Crítica | Uma Noite Alucinante 3 (1992)

estrelas 3

Sam Raimi é um gênio. Com seu potencial inventivo, foi considerado por muitos o cineasta do excesso, sempre vinculado ao gênero terror, mesmo que durante a sua carreira, tenha gerenciado outros processos produtivos. O recente Oz: Mágico e Poderoso, os três filmes da franquia Homem-Aranha, o western Rápida e Mortal, a aventura sombria Darkman: Vingança sem Rosto, o romance glicosado Por Amor e o suspense O Dom da Premonição são provas cabais do talento deste realizador que já provou há tempos a sua capacidade de ir além do banho de sangue e dos elementos de ordem nonsense que gravitam em torno da franquia Evil Dead.

Por falar em nonsense, será esse o conceito que precisará nortear a sua relação com a guerra metafórica entre os seus olhos e as imagens aparentemente absurdas e sem nexo do filme. Conhecida por ter sido abordada em diversos elementos artísticos na cultura mundial, como os poemas de Edward Lear e alguns escritos de Oscar Wilde, a categoria nonsense dialoga com a ideia de algo sem sentido e disparatado, ou seja, o contra-senso, aquilo que deforma a ordem reta das coisas, algo que cria uma atmosfera de confusão e desorganização perante a nossa postura racional ao observar as coisas.

É algo perfeitamente aceitável no campo das artes. Para isso, entretanto, é preciso estabelecer um contrato. As vanguardas dadaístas e surrealistas, por exemplo, em difusão mundial com a expansão do movimento modernista europeu demonstram que é possível trabalhar com estes elementos e extrair sentidos onde aparentemente não haja. Prova disso? Basta pensar que a ausência de sentido é uma forma utilizada por artistas que se utilizam deste conceito para quebrar as regras tradicionais internas de determinadas expressões culturais vigentes em períodos específicos na história da humanidade.

No filme Ash (Bruce Campbell) é redimensionado para o século XIV e precisará enfrentar um exército de mortos-vivos. Essa trupe de seres sobrenaturais é liderada por Evil Ash (o duplo de Campbell em Evil Dead 2 – Uma Noite Alucinante). Assim que chega ao período medieval, o personagem é jogado em um poço e obrigado a lutar com uma criatura abominável. Ao sair intacto, Ash é tido como um “salvador”.

Alçado a uma nova categoria, o herói é convocado para recuperar o perigoso Livro dos Mortos, mas algo acontece errado no caminho e ele precisará, através da sua sabedoria, adquirida com base nos filmes anteriores, salvar a tal “pátria” e a si mesmo, no episódio mais irreverente da franquia A Morte do Demônio.

O roteiro, assinado por Sam Raimi e Ivan Raimi continua referenciado manifestações cinematográficas e literárias bastante conhecidas. Um trecho lido de forma equivocada por Ash, em determinado ponto conflituoso do roteiro, é responsável por despertar não apenas os mortos, mas a memória do cinema. A citação é uma referência ao clássico O Dia em Que a Terra Parou, de 1951. A cena de luta entre Ash e as suas miniaturas traça um paralelo divertido com As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift.

O texto escrito pelos irmãos Raimi desenvolve o personagem Ash, um pouco estagnado desde Evil Dead 2. Se em Evil Dead – A Morte do Demônio, ele era um rapaz romântico e quieto, no segundo episódio o rapaz é pouco desenvolvido, já que a história não dá muito espaço para o personagem, mas foca na transferência de estilo que traça uma ponte entre o sangue e o macabro do primeiro para o nonsense e o caricatural do terceiro. Em Evil Dead 3 – Arms of Darkness, Ash é rude, grosseiro e possui traços de um herói, longe do status de vítima dos anteriores. Esse estilo, inclusive, é o que foi mantido durante os dez episódios de Ash vs. Evil Dead, um investimento bem sucedido para o formato seriado lançado em 2015, com garantia de segunda temporada mesmo antes da estreia do episódio piloto.

Na seara técnica, o filme não fica devendo nada aos anteriores. A maquiagem é eficiente, os efeitos visuais irreverentes e sofisticados para a época em algumas cenas, mas também caricatos e propositalmente teatrais, permitindo que recordemos de algumas cenas dos primeiros filmes realizados pelo cinema, como por exemplo, as produções de Melies e alguns filmes da Primeira Era de Ouro dos filmes de horror.

Produzido em 1992, foi lançado um ano depois, diretamente no mercado de VHS no Brasil. Muitos fãs dos filmes anteriores, especialmente do primeiro, abominam o terceiro episódio desta trilogia. Particularmente, acredito que se seguirem os conselhos fornecidos logo no começo do texto, provavelmente passarão, assim como eu, a ver o filme de forma diferenciada, aceitando-o melhor que no primeiro impacto.

Visto hoje, Evil Dead 3 parece uma piada cinematográfica. E sim, é uma piada, afinal, desde quando a piada se tornou algo sem significação ou importância? Tudo depende de como ela é contada, e no caso de Sam Raimi, convenhamos, há uma imensa gama de subtextos disponíveis para interpretação. Basta que tenhamos a boa vontade de acionarmos o nosso repertório cultural ao assisti-lo.

Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness) – Estados Unidos. 1992.
Direção: Sam Raimi.
Roteiro: Sam Raimi e Ivan Raimi.
Elenco: Bruce Campbell, Marcus Gilbert, Ian Ambercrombie, Richard Grove, Bridget Fonda, Patricia Tallman, Michael Earl Reid, Timothy Patrick Quill.
Duração: 81 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.