Crítica | Evereste (2015)

estrelas 3,5

Se o cinema de grande circulação sofre, apesar de haver quem não sinta ou simplesmente não ligue para este sofrimento, com a superficialidade narrativa e a exploração rasa do chamado “elemento humano”, Evereste vem provar que só um bom elenco, ainda mais aliado a uma direção pelo menos competente tecnicamente, já pode resultar em uma bela produção. Não fosse um roteiro que carece de profundidade, o limite estaria muito além do pico.

No longa, baseado em fatos reais, acompanhamos a encenação de um empreendimento posto em prática em 1996: uma comitiva internacional, liderada por alpinistas experientes, tais como Rob Hall (Jason Clarke) e Scott Fischer (Jake Gyllenhaal), une esforços para atingir o cume do famoso monte. Diz-se encenação porque, exceto por efeitos especiais característicos do cinema – embora a televisão também cresça cada vez mais nesse quesito -, na maior parte do tempo a narrativa lembra um dos programas imersivos do Discovery Channel: linear, ora passeando de um ambiente a outro no acampamento, ora no gelo, com diálogos e atuações como as únicas ferramentas de interiorização dos personagens durante as ações.

Apesar da narrativa simples, porém, das produções do subgênero “histórias de montanha” Evereste talvez seja uma das mais eficientes em nos fazer temer o monte gelado. Primeiro, porque a ameaça é apresentada com grande realismo e angústia já no começo das duas horas de filme, quando os alpinistas ainda estão se adaptando ao ambiente tão rarefeito quanto imprevisível, e sabemos que os momentos realmente difíceis ainda estão por vir. Segundo, pelo incrível elenco, fundamental para dar consistência ao tom de toda a fita, mas que quando a desgraça começa graças ao azar e a um incidente – no que a bela, mas por vezes intrusiva trilha de Dario Marianelli, que se impõe mais do que o necessário em meros diálogos, cessa por completo – assume de todo a telona e dá um verdadeiro show. De um ambiente a outro, de uma ligação à outra, promete momentos realmente emocionantes. Terceiro, as reconhecidamente belas tomadas, figurino e maquiagem muito bem realizados (talvez um candidato ao Oscar).

Também é verdade que o roteiro é muito bom em trabalhar com o implícito, estabelecendo relações e evidenciando aspectos com meias palavras, apenas. Pena que sua timidez em interiorizar os personagens – recursos para tanto não faltariam, desde um maior foco em certos nomes até flashbacks pontuais que dialogassem com situações presentes – e a já apontada pouca eficácia do 3D não permitam que um bom filme se torne grandioso.

Evereste (Everest, EUA/Reino Unido/Islândia – 2015)
Direção: Baltasar Kormákur
Roteiro: William Nicholson, Simon Beaufoy
Elenco: Jason Clarke, Jake Gyllenhaal, Ang Phula Sherpa, Thomas M. Wright, Martin Henderson, Tom Goodman-Hill, Charlotte Bøving, Pemba Sherpa, Amy Shindler, Simon Harrison
Duração: 121 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.