Crítica | Everything Sucks! – 1ª Temporada

Não contém spoilers, nem o que foi revelado no trailer.

Freaks and Geeks é uma inesquecível série de high-school, que teve, infelizmente, devido a baixa audiência, apenas uma única temporada. Tudo funcionava naquela série. Os personagens eram marcantes, relacionáveis e/ou engraçados, os arcos instigantes e as histórias envolventes, preenchidas com doses fortes de entretenimento do mais alto nível. Mesmo tendo muito mais do que 10 episódios, as coisas andavam de uma forma apaixonante, quase como uma breve carta de compreensão e de amor sendo escrita na língua da juventude para a juventude, daquela época e de qualquer outra. Everything Sucks! é uma espécie de sequência espiritual, pegando todo aquele caráter oitentista e o transportando para os anos 90. Dentre as similaridades, a música é uma delas, tendo papel fundamental na jornada de seus personagens. Todavia, a diferença mais gritante de um seriado para o outro é que a nova produção da Netflix não tem, nem de longe, o mesmo charme. Como nem tudo são flores, muito menos espinhos, o nosso líder por essa caminhada dentro do mundo juvenil é um garoto super simpático chamado Luke O’Neil (Jahi Di’Allo Winston). Se a maior parte dos coadjuvantes não convence, ao menos o nosso protagonista segura bem as pontas, embora os roteiristas não o trabalhem tão bem quanto poderiam, encurtando mudanças de humor, as quais soam artificiais, e sendo incoerentes com os sentimentos que eles gostariam de fazer o público sentir pelo jovem.

Entre tanta carisma, a história vai moldando caminhos para o personagem prosseguir que são difíceis de comprar; caminhos que acabam o tornando antipático. A exemplificar, as maiores crises de raiva que acometem o herói da trama são trazidas para dentro do cenário do Clube de Vídeo. Na história, juntamente com o Clube de Teatro, Luke será responsável pela criação de um filme, após um determinado incidente criar rixas entre os dois grupos, e o garoto se responsabilizar pela direção do trabalho. Uma ótima premissa, definitivamente, mas mal explorada, visto que tudo parece ir de encontro com a ocasionalidade. Seria extremamente importante que nós sentíssemos o amor de Luke pela criação audiovisual, pelo cinema, mas muito de seu envolvimento nesse projeto permanece atrelado fortemente ao comportamento de segundos e terceiros, o que o torna deveras egoísta. Há um combate a essa característica do personagem no futuro, na mensagem, mas mesmo no egoísmo precisamos sentir, nem que seja por um pouquinho, como o personagem está se sentindo. Ademais, Everything Sucks! maneja mal as ideias do público em relação a série, de forma manipuladora, visto que informações sobre as orientações sexuais de determinadas pessoas necessariamente criam barreiras delas com outras, no sentido amoroso da situação, o que já nos prenuncia o que irá acontecer e não nos faz investir sentimentalmente em determinados arcos.

Por outro lado, Kate Messner (Peyton Kennedy), filha do diretor da Boring High School (nome sensacional para uma cidade), é uma personagem que sofre o contrário do que aconteceu a Luke. Após desenvolver um relacionamento com o garoto, embalado por seguidos usos sensacionais de alguns dos mais famosos hits da banda Oasis, Kate irá passar por uma jornada de descoberta sexual – estragada pelo trailer da série. Enquanto, em um primeiro plano, ela aparenta ser uma “aborrescente” comum, a atriz e o roteiro vão dando algumas saídas mais interessantes para a construção da personagem. Continua, porém, a sensação que falta empatia; falta a série nos jogar por completo para dentro daquele universo, nos fazendo comprar as frustrações e anseios dos personagens. Apenas na metade da trajetória isso é dado para nós, mas o vazio emocional não é completamente preenchido pelo que acontece no restante da história. Felizmente, há muito mais para ser avaliado do que apenas os protagonistas, razoáveis dentro de um escopo próprio, mas extremamente falhos se formos comparar com “competidores” que se saíram muito melhor em nos aproximar a suas figurinhas principais. A graça do negócio, a não ser determinadas cenas que, em contextos e com personagens melhores, seriam muito mais impagáveis, é vivenciar o relacionamento entre os pais dos dois “pombinhos”, crível (de certa forma, algumas atitudes do diretor, como fumar maconha no carro, são inacreditáveis, mas vamos lá, comprei a intenção) e natural, fomentado pelas semelhanças que um tem pelo outro, mas concretizado pelas diferenças.

