Crítica | Europa (1991)

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Após filmar Elemento de Um Crime e Epidemia, ambos ambientados em palco europeu e tratando intimamente das chagas abertas do Velho Continente, Lars von Trier arrematou sua chamada Trilogia Europa com o filme homônimo, que pode facilmente ser apontado como o seu primeiro grande longa-metragem. Os dois primeiros volumes da trilogia mais servem como aquecimento para um grand finale poderoso e ousado em todos os âmbitos – da forma, amadurecida e bem concatenada, ao conteúdo, que lança luz sobre um tema nevrálgico para os europeus após a Segunda Grande Guerra. Europa venceu o Prêmio do Júri em Cannes e tornou-se um dos principais filmes do diretor e um dos títulos fundamentais para entender o pós-guerra, ainda que ele se valha livremente da ficção para atingir seu objetivo. Temos aqui um dos filmes mais sóbrios do dinamarquês, em que sua mão dá ao tema exatamente o peso que ele merece.

A história se passa imediatamente após o apagar da luzes do maior conflito bélico do século XX. É interessante que Europa mantenha a narração no tom hipnótico de Elemento de Um Crime. Mas, dessa vez, não é um hipnotizador egípcio quem introduz o protagonista ao seu mundo de reminiscências, mas sim a voz austera de Max von Sydow, que se dirige indistintamente ao espectador e ao protagonista. Este último, um jovem americano de nome Leopold Kessler, chega à Alemanha com a intenção de ajudar na reconstrução de um país devastado material e psicologicamente. Seu tio lhe consegue um emprego como aspirante a condutor-chefe em uma empresa ferroviária – a Zentropa e ele, carregando o olhar virginal de Bess (de Ondas do Destino) e de Grace (de Dogville), vê-se submetido a um embate de forças antagônicas. Se, por um lado, os norte-americanos submetem o povo alemão a um vexame que não tem fim mesmo após o término da guerra, por outro, pululam grupos violentos de resistência à ocupação americana. Norte-americanos e “lobisomens” tecem uma teia histórica que terminará em tragédia.

Esse é o cenário desolador que Lars von Trier tem em mãos para traçar os rumos de Leopold em sua missão auto-imposta. Tudo o que se passará com o personagem principal de Europa pode ser lido como alegoria para os eventos que assomarão o próprio continente. Quando Leopold se permite envolver na turbulência de seu tempo histórico, é preciso pensarmos na própria Europa mergulhada em seus escombros. Quando o jovem americano é açoitado, é a própria esperança na construção de um novo continente que acusa o golpe. Leopold Kessler é, portanto, o primeiro grande personagem de Lars von Trier. Tanto por sua composição bem mais redonda e convincente que a dos protagonistas anteriores, como por suas aptidões simbólicas muito mais interessantes. Europa supera muito os dois longa-metragens que o antecederam especialmente por abandonar qualquer experimentalismo aborrecido. É um passo à frente bastante decidido na carreira do diretor dinamarquês, que se tornaria figura certa em Cannes nos anos seguintes.

Apesar de sua gramática menos radical e pesada, é curioso notar que Europa traz Lars von Trier em um exercício de técnica bastante virtuosístico. Ainda que mantenha todo o clima noir, com seus jogos de luzes e sombras, seus planos holandeses e seus personagens de moral duvidosa, o filme de 1991 realiza um trabalho admirável ao utilizar primeiro e segundo planos bem separados e definidos, com significados distintos e complementares. O cineasta escandinavo é inventivo inclusive quando dá cores ao primeiro, enquanto o segundo é mantido em preto e branco. Isso ocorre, por exemplo, quando o protagonista dialoga e negocia com Katharina Hartmann. O elemento feminino aparece em cores, destacando-se em meio ao ambiente masculino da guerra. A brutal cena do suicídio também ganha cores para realçar o sangue se esvaindo do corpo do suicida. Mesmo que citando o Fritz Lang de Metropolis e o Alfred Hitchcock de Um Corpo Que Cai, Europa consolida uma identidade própria inclusive nas cenas mais ternas, a exemplo daquela que registra as mãos de Leopold e Katharina se perdendo entre os comboios.

Mas o que torna este um filme com a assinatura de Lars von Trier é o trabalho que o diretor e roteirista faz com as forças que se entrecruzam. O jovem americano que chega à Alemanha para reconstruir o país acaba destruído por ele. Descobre estar trabalhando para uma companhia ferroviária diretamente implicada nos horrores da guerra e termina envolvido em um atentado a bomba orquestrado pelos “lobisomens”. Europa sugere uma importante questão: em um ambiente tão corrupto e degenerescente, qual a capacidade de resistência do bem frente ao mal? Quem vence esse embate de vetores – a ação do homem sobre a realidade ou a degradação daquele por esta? Aparece aqui, pela primeira vez, um sentimento trieriano bastante forte e que será explorado profundamente em Dogville – a busca do bem muitas vezes enseja as piores catástrofes. A cena final de Europa ata o nó do pessimismo histórico em um continente com tamanha vocação beligerante. Aos que aspiram à paz e à tolerância em um continente tão brutalizado, certamente não será Lars von Trier quem plantará essa esperança.

Europa – Dinamarca, 1991
Direção: Lars von Trier
Roteiro: Lars von Trier, Nils Vorsel
Elenco: Jean-Marc Barr, Barbara Sukowa, Ernst-Hugo Järegard, Anne Wener Thomsen, Eddie Constantine, Jorgen Reenberg, Max von Sydow
Duração: 112 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.