Crítica | “Everything That You’ve Come To Expect” – The Last Shadow Puppets

estrelas 3

Quando The Age Of Understatement foi lançado, o Arctic Monkeys tinha somente dois discos lançados, mas já contava com fama o suficiente para que o projeto de seu vocalista, Alex Turner, e o amigo de longa data, Miles Kane, fosse levado a sério. O álbum foi enorme sucesso de crítica e de público, figurando no primeiro lugar das paradas britânicas.

Porém o Arctic Monkeys se tornou dessas bandas que lotam estádios, e de uma hora para outra, a continuidade da grande parceria entre Turner e Kane parecia abalada. Porém bastou alguns teasers na página de Facebook da banda para que o TLSP voltasse à ativa com Everything That You’ve Come To Expect, um álbum que mostra dois artistas explorando novas sonoridades, porém pecando em continuar o que deu certo na primeira obra.

Se com os Arctic Monkeys Turner parece navegar sempre por terrenos soturnos, em Everything That You’ve Come To Expect, a banda passeia pelas estradas costeiras da Califórnia ansiando por paixões ardentes.

Tentando fugir um pouco da dramaticidade latente do primeiro trabalho do grupo, o álbum traz uma enorme mistura de conceitos e gêneros que tem destaques individuais, mas que escutados em sequência parecem muitas vezes uma colcha de retalhos, com algumas músicas que pareciam estar guardadas na gaveta dos artistas. She Does The Woods lembra a sonoridade explorada no álbum Suck It And See. Já a faixa homônima lembra, sem o toque romântico, a balada No 1 Party Anthem do disco AM.

 Além disso, o álbum sofre de algo que pode ser considerado uma virtude e um defeito. Turner e Kane tem uma grande capacidade de repaginar gêneros e estilos musicais antigos. Usam de seus status de sex symbol para transformar a balada cinquentista Sweet Dreams, TN em uma música sensual que parece sempre que está prestes a explodir, enquanto que em The Bourne Identity abusam de uma sonoridade oitentista para fechar o álbum. O problema é que tudo isso, em conjunto, confunde o ouvinte. Não há conceito definido no álbum. Ao ouvi-lo inteiro de uma só vez, fica notável que o grupo queria explorar tudo o que desejavam, não se importando com um conceito sonoro, talvez o grande trunfo do primeiro álbum da banda. A falta de uma unidade na obra faz com que ele perca parte de sua vida útil.

Em Everything You’ve Come to Expect, a banda manteve a equipe do primeiro álbum e adicionou o ótimo baixista Zach Dawes. Junto com o baterista James Ford, a cozinha da banda se tornou um dos pontos altos de seu som, com uma dinâmica que foge do usual: quando normalmente o baixo mantém a base e a bateria o groove, no novo disco os papeis se trocam, e a bateria lembra quase uma batida sequenciada enquanto as linhas de baixo passeiam pelas músicas. Uma pena que na mixagem, os graves não foram tão realçados, tornando difícil escutar o ótimo baixo em fones convencionais.

A mixagem aliás, parece ter dado enorme atenção ao naipe de cordas incessantemente usado durante todo o trabalho. Não é incomum escutar algumas faixas do disco que tem os violinos e cellos mais altos que as guitarras. O problema é que há momentos da obra que outros instrumentos poderiam ser mais bem explorados, mas acabam ficando em segundo plano pela predileção ao naipe de cordas, muitas vezes redundante.

O segundo álbum de The Last Shadow Puppets mostra uma banda mais solta, mais aberta a explorar novos sons, mas assim como toda experiência, mostra falhas que acabam afetando músicas que mostram potencial. Porém, como um todo, Everything That You’ve Come To Expect é bom álbum que esbarra em cacoetes que tiram um pouco da vida útil da obra.

Everything That You’ve Come To Expect
Artista:
The Last Shadow Puppets
País: Inglaterra
Lançamento: 1º de abril de 2016
Gravadora: Domino Records
Estilo: Rock, alternativo

PEDRO BORG . . . Músico frustrado, cineasta sem paciência e pitaqueiro de primeira linha. Estudante de jornalismo que teve que se aventurar pelo áudio visual para descobrir que o que gostava mesmo era de escrever. Dependente químico de fones de ouvido e fã incondicional de Led Zeppelin, Miles Davis. Crente que a música é a única coisa que faz sentido no mundo. Hiperbólico.