Crítica | Evil Dead 2 – Uma Noite Alucinante (1987)

Evil Dead 2 é um caso raro no cinema. Como aponta Bill Warren no livro Evil Dead – Arquivos Mortos, a produção é uma sequência que não continua exatamente a histórica precedente, como uma espécie de “As Mil e Uma Noites” versão terror. Seis anos depois do sucesso de A Morte do Demônio, Sam Raimi e a sua equipe retornaram para um segundo filme, amparados, desta vez, pela produção da empresa de Dino De Laurentis, tornando os problemas financeiros da primeira parte uma memória distante.

A produção surgiu em um momento marcante para a história do gênero terror. Os slasher movies estavam em decadência. A Hora do Pesadelo, Halloween e Sexta-Feira 13 eram as principais franquias da época, mas já demonstravam sinais de cansaço. Brinquedo Assassino, a refilmagem de A Bolha Assassina e esta sequência de A Morte do Demônio, são alguns dos fatos que apontavam um novo direcionamento para os filmes de terror.

No filme, Ash (Bruce Campbell) e a sua namorada Linda vão para a cabana escondida no interior de um bosque sombrio. Quando chegam ao local, descobrem o Livro dos Mortos, despertam forças malignas da floresta e um banho de sangue, vísceras e membros decepados demarcam mais uma imersão do espectador no universo macabro-cômico de Sam Raimi. Desta vez, um grupo de pessoas, incluindo um arqueólogo e a sua filha “quase” protagonista surgem para aumentar a contagem de corpos transformados em seres demoníacos.

Para os fãs inveterados do primeiro filme, esta continuação é um choque. O rumo dado pelo diretor é outro: há a violência gráfica do antecessor, mas a aposta nos pressupostos do humor ganha maior destaque. A fabulosa câmera que ziguezagueia o bosque, através do enquadramento subjetivo, um dos melhores detalhes técnicos do primeiro, está de volta neste, aliada ao excelente trabalho de som e ao ótimo apoio da iluminação, recursos mais sofisticados por conta do orçamento mais estruturado.

Sam Raimi flerta mais com o estilo fantástico desta vez. Trouxe alguns elementos visuais que nos remete ao gótico e referências literárias e cinematográficas. Há uma cena envolvendo uma mão decepada, relacionada a um plano detalhe numa edição do livro Adeus às Armas, de Hemingway, bastante significativa. “O que esperar da passagem? Provavelmente nada, mas talvez – apenas talvez – a chave para outro mundo.” Essa é uma das citações do universo cinematográfico, extraído do filme Desafio ao Além, um clássico de 1963, dirigido por Robert Wise. O excerto faz parte do diálogo entre dois personagens sobre uma passagem tridimensional citada no Livro dos Mortos, em determinado ponto crucial do desenvolvimento do filme.

Por falar em passagem, é essa a palavra que define a continuidade da franquia. Ash vai abrir uma portal que o remeterá para a Idade Média. Será a vez de confrontar demônios voadores, feiticeiros, soldados do mundo dos mortos e outros itens da iconografia fantástica, retirados do background de Sam Raimi, um cineasta cheio de informações literárias e cinematográficas que fermentaram durante algum tempo para se transformar nesta franquia sangrenta, divertida e, em quase todos os seus momentos, “alucinante”. Essa empreitada na “Idade das Trevas” (nomenclatura e conceito equivocado, segundo estudos contemporâneos) será material, entretanto, para o irregular Evil Dead 3.

Com maior orçamento, Evil Dead 2 seguiu outro rumo, aproximando-se mais da ironia e da comédia e pode ser pensando como um rito de passagem para o terceiro filme, haja vista que tivemos o primeiro excessivamente violento, mesclado esta continuação também violenta, mas adornada com humor, desaguando no último episódio da trilogia, uma produção mais próxima da comédia e do fantástico, com contagem de corpos mais significativa, porém com uma dose menor de sangue e tripas, bem como qualidade narrativa e poder de convencimento junto ao público.

Indicado ao Saturn Awards na categoria de Melhor Filme de Terror em 1987, Evil Dead 2 é cheio de reencenações do filme anterior, mas não se engane: não é uma refilmagem, como afirmam muitos textos que circulam por ai. Ao longo dos seus 85 minutos, há uma série de situações absurdas, mas o que esperar de uma obra que está inserida em tantas categorias, entre elas, o horror e o fantástico? Monstros gigantes, árvores ameaçadoras, demônios bem caricatos e muitas cenas de pavor mescladas com momentos hilariantes.

Evil Dead 2 (Evil Dead 2) – Estados Unidos. 1987.
Direção: Sam Raimi.
Roteiro: Sam Raimi, Scott Spiegel
Elenco: Bruce Campbell, Sarah Berry, Danny Hicks, Kassie DePalva, Lou Hancock, Denise Bixler, Richard Domeier, John Peaks
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.