios de materialismo histórico em ação. Entender os aspectos de existência de Peter e sua família só é possível a partir do momento que entendemos os aspectos de valor atribuído às coisas que os cercam e como cada um deles lidam com dinheiro, posses, presentes. O padrão que acompanhou o protagonista desde a infância foi o da busca por “ser um bom garoto”, algo que, segundo a visão dos pais, era ter sucesso financeiro na vida. O pequeno Peter, impulsionado por uma tendência emotiva de sempre querer agradar (uma neurose que o persegue até a vida adulta e se estende para a esposa) foi pego certa vez roubando flores para a mãe. Ele é punido por isso.

Fassbinder realiza aqui um dos filmes mais interessantes de sua carreira, que desde 1975, com O Direito do Mais Forte é a Liberdade, passava por uma reformulação conceitual onde se destacava os aspectos políticos da sociedade alemã pós-guerra, vistos com grande intensidade em Mamãe Küster Vai Para o Céu (1975) e Roleta Chinesa (1976). Em Eu Só Quero Que Vocês me Amem, o diretor mistura elementos de ordem psicológica, desde a ideia de que o indivíduo, diante de determinadas circunstâncias, reproduz a opressão da qual foi vítima até os relacionamentos sociais marcados pelo motor automático de convivência: os cumprimentos vazios, o não-interesse disfarçado de simpatia, o julgamento do outro pelo que este exibe de posse, a luta praticamente suicida de alguém para manter vivo o aspecto de consumo.

É nesse redemoinho social, político, econômico e psíquico que Peter ganha destaque e aos poucos toca o espectador em âmbitos diferentes, seja por sua quase-inocência, pelo desprezo sofrido durante toda a vida ou pela covardia ao lidar com determinadas situações. A câmera adota a elegância da narração múltipla de significado, movimentando-se de forma tão sutil que às vezes nos passa despercebida. Aliás, todo o exercício técnico do longa nos impressiona grandiosamente porque estamos falando em um filme feito para a TV e rodado às pressas. Essas condições, no entanto, não impediram Fassbinder de imprimir um tratamento impecável nas cores, desenho de produção e ritmo a obra, completado pelo preciso trabalho de montagem de Liesgret Schmitt-Klink (que já trabalhara com Fassbinder em Martha e Medo do Medo), especialmente na reta final.

A escolha por contar a história de maneira não linear e a forma como esses blocos temporais são aos poucos misturados ao presente do personagem tem um importante papel na criação de uma atmosfera dramática e de recepção do espectador. Fassbinder evitou os diálogos de contexto. Em vez disso, mostrou fases diferentes da vida de Peter, pensadas com precisão no tocante à ordem de aparição e modelos de ligação entre elas. O resultado final é uma obra que inicialmente gera compaixão no público e termina com um polêmico toque ético. O desfecho desse contexto crítico vem exatamente após o entendimento total do caso, quando é perguntado a Peter se ele era feliz por estar vivo. A resposta, claro, não é dada. Mas a sensação de que o diretor estava fazendo essa pergunta para o público faz com que compremos as penas que levaram Peter até aquela situação e analisemos todo esse caminho de dignidade do homem que o trabalho supostamente dá e a certeza de que o dinheiro, por mais que se tente, não pode comprar tudo.

Eu Só Quero Que Vocês me Amem (Ich will doch nur, daß ihr mich liebt) — Alemanha Ocidental, 1976
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder (baseado na obra Lebenslaenglich, de Klaus Antes e Christiane Erhardt).
Elenco: Vitus Zeplichal, Elke Aberle, Alexander Allerson, Erni Mangold, Johanna Hofer, Wolfgang Hess, Armin Meier, Erika Runge, Ellen Eckelmann, Ulrich Radke
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.