Contudo, até nessa relação que estava surgindo de uma maneira orgânica, com calma, Everything Sucks! testa a nossa paciência com reviravoltas mal projetadas, que nos fazem olhar para certos personagens não como seres palpáveis, moldados por razão, mas bonecos sendo colocados onde Ben York JonesMichael Mohan bem entenderam. Sherry O’Neil (Claudine Mboligikpelani Nako) é um desses casos de mudança de certo ponto de vista para outro, que não são comprados pelo espectador, obrigado a engolir algumas situações abruptas. O que falta em pontuais acontecimentos é um texto que saiba transpor o que precisa transpor por meio de diálogos sinceros. De fato, há ocasiões que trazem interações certeiras, como a conversa (uma reviravolta impressionante no status quo, sentida pela atuação e pelo argumento) de Kate e Luke na ponte, pelo final da temporada, mas mesmo que haja motivação, que se consiga analisar algo que faça alguém agir de tal maneira, o audiovisual não tem de nos fazer saber das coisas, mas sentir as coisas. Todo o background do protagonista com seu pai distante, portanto, se quebra quando não há nada substancial para ser dito disso, deixando tudo para o futuro da série, que é promissor diante das nossas expectativas otimistas. O mesmo, felizmente, não pode ser dito sobre o que acontece entre Kate e seu pai Ken Messner (Patch Darragh), uma relação gradualmente aproximada, compreensível diante da dor que ambos nutrem pelo passado – e pelo presente.

No meio de tantos personagens deslocados, seja o pessoal do Clube do Vídeo, seja a galera do Clube do Teatro, Everything Sucks! não permite que nós sintamos todo aquele ambiente de high-school e suas conexões criadas, tanto as positivas quanto as negativas. É preciso que personagens como McQuaid (Rio Mangini) saiam da área do cartunesco e tornem-se seres vivos, relacionáveis. Acaba-se por ser incomparável os laços entre os membros do trio dessa série, quase automáticos, com os do trio de Freaks and Geeks. No passo que lá temos uma ligação extremamente forte entre a trindade, uma amizade verdadeira oriunda de uma natureza falha, Everything Sucks! não dá espaço para que algo seja efetivamente sentido. É uma série, enfim, insensível em boa parte, que demora muito para engatar. Dessa forma, é preciso muito mais do que algumas frases de efeito meia-boca e presunção de que somos fantoches compráveis, para que o louvor de Tyler (Quinn Liebling) por Oliver (Elijah Stevenson) funcione. O calouro e o veterano sendo amigos é, descaradamente, uma fabricação súbita. Contrapondo-os, Emaline Addario (Sydney Sweeney), seja com Oliver, com McQuaid e até com Kate, tem interações melhores norteadas, entendíveis e instigantes. Sendo assim, ignorando os vários deméritos, apesar dos risos provocados, dos sorrisos decorrentes de algumas cenas teoricamente magníficas e dos olhos que lacrimejam em momento bonitos e tristes, falta uma coisa essencial para Everything Sucks!: alma.  Que a segunda temporada da série nos faça sentir.

Everything Sucks! – 1ª Temporada – EUA, 2018
Criado por:  Ben York Jones, Michael Mohan
Direção: Michael Mohan, Ry Russo-Young
Roteiro: Ben York Jones, Michael Mohan, Noelle Valdivia, Hayley Tyler, Sean Cummings
Elenco: Jahi Di’Allo Winston, Peyton Kennedy, Patch Darragh, Claudine Mboligikpelani Nako, Rio Mangini, Quinn Liebling, Sydney Sweeney, Elijah Stevenson, Abi Brittle, Jalon Howard, Connor Muhl, Nicole McCullough, Ben York Jones, Zachary Ray Sherman
Duração: 10 episódios de 25 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.