Crítica | Eu, Tonya

Alguns atletas ficam marcados na história do esporte mais pelas polêmicas que envolveram seus nomes do que pelos seus próprios talentos. Casos de doping, vida pessoal conturbada, envolvimento em crimes, por exemplo, podem fazer uma pessoa vir à tona, nas manchetes de jornais e programas de televisão sensacionalistas, mais do que uma medalha nas Olimpíadas. Esse não é o caso exato de Tonya Harding, que definitivamente tinha talento para a patinação artística. Muito provavelmente, porém, a jovem não seria relembrada até hoje se não fosse o evento que destruiu a sua carreira. Uma via de mão dupla, é claro, que a fez ser lembrada com ódio por muitos, mas pelo menos a fez ser lembrada. Sua história é uma tragédia surreal, movimentada por facetas naturalmente deturpadas. Não esperem que Eu, Tonya seja um filme realista. A história não é. Steven Rogers faz questão, porém, de examinar no roteiro todas as incongruências, os lados da moeda, as versões de relatos que não trouxeram, enfim, toda a verdade do negócio. Explorando desde os primórdios da vida de sua protagonista, Rogers coloca no texto a “verdade” por trás da vida de uma patinadora artística que o mundo amou odiar. O resultado não é um filme que impõe o que aconteceu e por que aconteceu. Isso até mesmo seria impossível de ser feito. Logo, temos uma obra emaranhada de pontos de vista, que não absolve e nem condena a personagem principal. Esse papel é do público que, muito provavelmente, sairá do filme fazendo as duas coisas: condenando a personagem pelos seus erros, mas absolvendo-a em relação a sua história, compreendendo uma vida de violência.

É por isso que Eu, Tonya tem muitas características de documentário – um falso-documentário, na verdade. Seria fácil contar essa história sem usar apoios narrativos como a quebra da quarta-parede e a estética de entrevista, que vai-e-vem no filme, fluindo sem quebrar o ritmo da obra, devido, entre outros motivos, a excelente edição de Tatiana S. Riegel. Porém, Craig Gillespie não encontraria a autenticidade devida se não fossem esses itens, os quais, portanto, não são apenas apoios, como eu mesmo me referi a eles, mas sim engrenagens de um conto assustadoramente real. Todavia, o longa-metragem vai além, moldando tudo sob óticas ambíguas, que dissimulam e tornam a realidade sarcástica a si mesma. A relação entre Tonya (Margot Robbie) e seu marido Jeff Gilloly (Sebastian Stan) é um desses casos de meia-verdade, com nada sendo exposto de forma absoluta. Certeiramente, Gillespie conduz o seu trabalho para que a versão de Tonya prevaleça sobre a de Jeff, provocativamente enganosa. Sendo assim, Sebastian Stan é um complemento fundamental para a transposição cinematográfica de um relacionamento abusivo; sua visão das coisas é sonsa, tentando acobertar uma participação substancial em casos de violência. Os pedidos de desculpas, as idas e vindas do casal, soam repetitivas, o que em alguns casos mostraria uma redundância no storytelling. Inúmeras brigas de casal surgem, terminam, e aparentemente não levam a lugar algum. Lego engano, a exaustão dos mesmos conflitos expõe a toxicidade de um relacionamento adoecido, que, no final das contas, aumentou profundamente as cicatrizes de Tonya.

Em um outro plano, o conservadorismo no esporte não permitiria Tonya ir muito longe, visto que ela não era um retrato do sonho americano a ser exportado para o mundo inteiro ver e aplaudir. Essa é uma questão bastante frisada pela narrativa, que fomenta discussões válidas sobre se o esporte deveria ser só sobre o esporte. O roteiro, dessa forma, insere momentos, possivelmente fictícios, para trazer mais camadas à tragédia tonyana. O que se tem com isso é um foco muito honesto em, se não transmitir a verdade pelos fatos que acontecerem, transmitir a verdade na essência do que aconteceu, no todo que esteve envolvido na carreira da mulher e que a afetou drasticamente pelo resto de sua vida. Quando se vai falar do caso Kerrigan de verdade, o ápice de uma história violenta, Gillespie, diferentemente do que fez com o romance entre Jeff e Tonya, não traz nenhuma tendência que nos leve a deduzir quem é o dono da verdade. O que aconteceu de fato é propositalmente confuso, com vários usos de continuidade retroativa para mostrar a complexidade de uma situação com nenhuma concreticidade. Afinal, são as palavras de uma pessoa contra as palavras de outra. Nesse escandaloso cenário, há espaço até para um homem idiota alegar, falsamente, ser um antigo espião secreto. Infelizmente, é nessa parte que Eu, Tonya falha em reacender chamas envolvendo o nome da personalidade principal. As constantes mudanças de status quo prejudica a personagem em cena, que deixa de representar tanto para o filme quanto os coadjuvantes estão representando. Nancy Karrigan (Caitlin Carver), aliás, é uma outra personagem importantíssima relegada a participações menores do que era necessário. Há até uma tentativa pontual de se criar algum vínculo entre ela e a protagonista, mas as coisas murcham e não surpassa a óbvia citação.

Para finalizar, Margot Robbie cria uma das interpretações mais marcantes de sua carreira – e isso sou eu adiantando todos os anos na indústria que ainda vão vir para a atriz. Em frente a um espelho, no clímax da obra, Robbie destrói, demonstrando com meras expressões faciais todos pedaços humanos que compõem a sua personagem. Em frente a um juiz, um monólogo nos comove e nos relembra a trajetória bem difícil de sua personagem, partindo da complicadíssima relação entre ela e sua mãe LaVona, uma personalidade que, em todos os seus aparatos vilanescos, permite Allison Janney também entregar uma performance exuberante. Eu, Tonya alinha muita tensão entre as duas e desarma em nossos corações qualquer chance de reconciliação entre ambas, fadadas a viverem ou longe uma da outra, ou em uma constante rinha de galo. LaVona é uma mulher que verbaliza acidez, o que tendeu a tornar – e tornou – Tonya uma mulher corroída, que tem na patinação no gelo sua válvula de escape e único alívio emocional. A sua expressão de felicidade ao conseguir atingir certos feitos é contagiante e isso também é levado para dentro da pista, onde o diretor sabe muito bem conduzir as sequências, mesmo com elas fraquejando um pouco por causa da computação gráfica. Mas Eu, Tonya não deixa de ser um sucesso de filme, envolvente, intrigante e verdadeiro com a história, mesmo baseado em tantas mentiras. Parafraseando a personagem-título, “não existe isso de verdade, cada um tem a sua própria.

Eu, Tonya (I, Tonya) – EUA, 2017
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Steven Rogers
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Bobby Cannavale, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser, Caitlin Carver, Dan Triandiflou, Bojana Novakovic, Mckenna Grace
Duração: 119 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.